Spike Lee reforça sua parceria com Cannes

Spike Lee reforça sua parceria com Cannes

Rodrigo Fonseca

10 de maio de 2020 | 11h27

Shelton Jackson “Spike” Lee vai presidir o júri de Cannes… talvez só em 2021

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Há muita perseverança, mas também muita tristeza, na bela entrevista que Thierry Frémaux, o diretor artístico de Cannes, concedeu neste domingo à revista “Screen Daily” (pra ler, vai no https://www.screendaily.com/interviews/thierry-fremaux-talks-cannes-2020-official-selection-plans-exclusive/5149699.article), falando sobre os planos do festival e prometendo anunciar uma seleção competitiva até junho, tendo apalavrado com Spike Lee os planos de fazer dele o presidente do júri em 2021. Ele presidiria a competição deste ano, quando a maratona cinéfila da Côte d’Azur havia marcado suas projeções para começarem no dia 12 de maio. No papo com a “SD”, Frémaux crava: “Spike Lee nos disse que será fiel a nós, aconteça o que acontecer. Espero que sejamos capazes de fazer isso acontecer no próximo ano. Trocamos muitas mensagens. Ele simboliza uma cidade, Nova Iorque, que foi particularmente atingida pela epidemia. A curta-metragem que ele acabou de fazer, capturando a cidade sob bloqueio, com Sinatra cantando ‘New York, New York’, é extremamente comovente. Mas seu compromisso não o impede de ser bem-humorado em suas mensagens, que ele sempre termina com ‘Vive la France!’ e com muitas pequenas bandeiras azuis, brancas e vermelhas. E para contar tudo, ele nos mostrou um belo filme que ele fez com a Netflix, chamado ‘Da 5 Bloods’, que seria exibido em sessão ‘hors-concours’ marcando a volta da Netflix”.

Frémaux se refere a “Destacamento Blood”, filme sobre veteranos do Vietnã que Spike lança em streaming no Dia dos Namorados, 12 de junho, tendo Delroy Lindo, Chadwick Boseman, Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser e Jean Reno no elenco. Ele lançou um curta-metragem comovente, chamado “New York New York”, e em balado pela voz de Frank Sinatra, em apoio às vítimas da Covid-19. Ele ainda relançou na web seu comercial da Nike com Little Richards em respeito à morte do cantor. Em meio ao desenho de uma releitura hip hop de “Romeu e Julieta”, chamado “Prince of Cats” e já em idealização, Shelton Jackson Lee (o nome verdadeiro do cineasta, hoje com 63 anos) reafirmou sua parceria com Cannes, num momento em que o movimentos de inclusão racial mais avançam na luta contra o preconceito. O convite para que ele presidisse o festival chegou quase um ano depois de sua vitória no Oscar. Lee foi laureado com a estatueta de melhor roteiro adaptado por “BlacKkKlansman: O Infiltrado”, filme que deu a ele também o Grande Prêmio do Júri na Croisette, em 2018. Foram vitórias que, somadas a uma bilheteria pantagruélica (custou US$ 15 milhões e faturou US$ 93 milhões), deram à sua carreira uma dose extra de produtividade. Sem contar a versão personalíssima dos Amantes de Verona, em que milita agora, ele prepara o .doc “American Utopia”, com David Byrne, que é esperado para as mostras de Veneza e Toronto. E, nessa expectativa, ele amadurece, como contador de histórias e como um porta-voz das desigualdades de cor nos EUA.

Nenhum outro cineasta na História, nas últimas quatro décadas, conseguiu mobilizar tanto a opinião pública acerca da condição das populações negras, em relação às mazelas sociais e à violência estatal, quanto ele, realizador que fez de “Faça a Coisa Certa” (1989) uma bandeira contra a intolerância. E, a partir desse filme seminal para a definição estética dos rumos que o cinema tomaria de 1990 em diante, um exército de longas com características visuais muito particulares marchou nas telas, guiados pela busca estética, etnográfica e ética de Lee levando a marca de um nova narrativa politizada e humanizada mundo afora, incluindo aí “Mais e Melhores Blues” (1990), “A Febre da Selva” (1991) e “Malcolm X” (1992).
“A cada dia, 99 americanos são assassinados, e maioria deles é negra. Mas a pergunta que todo mundo fica se fazendo é sobre o destino de Trump e não sobre a segurança do povo. É um mundo com muito barulho lá fora”, disse o diretor ao P de Pop, em 2016, bem antes de iniciar a produção de “BlacKkKlansman”, cuja história chegou a seus ouvidos a partir de uma dica do também diretor Jordan Peele, de “Corra!” (2007), sobre o caso real de um policial de ascendência africana que se infiltrou numa célula supremacista da Ku-Kux-Klan. “Foi Jordan quem me contou essa história e ela parecia tão maluca que eu acreditei, a princípio, que fosse uma piada. Falei com ele ao telefone, se esse caso for real, compra os direitos dele por mim que eu vou filmar essa história. Ela fala sobre o que somos hoje”.

“Infiltrado na Klan”: Oscar de roteiro adaptado

Ao posar para um ensaio fotográfico para a capa da revista “Time”, em meados de 2018, às vésperas do lançamento de “BlacKkklansman”, Lee encasquetou com o excesso de fios grisalhos em sua barba e seus cabelos. Reclamar da idade virou uma constante nas recentes declarações do cineasta que fez da militância racial uma bandeira estética desde sua estreia na direção, em 1979 – data em que fez seu primeiro curta-metragem, “Last hustle in Brooklyn”. Há dois anos, em pleno Festival de Cannes, os sinais de que sua juventude ficou para o passado arrancou do diretor de 62 anos uma reflexão simples, mas eficaz, sobre a finitude: “Estou ficando velho, não sou mais um garoto, mas ainda percebo que, quando falamos em racismo, as coisas ruins de antes ainda estão por aí”, disse o cineasta, nascido em 20 de março de 1957, em Atlanta, na Georgia.

