Stallone chega aos 70 anos como um resquício do heroísmo

Stallone chega aos 70 anos como um resquício do heroísmo

Rodrigo Fonseca

06 Julho 2016 | 12h45

Stallone em

Stallone em “Falcão – O Campeão dos Campeões”

Nascido em 6 de julho de 1946, em Nova York, Sylvester Gardenzio Stallone entra nesta quarta-feira para o clube dos septuagenários. Aos 70 anos, cotado para protagonizar a série de máfia Omerta e já garantido no elenco de Guardiões da Galáxia – Volume 2, o eterno Rocky Balboa será homenageado hoje na programação do Telecine Play, que  listou dez produções em que ele deixou sua marca. Além de seis filmes da franquia Balboa, a começar pelo oscarizado Rocky, Um Lutador (1976), estão disponíveis na plataforma online outros títulos de seu extenso currículo como Os Mercenários 3 (2014), Rota de Fuga (2013), Daylight (1996) e Oscar: Minha Filha Quer Casar (1991). Mas tem muita coisa boa fora esses bons títulos, com destaque para thrillers menos conhecidos como Falcões da Noite (1981), Falcão – Campeão dos Campeões (1987), (a obra-prima pop do cinema carcerário) Condenação Brutal (1989), Assassinos (1995) e D-Tox (2002). É uma carreira longa. Não só longa… é uma das mais rentáveis que Hollywood já viu brilhar, coroada este ano com o Globo de Ouro por seu desempenho comovente em Creed – Nascido para Lutar (2015).

“Capone, o gângster” (1975)

Celebrizado nas trilhas da violência, Stallone é a própria representação do Masculino, do homem heterossexual educado sob a lógica (hoje repudiada) da afirmação do ethos da hombridade. Vivemos a era dos difficult men, dos “homens difíceis”, conceito nascido na televisão, com A Família Soprano, Mad Men Breaking Bad, numa percepção divinatória do crepúsculo dos machos, no descrédito da figura do pai provedor, do gladiador, do caubói. A sobrevivência cinematográfica de Stallone nos nossos dias simboliza uma transgressão, ao sair na contramão da tendência atual de celebrar o emasculamento, de esvaziar a imagem do “macho ocidental”, de trucidar a ideia de que “um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer”, ou seja, a retidão inerente à masculinidade. É sobre ela que fala o livro The Ultimate Stallone Reader – Sylvester Stallone as Star, Icon, Auteur, organizado pelo professor Chris Holmlund, da Universidade do Tennessee, com o apoio de um corpo docente de teóricos das maiores faculdades dos EUA.

13 Sly The Ultimate Stallone Reader

Obrigatório como reflexão sobre a evolução comportamental dos gêneros, a partir do audiovisual, o livro, publicado pela Wallflower Press, começa com um mapeamento dos bilhões que Stallone rendeu para os estúdios americanos, seja em fenômenos como a franquia Rocky quanto em produções de menor rentabilidade (mas marcadas pela adoração popular) como Falcão, o Campeão dos CampeõesOrçado em US$ 35 milhões, Creed arrecadou US$ 172 milhões na venda de ingressos. Na comparação com os demais astros de ação, Holmlund mostra que, diferentemente de Schwarzenegger ou Bruce Willis, que apenas atuam, Sly sobressaiu-se em outros terrenos, produzindo, escrevendo e dirigindo. Os professores apontam o fato de que foram raríssimos os atores, em toda a História do Cinema, que conseguiram emplacar DOIS personagens icônicos e míticos, como Stallone conseguiu com Balboa e Rambo.

Mas, das estatísticas, eles passam para um ensaio mais filosófico sobre o fato de Sly ser uma espécie de guardião de uma cultura hoje fossilizada: a cultura dos heróis que se imolavam em autossacrifício em prol do Outro. Stallone é o fóssil de uma era em que os homens não eram medidos pela sua impotência e sim pela vontade de potência e pela força de arriscar. Mesmo envelhecido e abalado por uma doença em Creed, Rocky ainda percebe que a única maneira de preservar para si um lugar no mundo é pela perseverança, pela tentativa, pelo sangue. A História mudou a condição do Homem. Mas o gongo ainda não soou.

“Rocky, Um Lutador” (1976)

Este livro representa a concretização de uma profecia pop. Em 1996, quando Stallone completou 50 anos, o Vídeo Show fez uma reportagem sobre ele cuja sonora final arriscava que, em pouco anos, a filmografia do astro tornar-se-ia um objeto de estudo. Não deu outra.

Na festa do Globo de Ouro, ao agradecer sua vitória, Stallone dedicou o prêmio ao próprio Rocky, chamando-o de seu amigo imaginário. Faço o mesmo aqui, na condição de fã. Feliz aniversário para você, Stallone, MEU amigo imaginário, a quem eu devo tanto. Você, que, em 1987, durante uma reprise de Rocky II – A Revanche na TV, fez com que eu amasse os filmes e dedicasse minha vida ao Cinema. Fica aqui com o meu aplauso.

p.s.: Parabenizar Stallone exige um “Muito obrigado por tudo!” também para seu histórico dublador: o saudoso André Filho, morto em 1997, que fez Sly soar genial na telinha da TV. Hoje Luiz Feier Mota cumpre bem a tarefa, fazendo justiça ao legado deste monstro sagrado da dublagem.