‘Sputnik’, sci-fi à moda russa no streaming

‘Sputnik’, sci-fi à moda russa no streaming

Rodrigo Fonseca

22 de agosto de 2021 | 11h28

Oksana Akinshina vive uma psiquiatra que explora segredos vindo do espaço para uma base russa em “Estranho Passageiro – Sputnik”

Rodrigo Fonseca
Surpresa russa no streaming nacional: “Estranho Passageiro – Sputnik” chegou à Netflix para mostrar a potência das indústrias audiovisuais eslavas no exercício das cartilhas de gênero. É uma ficção científica padrão “Alien”, com uma tessitura dramática que favorece o intimismo, abrindo clareiras para sequências de ação e de assombro, num resgate do passado, dos tempos da URSS como uma força geopolítica.
Tudo começa em uma base militar da União Soviética da primeira metade dos anos 1980. No asséptico local, os menores detalhes são segredos e onde a presença feminina é desdenhada pelo sexismo de farda. É nesse clima de opressão que seremos apresentados à protagonista: a psiquiatra Tatyana. Uma vez naquela base, ela põe a elite militar e científica à sua frente em silêncio, calando seus antipatizantes ao exercitar seus dotes analíticos da psique humana com uma eficiência espartana. O motivo de ela ter sido convocada envolve a avaliação psiquiátrica de um cosmonauta em quarentena. Arisco, o astronauta Konstantin (Pyotr Fyodorov) chegou faz pouco de uma desastrosa missão espacial, que terminou com a morte brutal de seu colega de “voo”. Em seu regresso, ele se recusa a falar de si ou do que houve na imensidão do espaço, mesmo sob as ordens de seu superior, o Colonel Semiradov, oficial que o ator Fedor Bondarchuk compõe de maneira elegantemente assustadora.

Bastam minutos ao lado de Tatyana para que Konstantin se deixe mapear na íntegra, ao se expor em numerosos atos falhos que só aquela médica parece ser capaz de identificar e traduzir, Freud adentro. Ela só não consegue ver o ET que veio do cosmos dentro do corpo dele, como um parasita, mas percebe que ele esconde algo – no caso, uma forma de vida alienígena assassina. Mas, ok. É uma apresentação de personagem perfeita para estruturar uma figura heroica, que ganha múltiplas camadas existenciais a partir do desempenho de uma força da natureza chamada Oksana Akinshina, atriz apresentada aos brasileiros em “Para Sempre Lilya” (2002), do sumido Lukas Moodyson. Oksana volta às nossas telas a partir deste fim de semana, como Tatyana, à frente deste arrebatador “filme de monstro”, mesclando horror e ficção científica, dirigido pelo estreante em longas-metragens Egor Abramenko, e selecionado para o Festival de Tribeca, em Nova York, no ano passado. É um estandarte do no cinema pop de gênero feito na Rússia, que ganhou corpo a partir de “Guardiões da Noite” (2004), de Timur Bekmambetov, e foi se refinando nas cartilhas comerciais – e nerd – até chegar a pérolas como “Os Guardiões” (2017), de Sarik Andreasyan, exibido recentemente na Globo. O fluxo dessa linhagem russa tem sido ampla em múltiplas mídias brasileiras, trazida por distribuidoras como a Playarte, quase sempre cópias (bem) dubladas em português.
Tem muito filme russo bom chegando ao Brasil. O título mais esperado da armada eslava de 2021 é “Devyataev – V2. Escape From Hell”, thriller de guerra dirigido por Timur Bekmambetov (de “Procurado”), que abriu o Festival de Moscou. Mas poucos têm requinte plástico similar ao de “Estranho Passageiro – Sputnik”. O que mais e melhor distingue o filme de Abramenko da média das produções eslavas aqui lançadas é o domínio pleno desse jovem realizador sobre a engenharia da tensão e do medo, além de seu refinado acabamento formal. Já na chegada de Tatyana ao QG das forças armadas soviéticas, onde o enredo deslancha, a direção de fotografia de Maxim Zhukov decanta as cores, dessaturando-as, tornando tudo ocre, sem vida, de modo a espelhar o tom opressor e silencioso do comando de Semiradov, avesso até à presença de Moscou em sua base. Só há vida em Tatyana, na alvura de seu rosto e no mar ressaqueado de seu olhar, de modo a frisar que ela é a fagulha capaz de incendiar aquele depósito de ordens e de rancores, em plena Guerra Fria. E há vida também na criatura que mora no esôfago de Konstantin. Uma vida que se faz notar sempre que o alien (produzido a partir de efeitos visuais bem lapidados) derrama o sangue alheio. Aos poucos, Tatyana percebe que o interesse de Semiradov é fazer do extraterrestre uma arma, sem se preocupar com a saúde de seu hospedeiro. É aí que o dever médico dela e seu ethos de heroína batem forte, dando a uma narrativa claustrofóbica uma curva de aventura que Abramenko conduz com eficácia, disfarçando a precariedade de seu orçamento mirrado (cerca de US$ 2,5 milhões) com boas ideias.

p.s.: Kikito, o Deus-Sol dos pampas, sorriu para “Carro Rei”, de Renata Pinheiro, produção de Pernambuco laureada com o prêmio de melhor filme no 49º Festival de Gramado, coroando uma estética de invenção. “Transformers” meets Bob Wilson meets Stuart Hall, embalado numa direção de arte inventiva e aditivado por um Matheus Nachtergaele com aura de Gollum. É um filme provocativo e inquietante em sua reflexão sobre a “maquinização” do humano, sintonizado com o “Manifesto do Ciborgue”, da teórica Donna J. Haraway, sobre a obsessão por próteses e tecnologia. Egressa de Caruaru, a trama lembra muito “Bumblebee” (2018) em seus momentos iniciais, quando um garoto é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o tal carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio (Nachtergaele) se conectar com esse totalitarismo.

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