Mas a arte envelhecer não tirou de Spike a arte de provocar: este é o verbo de ação de seu “BlacKkKlansman”, definido pelo crítico A. O. Scott do “The New York Times” como “o melhor filme de ficção do cineasta em mais de uma década… funcionando como um furioso, engraçado e brilhante confronto com a verdade”. Definição curta e grossa da trama: no fim dos anos 1970, um policial negro conseguiu, só com um telefonema, infiltrar-se na Ku-Kux-Klan, organização que cultua a supremacia branca. Estamos em 1979, no Colorado, e, lá, o policial Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel) ficou sabendo de uma convenção da Ku-Kux-Klan e resolveu se “misturar” entre seus integrantes. Não por acaso, Lee lançou o longa no dia 10 de agosto de 2018, um ano depois do tumulto racista em Charlottesville. Eis a polêmica no ar… e eis uma curiosidade: como o tira conseguiu se integrar a pessoas que odeiam negros? Atrás de uma resposta, milhões de pagantes foram aos cinemas para prestigiar o cineasta. “Tudo o que eu quero é fazer a América despertar”, diz Lee. “O doido (o presidente Trump)está por aí e precisamos abrir os olhos”.

No Velho Mundo, o filme saiu premiado de Cannes (reforçado por uma menção honrosa dada pelo Júri Ecumênico) e recebeu o prêmio de Júri Popular no Festival de Locarno, na Suíça. Papou mais 41 prêmios em suas andanças pelo planisfério cinéfilo. Em 1989, ele disputou o prêmio francês com o filme que o consagrou, “Faça a coisa certa”, mas o presidente do júri de então, o diretor alemão Wim Wenders, preferiu não referendar sua estética nervosa. O eleito de Wenders era um outro longa americano, “sexo, mentiras e videotape”, de Steven Soderbergh. À época, reclamaram que o final do filme de Spike não oferecia soluções para a questão racial, pois apenas jogava sujeira no ventilador. Claro que ele não poderia oferecer soluções, afinal, as tais questões ainda estão por aí até hoje. “Por isso eu dirigi este novo filme, pois a bagunça permanece”, explicou Lee, que trabalhou recentemente na série “She’s gotta have it” (“Ela quer tudo”), para a Netflix, tendo, paralelamente, dirigido projetos para o Amazon Studios, como a ficção “Pass over”, lançada em Sundance e já disponível no Brasil.

Sempre ligado a projetos documentais, Lee usou imagens reais dos conflitos de Charlottesville como uma espécie de epílogo para “infiltrado na Klan”, que deve passar pelo Festival do Rio, em novembro, antes de estrear no Brasil. A cenas documentais servem como uma espécie conexão entre os horrores de hoje e os horrores do racismo dos anos 1970, enfrentados por Stalworth. Investigações nas veredas do documentário deram a seu cinema uma intimidade – e um dinamismo narrativo – ainda mais possante na relação com o Real, com destaque para “The Original Kings of Comedy” (2000), um sucesso de bilheteria mundial. A ele se seguiram projetos documentais de impacto popular como a minissérie “Os Diques se Separam” (2006) ou “Kobe Doin’ Work” (2009). Uns falam de crises, outros biografam ídolos. Uns vão para a televisão, outros para a sala escura. Não importa o caminho. Não importa o tema. O olhar é o da inquietação, que se manifesta também no plano da forma, num uso de linguagem capaz de transgredir convenções narrativas.

Apaixonado por técnicas analógicas do cinema, anteriores aos confortos da tecnologia digital, Lee afirma que rodou o filme em película, e não com cartões de memória, a fim de reproduzir o visual do combativo cinema americano dos anos 1970. Em seu elenco, ele incluiu Adam Driver, o Kylo Ren da franquia Star Wars. “Não sou uma pessoa derrotista, mas eu ando de olhos abertos”, disse Spike. “Eu vejo as coisas. Eu ouço as coisas. Por isso, mesmo não sendo um pessimismo, tento fazer as pessoas entenderem que tem muita coisa fora da ordem. Há que se abrir os olhos”.

p.s.: É Dia das Mães e soa quase provocativo o fato de, nesta data, um ensaio sobre a opressão da cultural patriarcal ibero-americana ganhar holofotes na web, em uma projeção sintonizada com os esforços dos movimentos de #FiqueEmCasa desta 40ena: “O Prefeito” é a longa-metragem em questão. Mas sua projeção gratuita, neste domingão, a partir das 18h (no horário brasileiro; 22h, em Portugal), no site https://vimeo.com/243669957, tem um viés crítico, antenado com o sucateamento da cidade do Rio de Janeiro, sobretudo em termos morais. Quem clicar no link pode conferir – a custo zero – o exuberante desempenho de Nizo Neto em seu mais inusitado papel. Não é todo dia que uma comédia brasileira aposta no grau de experimentação formal tão potente quanto o deste seminal trabalho de Bruno Safadi.

p.s. 2: Às 19h30, a Band exibe “O Gênio Indomável” (“Good Will Hunting”, 1997), drama de Gus Van Sant que deu um Oscar a Matt Damon e Ben Affleck por um roteiro devastador.

p.s. 3: Tá no MUBI o mais recente trabalho do bruxo londrino Jonathan Glazer (de “Sob a Pele”) como realizador: o curta “The Fall”, centrado, literalmente, numa queda.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: