‘Stars at Noon’: viagem sensorial arrebatadora

‘Stars at Noon’: viagem sensorial arrebatadora

Rodrigo Fonseca

25 de maio de 2022 | 21h33

“Stars at Noon” fez jus à expectativa de Cannes e solapou a competição pela Palma de Ouro com uma narrativa cheia de sinestesia, apoiada na inteligência e na vontade de potência de Margaret Qualley

RODRIGO FONSECA
Freelancer sem página em branco ou post pra preencher, Trish – a protagonista do diamante chamado “Stars at Noon”, em competição em Cannes – vive mal do Jornalismo, em especial no canteiro da Nicarágua, vetorizado por dilemas políticos da Costa Rica, pra onde escolheu viajar. A viagem partiu de um princípio de indisfarçável xenofobia: “Eu queria ver o tamanho que o Inferno pode ter, por isso vim”. A fala é mais ou menos assim. Há outros comentários, dela e (sobretudo) de homens que cruzam o seu caminho, que desabonam a América Central. Soa sempre áspero ouvir o que se diz dessa porção de nosso continente. Mas, cada fala dessas transborda o miolo existencial de Trish e dos satélites de sua aventura longe dos EUA, em plena pandemia. Transbordar é o verbo central dessa personagem que arrebanhou olhares e sentidos afins na briga pela Palma de Ouro de 2022, calçando-se no despojamento radical de vaidades de sua estrela, Margaret Qualley, e, também, na natureza sinestésica da obra de sua realizadora, Claire Denis. Margaret lembra Jeanne Moreau em “Jules et Jim” (1962) e “Miou-Miou em “Corações Loucos” (1974). É uma figura empoderada de liberdade plena, como só Claire sabe construir, em parceria com uma estrela em estado de graça.
Dois meses antes de terminar esse longa, em fevereiro, a aclamada diretora francesa de 76 anos, cultuada por “Nenette e Boni” (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996), “Bom Trabalho” (1999), “High Life” (2018) e outras pérolas deu uma entrevista ao Estadão e ao site C7nema, falando da gênese dramatúrgica de seus filmes. Por ter parentes no Brasil, topou falar conosco, a fim de poder entender melhor nossa realidade, em meio a crises políticas e ao “racha” em relação à vacina contra a covid-19, num negacionismo que nos aferroou ao ranço medieval em meados do surto pandêmico. La Denis estava prestes a exibir o belo “Avec Amour et Acharnament” na Berlinale – onde conquistou o Prêmio de Melhor Direção –, mas ainda estava na ilha de edição, a montar a saga de Trish. “Existe uma diferença simbólica estrutural entre fazer filmes e fazer cinema. Algo conceitual. Cinema é algo miraculoso, a abstração, o sonho do artista. Filme é a matéria viva, o objeto. Há questões sociais da França que me rondam a cabeça, como existem questões da África. Isso tem, sim, um componente político. Mas a noção que me guia é outra. O diretor Jacques Rivette dizia que, independentemente da ideologia, um artista sempre se manifesta por UM ponto de vista, uma escolha moral. A minha verdade, no confronto com as diferenças, talvez seja a cartografia do que os corpos expressam, do que um rosto revela sobre a intimidade de cada um. Eu nunca me imaginei fazendo uma ficção científica. Mas resolvi desbravar o gênero, num filme feito em estúdio, analisando a intimidade de pessoas presas numa nave. O espaço da minha narrativa não são as estrelas, mas o espaço do amor”, explicou(-se) Claire, que pode (e merece) ser galardoada com mais um troféu de Direção – isso se não receber o Grande Prêmio do Júri, ou até a Pama – em Cannes, no sábado, no encerramento da 75ª edição do evento cinéfilo da Côte d’Azur.

