‘Sofá’ para sentar e ficar, à moda Lubitsch

‘Sofá’ para sentar e ficar, à moda Lubitsch

Rodrigo Fonseca

21 de dezembro de 2019 | 12h27

Rodrigo Fonseca
Se alguém, n’algum futuro possível, tivesse que explicar o que foi o Rio de Janeiro do fim dos anos 2010 a qualquer um que nunca tenha pisado aqui, bastaria exibir “Sofá”. Essa instalação audiovisual de colagem, chanchada, teatro besteirol e filme de Ernest Lubitsch, dirigida na raia da poesia por Bruno Safadi é capaz de dar uma tradução rasgada do eclipse moral ao redor dos cariocas. Lançado mundialmente durante o Festival de Torino, em novembro, e exibido há poucos dias no Festival do Rio, esta suave (mas tristíssima) tragicomédia sintetiza seu ethos num diálogo, dito em seus momentos finais: “Quando a opressão aumenta, muitos se desencorajam”. Há muitos motivos para se perder a coragem no mundo em que o único heroísmo possível vem de um pirata, Pharaó (Chay Suede, com ecos do Warren Beatty de “Mickey One”), e de uma professora acompanhada de uma “barrigudinha” (apelido para as garrafas de cachaça mais “mata-rato” do mercado), Joana D’Arc. Esta amazona da triste figura dá ao cinema brasileiro uma das sequências mais catárticas desta década, apoiada na entrega radical de Ingrid Guimarães ao risco. A tal sequência: em meio a um cortejo a ser coroado com um beijo, Joana desenha, de canetinha pilot, as letras do alfabeto na pele suada de Pharaó. No enquadramento de bafos quentes da fotografia de Azul Serra, não há enlace mais sensual: é uma educadora sem lousa, que faz da alfabetização seu instrumento de gozo.
Já nas primeiras cenas, montadas por Ricardo Pretti sem obrigação de PAs e PGs da álgebra convencional do cinema, Joana caminha numa edição reversa, num rewind de passos que serve de metáfora ao atraso do RJ nos últimos dois anos. É o esbarrão em Pharaó que há de vetorizar, na direção e na aceleração precisas, o caminhar dessa mártir de uma cidade partida. Partida em cacos de fundamentalismos progressistas (e de fé). O amor aqui é necessário, pois há uma linha de comédia romântica no filme. Essa linha vem de Lubitsch (um dos faróis de Safadi) e transborda em uma evocação indireta a “O Diabo disse não” (1943): “O querer dispensa apresentações e não há níquel que compre o meu amar”, ouve-se no longa da década de 1940, com Gene Tierney e Don Ameche. A interseção entre os corações lubitschianos de “Sofá” é explicada em um desabafo do personagem de Chay: “Saudade não encontra distância”. Numa atuação em que usa todo seu ferramental reflexivo do teatro, Ingrid torna sua ébria Joana uma Mãe Coragem de um Rio que mandou seus filhos para as trincheiras. Preservar a lucidez e o domínio da arte da palavra é não apenas sua forma de esgrima de guerra, mas é seu leite, para amamentar esperanças. E amamentar a paixão lúdica de Pharaó.

Durante as filmagens, em 2017, Ingrid e Chay caminhavam pelas ruas em trajes que mais pareciam com os de moradores de rua em condição de pobreza extrema. Cruzaram a (dita) Cidade Maravilhosa carregando uma poltrona velha, bem sujinha. É ela o foco da dramaturgia desta produção de baixíssimo orçamento pilotada pelo realizador do cultuado “Éden” (2002), com foco nas falências morais dos cariocas. Não por acaso, o filme trava um diálogo com outro hit de Safadi, “O Prefeito”, que representou o Brasil em importantes festivais no exterior, em 2015 e 2016. Tanto que o protagonista de lá, o alcaide cheio de TOCs vivido por Nizo Neto, volta aqui. E volta numa brilhante atuação de Nizo, digna de Jacques Tati, acompanhado por um fiel mordomo (Gustavo Novaes, numa pantomima hilária). No enredo, inspirado no Lubitsch de “Madame DuBarry” (1919) e no Godard de “Bande à Part” (1964), Pharaó pesca um sofá que Joana D’Arc reconhece como sendo o da casa dela. Para azar desta alfabetizadora que já não tem mais bens materiais, um ex-aluno dela que virou bandido, Ronaldinho (vivido por João Pedro Zappa, de “Gabriel e a Montanha”), vai aparecer em seu caminho. Eis a confusão…
Uma confusão que vira alarme, alerta e poema, fundindo outros saberes, como a colagem (na direção de arte de Luísa Horta e Marcelo XY) para juntar os pedaços de uma metrópole que explodiu sob o peso da desatenção. Parte desse descaso institucional é exposta no filme a partir da denúncia da evisceração do RJ a partir das remoções, ligadas aos Jogos Olímpicos e à destruição de vias de acesso, como a Perimetral. Ao enveredar por este caminho, Safadi faz de seu alegórico “Sofá” um explosivo e precioso documento sobre o rearranjo físico que aleijou a geopolítica de sua terra… nossa terra… hoje em dias de colapse, mas ainda capaz de reagir. Um filme bonito como esse é a prova de nossa resistência.

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