‘State of the union’: Frears em pílulas

‘State of the union’: Frears em pílulas

Rodrigo Fonseca

05 de setembro de 2019 | 08h25


Rodrigo Fonseca
Distante das telonas há dois anos, desde o lançamento comercial do insosso “Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha”, o inglês Stephen Frears não para de fazer televisão, sobretudo após o sucesso de “A Very English Scandal”, feito para a BBC e exibido aqui na grade da Globoplay, com Hugh Grant no apogeu de seu talento. Ele agora trabalha em “Quiz”, uma minissérie em três episódios baseado em texto teatral homônimo de James Graham. O foco: um escândalo envolvendo a participação de um oficial britânico no programa de variedades “Who wants to be a millionaire?”. Mas há um projeto genial dele, lançado em maio, apenas na Sundance TV, que está se tornando um fenômeno na web: “State of the union”, uma série em dez episódios em forma de uma comédia (quase) romântica. Nela, o diretor de “A rainha” (2006) se debruça sobre uma história de marido e mulher que estão em vias de separação definitiva, revendo a love story deles de sua gênese até sua desagregação. O roteiro é do escritor Nick Hornby (de “Um grande garoto”) e cada tomo dessa trama idealizada por ele dura apenas dez minutos. Nela, a geriatra Louise (a sempre talentosa Rosamund Pike, de “7 dias em Entebbe”) se encontra com o quase ex, o crítico musical Tom (o brilhante Chris O’Dowd, de “O lar das crianças particulares”), em um pub, semana a semana, para que os dois frequentem uma terapia de casal. Frears vai dissecar o conflito deles em paralelo a debates políticos e sociais da Europa e do mundo, como o Brexit e a guerra da Síria. São reflexões entre os verbos “amar” e “viver” com o olhar crítico (distanciado) que o cineasta de 78 anos aplicou a filmes como “O amor não tem sexo” (1987) e “Minha adorável lavanderia” (1985).

“Gosto de ambiguidades morais pois elas são constitutivas de nossa forma de lidar com a vida, em nossas escolhas, em nossas renúncias. Eu sou um cineasta cuidadoso com questões de espaço, com a relação do ambiente… do território… na maneira como as pessoas se portam. Se você volta a um filme como ‘Ligações perigosas’, por exemplo, tudo ali depende de termos uma corte. Mas não creio que isso seja o que chamam de ‘marca autoral’”, disse Frears em Sundance, ao lançar State of the Union, hoje perseguida por internautas em todos os cantos da web.

Famoso por filmar rápido, usando ao máximo a criatividade de seus atores na condução de um roteiro, Frears completou cinco décadas de carreira em 2018. Esperou-se dos grandes festivais de cinema, no ano passado, alguma homenagem à efeméride: em 1968, o curta-metragem “The burning” marcou a estreia deste inglês de Leicester – responsável por cults como “Ligações perigosas” (1988) – no posto de realizador. O mercado editorial lembrou da data: livrarias da Inglaterra celebram o jubileu de ouro de um de seus mais prolíficos (e provocativos) cineastas com a publicação de “The ironic filmmaking of Stephen Frears”, de Lesley Brill. O livro, que rastreia e discute as reflexões sociais e políticas da obra do diretor, chega ao público junto com a versão digital (em DVD e blu-ray) de “A very english scandal”, que rendeu o Globo de Ouro de melhor coadjuvante a Ben Whishaw. Aclamado pela imprensa europeia, esse projeto tornou-se um de seus maiores êxitos recentes.
“A palavra ‘cinema’, pra mim, é sinônimo de trabalho. Eu não venho de uma família de artistas, nem fui educado para ser um, mas cresci vendo filmes… cresci dentro de uma sala de cinema… e, lá, decidi o que queria fazer”, disse Frears em recente entrevista ao P de Pop, no Festival de San Sebastián, durante a preparação de “A very english scandal”. “Filmar não é algo sobre o qual eu teorize: eu faço. Tem que filmar, eu filmo. Fiz um curta em 1968 e cheguei aos longas em 1971, quando fiz ‘Gumshoe, detetive particular’, um filme me deu alguma prática. Revi cenas dele um dia desses, em uma projeção em Londres e enxerguei qualidade nele. Acho que, com o tempo, eu cresci, aprendi coisas, melhorei de alguma forma. Mas não tento definir nada. Tento reagir ao mundo e buscar grandes personagens”.

É raro na indústria de filmes independentes – sobretudo a da Inglaterra – um diretor manter uma produtividade tão alta quanto a de Frears, que, desde 2000, vinha mantendo um padrão de um longa-metragem por ano (às vezes dois). Mas 2018, justamente quando fez 50 anos de cinema, representou uma espécie de período sabático das telonas para Frears. A boa acolhida na BBC de seu “A very english scandal” garantiu a ele um gás a mais nas experiências com a linguagem televisiva, que ele já domina desde o fim dos anos 1960, quando dirigiu episódios da série “Parkin’s Patch”. “Fui buscar no Real uma história que algumas pessoas definem como um escândalo político, mas que eu encaro como uma história de amor”, disse o cineasta à imprensa inglesa na estreia da minissérie com Grant e Whishaw.
Já à venda na Amazon, em DVD, além de estar acessível no streaming da TV Globo, o vigoroso “A very english scandal” revive o tumulto que se estabeleceu no governo britânico quando o líder do Partido Liberal Jeremy Thorpe (papel de Grant) foi acusado de tentar assassinar seu ex-amante, o jovem Norman Scott (Whishaw). Essa acusação disparou uma série de alarmes morais, a maioria de ruídos homofóbicos. “Grant me ajudou a encontrar uma aura de glamour”, disse Frears, um dos gigantes do cinema inglês, à sua maneira… intensa, mas discreta.

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