‘Soul’ mais Jorge Lucas no fino concerto da Pixar

‘Soul’ mais Jorge Lucas no fino concerto da Pixar

Rodrigo Fonseca

26 de dezembro de 2020 | 10h41

Joe é interpretado por Jamie Foxx na versão original de “Soul” e ganha a voz de Jorge Lucas no Brasil

Rodrigo Fonseca
Promessa para o Oscar 2021, lááááá´no 25 de abril do ano que vai nascer, chancelado com a logo de Cannes, “Soul”, o momento Frank Capra de mais fina excelência formal da Pixar desde a obra-prima “WALL-E” (2008), serve como passarela para o talento de um dos mais prolíficos dubladores do Brasil: Jorge Lucas. Conhecido da TV, como (ótimo) ator pelo papel do Dr. Mauri da novela “Bom Sucesso” (2019) e por Gilmar em “Totalmente Demais” (2015-16), este carioca de 53 anos foi convocado para emprestar sua maviosa voz ao jazzista e professor de Música Joe na produção que pode catapultar a popularidade da Disney + a lugares em que nem o Mandaloriano esteve. No original, o personagem conta com o talento de Jamie Foxx, que ganhou o Oscar em 2005 por “Ray”. Foxx foi dublador por Lucas em sucessos como “Django Livre” (2012). Ele é um dos múltiplos “bonecos” famosos de Jorge, que é recorrentemente ouvido por aqui na versão brasileira dos longas-metragens de Vin Diesel e de Ben Affleck, nos quais construiu um estilo cool de falar, sem saturar os graves ou agudos dos astros no original em inglês, imprimindo uma elegância singular em seu fraseado. Essa elegância cai com total perfeição na figura de Joe (Foxx), um aspirante a Herbie Hancock que, às vésperas de fazer “o” show de sua carreira e se consagrar no jazz, sofre um acidente, indo parar em um ambiente metafísico de almas. Lá, ele insiste em voltar a Terra, sendo incumbido da missão de ajudar uma alminha que se considera sem propósito: 22, interpretada pela comédia Tina Fey e aqui (bem) dublada por Carol Valença.

O dublador carioca (aqui em cena de “Bom Sucesso”) empresta sua voz maviosa ao jazzista no longa da Disney +

No périplo para reaver a chance que parece perdida, na trama pilotada e escrita pelos diretores Pete Docter e Kemp Powers, Joe e 22 voltam à esfera dos mortais mas caem em corpos errados. Ele cai na bola de belo de um gatinho serelepe e ela fica com o corpo humano dele. Nessa vinda, eles passam por uma travessia de iluminação na qual buscam uma razão para suas vidas, numa narrativa em que os realizadores exploram todo o requinte de uma direção de arte centrada no dia a dia de Nova York. O plano transcendente, jamais associado à ideia de Céu, tem figuras que brincam com formas geométricas: esferas e triângulos, com fractais na representação do firmamento e retângulos simbolizando passagens entre mundos, numa metáfora do próprio cinema, muito comum à Pixar. Desenhados na luz apolínea da fotografia de Matt Aspbury e Ian Megibben, Joe e 22 flanam pelos Círculos – o da matéria e o da idealização – buscando saírem de uma caverna platônica na qual a “ignorância” é representada como sinônimo de apego. 22 aferra-se à ideia de que não tem propósito para cumprir aqui, sem perceber como seu encantamento com as singelezas do cotidiano (como comer pizza ou observar uma borboleta) são contagiantes, e Joe aposta no projeto de ser o Thelonious Monk de sua geração, sem se dar conta do quanto inspira as pessoas. Nessa jornada “educativa” os dois caminham pela estrada da percepção: é necessário sentir para além das convicções e das certezas castradoras. Nesse ponto, alumbramento e resignação convergem numa interseção perigosa, comum a muitos filmes da Pixar, os bons (“Ratatouille”), os engasgados (“Viva: A Vida É Uma Festa”) e os pavorosos (“Valente”). O crítico português Jorge Pereira costuma dizer que a Pixar não tem roteiristas e, sim, psicólogos. Parece, muitas vezes. Mas, em “Soul” a psicologia da atenção resvala num exercício gracioso onde empatia é solidariedade. Exercício que dá a Jorge Lucas uma ribalta para afinar sua orquestra de cordas num show de interpretação para entrar para a História da dublagem no Brasil.

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