Stallone e o momento mais comovente do cinema em 2016

Stallone e o momento mais comovente do cinema em 2016

Rodrigo Fonseca

29 Dezembro 2016 | 19h46

Stallone é Rocky Balboa em

Sylvester Stallone é Rocky Balboa em “Creed: Nascido para Lutar”, no qual treina o jovem Michael B. Jordan


RODRIGO FONSECA
Se a meta das retrospectivas é imortalizar momentos que alargaram nossas pupilas e ampliaram – pela sinestesia – nosso entendimento do mundo, cabe, obrigatoriamente, no balanço cinematográfico de 2016 o momento em que Sylvester Stallone recebeu o Globo de Ouro de melhor coadjuvante por seu desempenho em Creed – Nascido para Lutar – uma atuação devastadora. Ao receber a láurea, ele demonstrou sua alegria dizendo: “Queria agradecer a Rocky Balboa por ser o melhor amigo imaginário que alguém poderia ter”. Aquele foi o momento mais bonito do cinema em 2016, que acolheu um dos filmes mais possantes do ano em termos de buscas estéticas. Por quê? É o seguinte…

Probabilidades, esta é a palavra que mais interessa ao olhar do cineasta Ryan Coogler, americano nascido na Califórnia há 29 anos que ganhou notoriedade com Fruitvale Station em 2013. Em 2015, ele galgou o panteão de Hollywood com o fenomenal Creed – Nascido para Lutar. Alguns chamam o filme de Rocky 7, uma vez que ele traz de volta o Garanhão Italiano, Balboa. Mas o personagem volta aqui com um vigor dramático como o pugilista nunca apresentara antes, visto que seu intérprete, Sylvester Stallone, hoje um septuagenário, usa cada ferramenta gestual que tem para transcender suas limitações. E seria injusto dar ao longa-metragem o nome de seu coadjuvante, mesmo que ele nos leve às lágrimas mais de uma vez, pois a estrela maior é o próprio cineasta, num exercício de autoralidade explícita. Como em seu longa anterior, centrado nas horas finais de um jovem vítima do racismo, Coogler se detém sobre situações prováveis, sobre escolhas e suas consequências, mas isso sempre à luz da discussão da exclusão social. E, em ambos, o protagonista é o mesmo, o perseverante Michael B. Jordan.

Sylvester Stallone as Rocky Balboa in CREED. ©Warner Bros. Entertainment/MGM Pictures. CR: Barry Wetcher.

Globo de Ouro de coadjuvante para Sly

Agrilhoado ao factual, Frutirvale Station era uma pensata de timbres semidocumentais sobre o que poderia ter sido da vida de uma vítima do preconceito econômico se ele não tivesse estado em uma estação ferroviária na hora de um tumulto. É dramaturgia de digressões. Como ele poderia ter sido feliz por mais tempo? Como ele poderia ter um novo caminho? Menos digressivo, Creed também se pauta por perguntas. O que teria sido de Adonis (Jordan, numa atuação exemplar) se ele tivesse se conformado com o conforto familiar de sua tutora, a viúva de seu pai, Apollo (Carl Weathers), e recusado a centelha guerreira em seu sangue? O que teria sido de jornada se a inquietude frente às ausências e carências de sua infância pobre, antes da adoção,  fossem menores? Como teria sido a experiência de abraçar Apollo?

 

As hipóteses vão sendo respondidos a socos, não dos adversários de ringue, mas da vida, que prega uma peça no jovem lutador a cada opção tomada, a cada decisão. E o roteiro de Aaron Covington e Coogler sustenta esse espancamento pelos dilemas do verbo viver com uma estrutura mais preocupada com o drama e desenvolvimento emocional de Adonis do que com a violência. Esta se faz presente nas lutas numa forma isenta de juízos acusatórios. Há adrenalina aos litros, cativando a plateia na edição, assinada pela carioca Cláudia Castello em parceria com Micahel P. Sahwyer.

 

Mais do que isso, há linguagem, coisa que raras vezes a franquia Rocky teve, apesar de todo o esmero fabular do longa original, de 1976, graças à mão refinada de John G. Avildsen. Aqui, Coogler incorpora elementos do jornalismo esportivo, com vinhetas, comentários, grafismos digitais, dando um dinamismo à montagem que eleva a dimensão de espetáculo desta produção de US$ 35 milhões. Mas nada em cena se equipara a dinâmica de Stallone, num esforço de converter o arquétipo do animal selvagem ferido pelas mazelas do dia a dia no arquétipo do sábio, que acolhe e ensina.

 

A beleza de Creed se articula com uma comemoração histórica para o pop: os 40 anos de Rocky, Um Lutador (1976). Em nome da celebração desse aniversário, num misto de genealogia da moral cinéfila com reflexão antropológica, um par de documentários relacionados à figura do pugilista Rocky Balboa revivem um trecho pouco analisado do cinema americano dos anos 1970 – tempo da chamada Nova Hollywood ou Easy Rider Generation – no qual valores e virtudes da era clássica dos EUA nas telas voltam à tona, contrariando o turbilhão contracultural, quase sempre de esquerda, do início daquela década. Ambos dirigidos por Derek Wayne Johnson, os dois filmes em questão são The King of Underdogs e 40th Years of Rocky – The Birth of a Classic. O segundo explica-se pelo título: bastidores do sucesso de 1976, que deu aos contos de fada uma dimensão social, numa espécie de Cinderela de luvas de boxe. Já o primeiro é uma investigação sobre a trajetória de sucessos de John G. Avildsen, o diretor que transformou Sylvester Stallone em astro e que faria ainda a franquia Karate Kid, outro marco da cultura pop.

 

Os dois docs existem como celebração das quatro décadas de Balboa. E ela puxa outra história – esta, real. Ela depende que você volte 31 casas (ou anos) até 1987.

Estamos no subúrbio do Rio de Janeiro, Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, em Bonsucesso. Era uma época de brutalidade, que recrudesceu década a década. Naquele tempo, a Polícia – com o apoio das Forças Armadas – instalaram um posto de vigia por lá, em função de suas trocas de tiros com os traficantes locais. A fim de controlar a população, revistava-se a tudo e a todos, inclusive um português já cinquentão àquela época, que andava sempre sujinho de poeira de batatas e de graxa. O nome dele era João dos Reis, um quitandeiro egresso de Armamar, em Lamego. Seu João, quase analfabeto, sempre armado com um galhinho de arruda na orelha, falava com um sotaque carregado e não sabia escrever muito mais do que números e seu próprio nome. A cada subida na ladeira da Cajuípe, com seu falar rústico, ele tomava uma bordoada na cara de um fardado que abusava do Poder. E isso era testemunhado por seu filho de sete anos, trepado no cume de uma poltrona desbotada.

Da janela do Adeus, o guri vislumbrava a agressão como um destino sem volta. Isso até o dia em que viu Rocky, um Lutador na TV. Aquela versão suarenta e suburbana de Cinderela deu ao rapazinho de sete anos um horizonte maior do que o Complexo do Alemão: no cinema, havia redenção. O Tempo passou, seu João morreu (sem numa ter pisado numa sala de exibição), mas o filho dele – no caso, eu – seguiu por outras lutas – algumas melhores, outras piores – mas nunca tirou Rocky do coração.

Obrigado, Stallone, por ser o meu amigo imaginário há tanto tempo. Parabéns por seus 70 anos de vida e por 40 anos de Balboa.