‘Soldado Estrangeiro’: a vocação da batalha

‘Soldado Estrangeiro’: a vocação da batalha

Rodrigo Fonseca

04 de dezembro de 2020 | 14h30

Rodrigo Fonseca
Aditivado por um dos trabalhos de montagem de maior excelente do cinema latino-americano em 2020, “Soldado Estrangeiro”, de Pedro Rossi e José Joffily, estreou neste fim de semana tendo como foco a vida de militares brasileiros que fizeram carreira nas forças armadas no exterior. Exibida no É Tudo Verdade e no Docs MX – Festival Internacional de Documentário da Cidade do México, em 2019, o longa-metragem rastreia os passos de três soldados. O primeiro personagem apresentado no filme é o aspirante Bruno Silva, carioca da periferia do Rio de Janeiro. Ele deixa a família para trás, junta todas as suas economias e parte para França, sem falar o idioma local, com a intenção de realizar o sonho de servir na Legião Estrangeira. Com exclusividade, o filme registra o rigoroso processo de seleção da unidade militar de elite.
Já o combatente Mário Wasser é um jovem da classe média paulista. Serve ao exército israelense, em uma base militar na Cisjordânia. O mais jovem dos três parece ser também o mais bem adaptado e confortável na função, fluente em hebraico e usufruindo dos benefícios que o exército oferece, como casa e estudo.
O terceiro brasileiro é o veterano Felipe Nascimento, que vive atualmente em Nova Iorque. Ele saiu do Brasil para servir como fuzileiro naval no exército estadunidense. O ex-combatente, que atuou na Guerra do Afeganistão, não esconde, no entanto, as marcas deixadas pela guerra.
Na entrevista a seguir, os dois realizadores fazem uma reflexão sobre o desenho existencial retratado no .doc.

“Soldado Estrangeiro” parece um rico estudo sobre a solidão num ambiente de grupo, de caserna. O que é essa condição solitária que o longa parece refletir?
Joffily:
Numa situação limite todos são iguais e fazem uma fraternidade. Ou então afundam juntos. Ao longo da experiência, pode acontecer uma coisa ou outra. Eu diria que a solidão mesmo é para os sobreviventes. Para aqueles que tentam retomar suas vidas e reconquistar perdas. O companheirismo nascido nas situações limites se dissolve na viagem de volta. A adrenalina que aproximava todos, dá lugar à rotina de um veterano jamais suficientemente recompensado.
Pedro: Estou seguro que um dos principais desejos que movem os três personagens do filme é o de pertencer a algo relevante, fazer a diferença. Para além dos desejos de ascensão social, de status como diz o Felipe no filme, há o desespero do mundo contemporâneo, que tende a nos isolar. Bruno estava sem emprego no Brasil. Criava a filha com muita dificuldade. Acho que isto foi um dos fatores que o levaram também a procurar a Igreja Evangélica, que talvez seja um dos poucos lugares que ainda consigam dar um senso de comunidade nas periferias. A Legião Estrangeira Francesa era uma espécie de tudo ou nada para ele, que vendeu o carro e se mandou. Mas é evidente que a idealização que encontramos nos fóruns de internet, alimentados por fãs, não traduz as dificuldades da vida no exílio. Por mais conflagrado que fosse o território do Bruno por aqui, ainda assim era seu território. Já Mario, o segundo personagem, vivia a solitária transição da adolescência para a vida adulta quando ingressou no exército de Israel. Por mais que tentemos disfarçar, todos sabemos os demônios que precisam ser vencidos nesta fase. O ingresso militar faz parte deste seu rito de passagem e creio que ele ainda levará alguns anos para se dar conta do que foi realmente a experiência. Mas, de alguma forma, por sua origem e educação judaica e pela natureza da constituição da população de Israel, o senso de pertencimento me pareceu maior em Mario que nos demais. O que não exclui o fato de que Mario é um brasileiro como eu e que, provavelmente, as pessoas com quem ele poderia se encontrar em oposição no front talvez tenham mais legitimidade do que ele para ocupar aquele espaço, já que estão ali há gerações. É uma longa discussão em que o filme faz questão de não se enveredar, porque nossa meta era apenas o que vivíamos juntos no campo, sem entrar em objeções políticas de nenhuma natureza. Felipe, o terceiro personagem, é um veterano clássico, daqueles de filme. Seu pequeno apartamento fica numa região muito bacana de Nova York, o Upper East Side, o que é quase uma contradição frente às dificuldades financeiras que atravessa, com seus parcos rendimentos. O imóvel possui um daqueles aluguéis estabilizados e vem sendo mantido pela família desde antes da grande onda de gentrificação da cidade no fim dos 90. Sempre foi muito solitário nos EUA, para onde foi com a família ainda criança.

Como se deu o trabalho com Jordana Berg na construção da montagem?
José Joffily:
É comum que, num documentário, a gente perca o caminho. Como você não está de antolhos, o mundo em volta chama atenção. E como o registro digital autoriza a gastar, você filma. Quando dá sorte, ao final das filmagens, o filme que você queria fazer está ali, naquelas centenas de horas e cenas. É esse abundante emaranhado de cenas que você entrega para Jordana. Ao mesmo tempo, você vai contando para ela o que você acha que é o filme que fez, ou que gostaria de ter feito. Algumas vezes é uma fantasia tua, aquele filme não está ali. De qualquer forma, aplacada sua ansiedade, você deixa ela sozinha durante alguns dias vendo o material bruto. É mesmo um alívio, dá até a impressão que você transferiu a responsabilidade. Depois que ela vê o material, um dia você volta. Jordana tem sempre um filme melhor a propor. Pronto, esse é o início da montagem com ela.
Pedro Rossi: “Soldado Estrangeiro” foi nossa segunda parceria com a Jordana. A primeira, “Caminho de Volta”, era também um filme sobre o exílio. Ela é extremamente criativa e cheia de propostas. Uma pessoa instigante e inteligente, que nos desafia e desafia o material o tempo todo. Ela muitas vezes coloca o filme em cheque num ponto já avançado do trabalho e isso pode provocar abalos terríveis. Mas acho que é isso que faz dela a melhor montadora com quem já trabalhei, talvez uma das melhores de todos os tempos. Mas Jordana tem um problema: é muito disputada e faz muitas atividades simultâneas. Vive viajando para Cuba, para França, pela América Latina. Então, é uma pessoa muito disputada, a quem temos que prestar sempre reverência.

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