A cineasta Claire Denis

Nenhum dos concorrentes já exibidos no Palais des Festivals, desde o dia 18, tem o grau de sinestesia que “Stars at Noon” alcança, a partir da fotografia de Éric Gautier, tanto no modo de enquadrar o espaço do Panamá (onde as filmagens aconteceram, reproduzindo a paisagem nicaraguense), quanto na maneira de enquadrar os corpos. Isso vale tanto para suor nos cabelos até para um batom mal besuntado, chegado ao clímax de fisicalidade na sequência em que Trish cospe em um agente da lei e a saliva escorre pela sua boca, pendurada dos lábios, espumando raiva. É a estética de Claire, que vem de sua experiência como documentarista (vide “Vers Mathilde”) e chega à ficção. Não por acaso, como seu novo filme é uma história do agora, há máscaras e cartazes falando de coronavírus por todos os lados, incluindo um teste de PCR feito em Trish. “Essa sensação de expor o real vem de eu não tentar mascarar o que se passava. Queria mostrar o que a gente estava vivendo, como era… aliás, como é. É a realidade, é a vida… e o cinema é parte dela. No início dos anos 1990, eu rodei, em Nova York, um filme de uns 40 minutos chamado “Keep it for yourself”, num clima frio, sob uma temperatura mais baixa do que a do inverno em Paris. As pessoas tentavam se abrigar do vento gélido como podiam. Ali, eu via atores como Vincent Gallo se contorcendo, buscando calor. Eu fui prestando atenção nos corpos e vendo o quanto um rosto pode ser uma paisagem cheia de espaços a serem investigados. Esse contato ampliou a minha percepção das diferenças”, disse a diretora, que fez da covid-19 uma tapeçaria para cobrir o mundo europeu devassado por ela em “Avec Amour et Acharnament”.
Ainda inédito no Brasil, seu trabalho exibido e laureado em Berlim é, antes de tudo, uma história de amor. Quase sempre há amor quando se fala em Claire. E o que mais surpreende em “Stars at Noon”, inspirado por um romance de Denis Johnson, é o fato de ela se ancorar no querer em meio à tanta coisa que cerca Trish. Existe a luta por dinheiro, que arrasta a repórter por mil armações e a um papo (genial) via Zoom com um editor, interpretado por John C. Reilly – em rápida e impagável participação. Existe a CIA, que zumbe feito mosca sobre a carniça das finanças costa-ricenses (boa parte da ação do longa se refere à Costa Rica, apesar de se fincar na Nicarágua). Existem autoridades querendo saber por qual motivo Trish ainda não voltou pra casa, na América. Há uma dona de hotel que zanga sempre que a americana pede para usar o telefone. E existe a pandemia. Mas, apesar de tudo isso, o encontro com um inglês de fino trato, Daniel (Joe Alwyn, que substituiu Robert Pattinson em cima da hora, e o fez bem), tira de Trish a percepção do risco, dos precipícios.

Parceira habitual da cineasta, a banda Tindersticks embala a paixão que nasce entre Trish e Daniel com acordes charmosos, que tonificam o gostar sem avassalar a imersão da plateia no mundo suarento à sua volta. Claire nem deixa isso acontecer, movendo sua câmera para as mais variadas direções, fitando um céu de pássaros, cachos de banana, ruas de calçamento irregular. Tudo é importante, não como informação, mas como sensorialidade, como calço para que o espectador se balize e respire o cheiro da América Central. E Margaret, numa atuação madura e radiante, molda-se a tudo de que Claire precisa para nos tirar da inércia e nos enfiar numa trama de thriller, em que pouco se explica e muito se sente.
É uma dramaturgia viva. Se “Crimes of the Future”, do canadense David Cronenberg, é um termômetro da nossa falência em ouvir os disparates do Presente, “Stars at Noon” é o registro do nosso impasse de sentir. São os dois mais inquietantes filmes de uma competição de Cannes que tem ainda “Armageddon Time”, “EO”, “R.M.N.” e “Nostalgia” entre os melhores candidatos aos prêmios que o júri presidido pelo ator Vincent Lindon tem para dar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.