Soberano é o Tempo no real de Carlos Nader

Soberano é o Tempo no real de Carlos Nader

Rodrigo Fonseca

27 de julho de 2020 | 15h21

Carlos Nader, em foto de Bob Wolfenson, é o foco do debate desta segunda no seminário Na Real_Virtual, produzidos pela Imaginário Digital

Rodrigo Fonseca
Micareta documental, embalada pela percussão da autoralidade, o seminário Na Real_Virtual promove, esta noite, um debate sobre o conceito clássico de biografia nas telas, de carona na experiência de Carlos Nader, diretor de “Soberano: Seis Vezes São Paulo” (2010) e “Trovoada” (1995). Online, o evento é realizado às segundas, quartas e sextas, até o dia 14 de agosto, sempre às 19h, sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos. Para saber mais sobre essa série de colóquios, produzida por Márcio Blanco e sua Imaginário Digital, basta consultar, na web, o menu de conversas no site oficial do simpósio: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Atração de hoje, Nader é um dos cineastas mais premiados do país. Ele foi o vencedor da competição nacional do É Tudo Verdade em 2015 com “A Paixão de JL”, no qual resgata memórias e sensações afetivas do artista plástico José Leonilson (1957-1993). Ele constrói seus longas a partir de relatos sobre a vida de diferentes pessoas (muitas vezes, artistas) para construir uma reflexão sobre o Tempo, o Espaço e a Arte. Um de seus trabalhos mais consagrados é o belo “Pan-Cinema Permanente” (2008), centrado no poeta Waly Salomão (1943-2003). Dirigiu ainda “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro” (2013), sobre o aclamado documentarista, morto em 2014.
“Meu próximo filme é um documentário com perguntas existenciais, existencialistas até, para musas e musos fitness. Tá meio difícil de financiar isso, mas é o que gostaria de fazer. Dos que estou fazendo agora, o que mais gostei é um curta sobre a linguagem que vai ficar sendo exibido a cada meia hora, diariamente, pelos próximos dez anos, no Museu da Língua Portuguesa”, antecipa Nader ao P de Pop.

Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre laços afetivos e ausência no âmbito familiar (o cult “Elena”, de Petra Costa). Para a conversa com Nader, Mattos e Abrantes escolheram como bússola o filme “O Homem Comum” (2014), focado no caminhoneiro paranaense Nilson de Paula. Os curadores partem dele para analisar o fluxo do tempo na obra do cineasta. “História, com letra maiúscula ou minúscula, é sempre uma construção que busca saciar a fome de narração que todo ser humano tem desde a mais tenra infância, na procura por um sentido alcançável para algo que simplesmente não tem, a vida. Assim, na biografia, dá para dizer que a vida de alguém é moldada e narrada para tentar dar sentido à nossa”, disse Nader em entrevista ao site Omelete, em 2016.
Na seleção feita pelo Na Real_Virtual, o adjetivo “delicado” pautou a inclusão de Nader no painel de cineastas. “Ele vem de uma geração que, assim como Cao Guimarães, com quem falamos na sexta passada, combinou o cinema do real com a videoarte”, explica Mattos. “Seus filmes e vídeos frequentemente versam sobre temas conceituais e metafísicos: identidade, a passagem do tempo, a hereditariedade, a vida e a morte”.
Um dos mais respeitados críticos de cinema do país, Mattos explica que “Homem Comum”, o filme escolhido para ancorar o encontro desta segunda, “é exemplar do intuito de Nader de aproximar o íntimo e o transcendente, o personagem popular e a indagação filosófica, o caminhoneiro e o Carl Dreyer”. Já Abrantes, diretor de “Recife/ Sevilha – João Cabral de Melo Neto” (2003), ressalta a dimensão lúdica do léxico naderiano: “Os filmes de Carlos Nader, ‘Homem comum’, ‘A paixão de JL’ e todos os outros, são a DELICADEZA aplicada na abordagem do REAL. O trato delicado da realidade é um ato de resistência, um ato político em especial nos dias de hoje, quando imperam em nosso cenário político, social e cultural atitudes grotescas e obscurantistas”, diz Abrantes.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

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