‘Sole’, mais uma surpresa da Itália nas paralelas ao Urso

‘Sole’, mais uma surpresa da Itália nas paralelas ao Urso

Rodrigo Fonseca

27 de fevereiro de 2020 | 14h53

Rodrigo Fonseca
Faltando três dias para chegar ao fim, a Berlinale 2020 esbanjou eficiência em sua seleção de filmes italianos, incluindo o concorrente “Favolecce”, de Fabio e Damiano D’Innocenzo, e a fábula “Pinóquio”, com Roberto Benigni, projetada hors-concours. Neste bonde da Itália, terra natal do atual curador do evento, Carlo Chatrian, uma produção vinda de Roma fez barulho: “Sole”, de Carlo Sironi. É um longa-metragem centrado num debate sobre novos arranjos familiares, com ecos inegáveis dos contos morais de Luc e Jean-Pierre Dardenne em sua mirada (realista esturricada). E ele arrancou aplausos inflamados na Alemanha. Um dos títulos da seção On Trasmition, dedicada a talentos revelados na capital alemã em anos passados, o drama pilotado por Sironi estendeu um tapete vermelho para a nova (e inquietante) geração de realizadores de sua pátria. Finalizado em meados de 2019, o filme foi mostrado em Veneza, em agosto, de onde saiu com o troféu Lanterna Mágica no currículo, tendo conquistado ainda o prêmio de júri popular em Pingyao, na China, e uma menção honrosa em Mumbai.
“Vivemos reféns de uma glória de anos pretéritos, mas precisamos olhar para o futuro e dar atenção ao hoje. Venho de um país que vive fazendo ‘Ladrões de bicicleta’ de novo, de novo e de novo, como se estivesse preso ao passado”, alfinetou Sironi, que dirigiu curtas-metragens aclamadas como “Sofia” (2008) e “Valparaiso” (2016).

Ele conversou com o P de Pop há dois meses, no Festival de Marrakech, e, aqui na Berlinale, teve um bate-papo com o octogenário realizador Paolo Taviani, que veio aqui para uma reprise de “César Deve Morrer”, o ganhador do Urso dourado de 2012. Na trica com o mestre, Sironi defendeu a universalidade de sua narrativa: “Este meu filme conta uma história que se passa na Itália, mas caberia em qualquer lugar do mundo, podendo ser feita com japoneses, brasileiros…”.
Elogiado por sua precisão cirúrgica de sua construção de planos pontuados por uma claustrofobia mais ligada aos afetos do que aos espaços, Sironi narra em “Sole” uma situação que lembra “A Criança”, a segunda Palma de Ouro dos Dardenne, conquistada em 2005. É um enredo sobre a venda de um bebê… ou quase isso. “Existe uma questão familiar, no rearranjo dos papéis, e há uma inegável analogia, construída de modo não consciente, com a mitologia católica, por um simbolismo cristão que está no mundo. Eu sou filho de ateus e só descobri quem era Jesus aos 14 anos, quando fiquei curioso para conhecer a figura retratada em pinturas de Caravaggio”, diz o cineasta, cuja ironia nas palavras se reflete na tela na forma de um alarmismo em relação ao desamparo dos novos tempos.

Em “Sole”, a jovem Lena (Sandra Drzymalska) chega grávida da Polônia à Itália, disposta a dar aquele neném em seu ventre a quem pagar por ele. Um rapaz, Ermanno (o ótimo Claudio Segaluscio), vai ajudar a moça a negociar o bebê com seus tios, fazendo-se passar pelo pai do pequenino que vai nascer. Mas, com a tarefa de cuidar dela, até o parto, ele acaba criando uma afeição que desafia limites de honra… e de amor.
Sironi é parte de uma geração de novíssimos talentos na qual estão cineastas badalados como Laura Bispuri (“Figlia mia”), Alice Rohrwacher (“Lazzaro Felice”) e Claudio Giovannese (“La Paranza dei Bambini”) que reforçam a fé no pretérito perfeito de uma nação que gerou “8 ½” (1963) e “La dolce vita” (1960). Estima-se que “Favolecce” sairá daqui laureado neste sábado, quando a premiação será entregue.

Na manhã desta quinta, a Berlinale foi engolida pelo silêncio da Ásia minimalista de Tsai Ming-Liang e seu “Days” (“Rizi”), cuja aposta na contemplação desafia hábitos contemporâneos de recepção de obras de arte. É necessária uma calma monástica para se desbravar o oceano de signos do diretor de “O Buraco” (1998), mas o esforço é compensado com uma belíssima reflexão sobre o sucateamento dos corpos e do desejo. Lee Kang-Sheng, ator fetiche do cineasta vive um cinquentão abalado por problemas de saúde que alivia sua angústia no toque de um garoto de programa (Anong Houngheuangsy). Até os corpos desses dois sujeitos se cruzarem, Tsai distende o tempo ao máximo, numa observação quase documental de ritos do dia a dia: banhos tomados, abobrinhas raladas, massagens. É um olhar sobre a rotina, entre seus encantos e suas pústulas inflamadas, em especial o calombo da velhice e a ferida da solidão. Até o momento, “Sibéria”, de Abel Ferrara, segue sendo a obra-prima desta briga pelo Urso dourado.

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