Stallone faz 75 anos cheio de filme pra lançar

Stallone faz 75 anos cheio de filme pra lançar

Rodrigo Fonseca

06 de julho de 2021 | 10h21

Stallone é um super-herói aposentado em “Samaritan”

RODRIGO FONSECA
É o dia dele, de Sylvester Stallone, que nasceu em Nova York em 6 de julho de 1946. São 75 anos de vida e 52 de uma carreira que, este ano, será renovada com três filmes. Vem por aí: a) dia 5 de agosto tem “O Esquadrão Suicida”, no qual ele empresta a voz e o carisma ao Turbarão Rei; b) no dia 11 de novembro vem “Rocky Vs. Drago – The Ultimate Director’s Cut”, no qual ele redesenha cenas do sucesso de 1985; c) até o Natal chega “Samaritan”, filme de super-herói em que ele interpreta um vigilante aposentado, obrigado a usar os superpoderes para ajudar um garotinho. São novas andanças de uma estrada que, em 2019, o levou a Cannes, para uma homenagem pelo conjunto de sua travessia pelas telonas. Na ocasião, ele falou ao Estadão, num rendez-vous com a plateia cannoise, de seu sonho de retomar um velho personagem. “Muita gente fala de Rocky e Rambo, mas eu tenho muito carinho por ‘Stallone Cobra’, cujo personagem é uma espécie de Bruce Springsteen com um distintivo. Ele fez muito sucesso à época e eu penso até hoje que poderiam fazer uma série com Cobra e sua força policial, o Esquadrão Zumbi, só que sem mim, que já não tenho mais idade para ele”, disse o ator ao Estadão, esbanjando bom humor.
Contando anedotas (“um dia o Schwarzenegger veio dizer que eu tenho sotaque falando… logo ele”) e disparando frases motivacionais (“você nunca pode baixar a guarda e deixar de socar os desafios”), Stallone foi tratado por Cannes, na conversa conduzida pelo crítico Didier Allouch, como um multiartista de verve autoral. De fato, desde 1978, quando filmou “A Taverna do Inferno”, ele dirige, roteiriza e produz. “Eu já fiz muito filme ruim, na entressafra entre projetos grandes que os estúdios armavam pra gente com muita antecedência. Às vezes, a minha filha mais nova vê algo ruim que fiz na TV e me sacaneia: ‘Pai, como você embarcou numa m… dessas’. E eu digo: ‘Bom, eu precisava pagar seus estudos, né?”.

Até hoje, depois de cinco décadas de carreira, Gabe Walker segue sendo o personagem mais injustiçado da carreira de Stallone, não que o alpinista não seja reconhecido no imaginário cinéfilo, mas sua fama é menor do que merecia, dada a força que deu para seu intérprete, coroando uma trajetória dele por diferentes esportes e atividades físicas. Houve o boxe de Balboa; a queda de braço de “Falcão”, a luta livre em “A taverna do Inferno” (1978), seu primeiro trabalho na direção; o futebol em “Fuga para a vitória” (1981), de John Huston, no qual contracenou com Pelé; e o automobilismo em “Driven” (2001). A cota do montanhismo veio com Gabe, em “Risco total” (“Cliffhanger”), produção de US$ 70 milhões que faturou US$ 255 milhões num momento proscrito do eterno Rambo. Devastado por um par deexperiências fracassadas pela comédia, como “Oscar – Minha filha quer casar” (1991) e “Pare, senão mamãe atira” (1992), Sly parecia condenado ao sumiço, na década de começava. Era um período no qual seu rival (futuro amigo do peito) Schwarzenegger brilhava absoluto com “Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final”. Era um período no qual a Fox apostou em Steven Seagal (em “Marcado para a morte”, 1990) e estúdios como Columbia e Universal resolveram comprar o passe heroico do grande dragão belga Jean-Claude Van Damme (com “Duplo impacto”, 1991). Mas ninguém se interessava por Stallone, que amargou cifras pálidas no “Rocky V”. Velhas fórmulas não serviam mais para ele. Nem as tramas cômicas: abriu mão de uma terceira história bem-humorada, “Bartholomew Vs. Neff”, em que contracenaria com John Candy, sob a direção de John Hughes.

Em tempos de vacas magras, ele tinha um filme de monstro para protagonizar e um projeto com ares de “cinema catástrofe” sobre um furacão. Os dois caducaram e sobrou a saga de um alpinista, especializado em salvamentos nas montanhas, que sai de cena depois de falar em uma operação para resgatar a namorada de seu melhor amigo. Anos depois da tragédia, Gabe regressa à estação de resgate onde trabalhava e encontra um perigo inusitado: terroristas estão na área, atrás de uma fortuna em dinheiro que se perdeu na neve, nas alturas. O líder da célula criminosa, Qualen (John Lightgow em memorável atuação), força Gabe a ajuda-lo, sob a ameaça de exterminar seus colegas. Mesmo avesso à tarefa e a todas as formas de violência, ele precisa entrar em campo, realizando saltos e escaladas que desafiaram a lei da física, sob a direção do cineasta finlandês Renny Harlin. O cineasta assumiu o projeto amparado pela boa repercussão de se “Duro de matar 2” e sua estrela de boa sorte se fez notar de novo.
Exibido em Cannes, em projeção especial, “Risco total” foi um fenômeno de bilheteria em todo o mundo, inaugurando um novo padrão de realismo nas cenas de ação. À época, Stallone falou: “Desconfio de astros que, neste momento da História, precisem pegar em armas para fazer sucesso”. Com tintas ecológicas, o longa é até hoje encarado como uma virada na busca pela excelência visual de seu gênero, marcado pela marca autoral de Sly: Gabe também tem coisas presas no porão.
Parabéns, Sly. Seja para sempre…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.