Sorrentino está no meio de nós

Sorrentino está no meio de nós

Rodrigo Fonseca

31 de julho de 2019 | 14h00

“The New Pope”: HBO no Festival de Veneza

Rodrigo Fonseca
Preparando-se para transformar Jennifer Lawrence (de “Jogos Vorazes”) em X-9 da máfia no thriller “Mob Girl”, previsto para 2020, Paolo Sorrentino tem compromisso com o Festival de Veneza (28 de agosto a 7 de setembro): vai exibir por lá episódios zero KM da série “The New Pope”, com Jude Law de volta ao papel do pontífice da HBO no Céu e n tela, Lenny Belardo. A produção é uma sequência da ácida “The Young Pope”, de 2016, agora galvanizada pela presença de John Malkovich. Aliás, a Itália vai chegar gloriosa no evento, com três longas-metragens na disputa pelo Leão de Ouro: “Martin Eden”, de Pietro Marcello; “La mafia non è più quella di uma volta”, de Franco Maresco; e “Il sindaco del Rione Sanità”, de Mario Martone. Aliás, vai ser o cinema italiano quem vai abrir o Festival de Locarno, na quarta-feira que vem (dia 7 de agosto), na Suíça, com a exibição do drama “Magari”, de Ginevra Elkann. Nesta sexta, o circuito exibidor dos EUA importa de Nápoles o tenso “Piranhas – La Paranza Dei Bambini”, ganhador do Urso de Prata de melhor roteiro, na Berlinale, com seu olhar sobre um grêmio de adolescentes mafiosos. É um tempo de potência audiovisual para o país, que deve muito desse esplendor a Sorrentino.

Tem um longa dele, “Silvio e os outros” (“Loro”), sobre a vida privada de Silvio Berlusconi, que ainda não foi lançado em circuito no Brasil, mais vai passar por aqui, agora em agosto, em diversas cidades do país, na programação da obrigatória 8 1/2 Festa do Cinema Italiano 2019. Ela vai de 8 a 14 de agosto e de 15 a 21 de agosto. Na primeira semana, o evento será realizado nas cidades de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Niterói, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Na semana seguinte, chega a Belém, Florianópolis, Goiânia, Salvador, Vitória, além de Fortaleza, Londrina e Natal. A versão que vem pra cá do filme tem 2h31 minutos. Corresponde ao enxágue de horas e horas de material que integra o director’s cut de Sorrentino, divido em dois longas, o que impediu sua circulação na seleção competitiva de grandes maratonas cinéfilas da Europa, como Cannes ou Berlim.

Como “A grande beleza”, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014, “Loro” é um monumental exercício de reflexão sobre a crise simbólica de uma nação, reafirmando a excelência de Sorrentino como diretor, antes aclamada por “Il Divo”, em 2008, e por “Aqui é o meu lugar”, de 2011. No início desta década, ele passou a ser encarado como o maior expoente do Risorgimento.  O termo se refere à onda autoral que vem salvando o (outrora majestoso) cinema italiano da decadência a partir de narrativas não convencionais feitas por uma novíssima geração de diretores na faixa dos 40 anos.  “Existe um mal-estar que rege as percepções acerca das tradições da Europa. Não tenho interesse em copiar Fellini. Não quero ser outro que não eu, Paolo, falando das minhas vivências, das minhas angústias. Quero falar do meu mundo, da minha Itália, e não da Itália de outros, dos colegas do passado. Não restam dúvidas de que a Itália teve um passado cinematográfico glorioso, com grandes gênios da criação, incluindo Fellini. Mas essa grandiosidade alimenta um certo preconceito contra nós, das novas gerações de diretores italianos, sempre patrulhados pela cobrança de que jamais faremos algo à altura da tradição. Não há motivos de eu querer ser neorrealista. O neorrealismo é monumento. Tem seu lugar, merece respeito. Quero ir além, além do meu tempo”, disse Sorrentino ao P de Pop em 2015, quando exibiu o tocante drama “Juventude” em Cannes. “Eu filmo para quebrar com essa visão ressentida de que a Itália parou no tempo. Temos uma cultura de reclamação forte. Mas nosso cinema persevera. O cinema mundial hoje vive de momentos de brilhantismo. De um grande filme aqui e outro acolá, de tentativas e de erros”.

Paolo Sorrentino (ao centro) dirige “Silvio e os Outros”: destaque na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano 2019

Visto por um milhão de pagantes na Itália, onde dividiu a crítica por seu excesso de erotismo e de virtuosismo na fotografia e na direção de arte, “A grande beleza” surgiu como uma reação de Sorrentino à crise econômica europeia. Na trama, centrada em Roma, o jornalista Jep Gambardella (vivido por Toni Servillo, o maior ator do teatro italiano há duas décadas), que, na juventude, publicou um romance considerado um marco literário, chega aos 65 anos, escrevendo reportagens sobre a nova realidade cultural de sua nação. Com o peso da idade e do tédio, Gambardella embarca em uma jornada existencial atrás da grandiosidade romana. É Servillo quem vive Berlusconi em “Loro”. Ele é o ator mais recorrente da obra do cineasta.

“Tenho uma parceria muito fiel com o fotógrafo Luca Bigazzi na busca pelo assombro e pelo encantamento que ainda nos sobra. O título de ‘A Grande Beleza’ evidencia a minha necessidade de encontrar o que ainda existe de belo mesmo nas ações mais vulgares que a civilização italiana pratica dia a dia, mesmo num cotidiano sem fé em nossa força de transformação. A relação com a crise não se dá como um gesto irônico, e sim como um convite à reflexão para o fato de que, frente aos apuros econômicos, a Itália busca refúgio em pequenas distrações, em festas, em excessos. Caímos num tempo de profundo cinismo”, diz Sorrentino. “Só lamento que o cinema não seja uma dessas fugas, pois o público do nosso cinema diminuiu muito. Mas, seguimos…”.

p.s.: Pouco se fala sobre a abrasiva comicidade que o diretor Alberto Magno arrancou de Nelson Rodrigues em “A serpente”, com Monique Lafond, mas o filme, hoje proscrito dos debates sobre o Anjo Pornográfico, traduz com precisão a metafísica que energiza o cógito do dramaturgo. Mas o texto, sobre duas irmãs que compartilham de um mesmo homem em nome do amor fraterno, está de volta às telas, numa releitura de Jura Capela, com Lucélia Santos (em atuação magistral) e Matheus Nachtergaele (em um de seus trabalhos mais provocativos), que já entrou em cartaz no Rio. Em SP, o longa, vitaminado por desempenhos febris de Céllia Nascimento e Sílvio Restiffe em seu elenco, estreia no dia 15 de agosto.

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