‘Snotty Boy’ celebra gênio austríaco do cartum

‘Snotty Boy’ celebra gênio austríaco do cartum

Rodrigo Fonseca

18 de junho de 2021 | 11h00

O jovem Manfred descobre o desejo e o amor em “Snotty Boy”, que concorre em Annecy

Rodrigo Fonseca
Pilar das artes gráficas germânicas, conhecido na seara do cartum por sua veia satírica e pelo modo de caracterizar pessoas sempre com muitos quilos, Manfred Deix (1949-2016), austríaco de St. Pölten, desenhou seu conterrâneo Arnold Schwarzenegger numa série de ilustrações, chamadas “Die nackte Wahrheit” (algo como “Verdade Nua e Crua”), editada em livro. “Der dicke Deix” é outra joia de sua carreira, que vem sendo revisitada agora pelo cinema, a partir de um hilariante longa-metragem de animação, “Snotty Boy”, hoje em concurso no Festival de Annecy, na França. É o evento mais prestigioso do mundo para a indústria animada e tem dois longas brasileiros lá: “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, de Cesar Cabral (SP) e “Meu Tio José”, de Ducca Rios (BA). A produção centrada na infância de Deix, chamada “Rotzbub”, é dirigido pela dupla Santiago Lopez Jover e Marcus H. Rosenmüller, que se orgulha do fato de o filme ser o primeiro longa animado da História da Áustria.
“É o começo de algo que está nascendo”, orgulha-se Rosenmüller, que está em Annecy, à espreita de um possível prêmio para o filme, neste sábado, quando termina o evento. “Há muita hipocrisia no universo do qual Manfred fez parte, especialmente ligada ao sexo, à Igreja e a um resquício do nazismo”.
Seu parceiro de trabalho, vindo da Espanha para terras austríacas há dez anos, diz que o país onde se instalou tem um polo de animação ainda mirrado. “Quando cheguei aqui, li ‘Áustria, um país sem animação’, mas trabalhei como freelancer para estúdios fora daqui, enquanto via nascer um pequeno contingente local de animadores, incluindo alguns que estudaram fora”, diz Lopez Jover ao Estadão, lembrando que “Snotty Boy” mobilizou uma equipe de 12 profissionais, em torno de técnicas de computação em 3D. “Tentamos reproduzir no filme o saturado da cor do próprio Manfred, dando um aspecto de carne e osso às figuras”.
Espelhando a obra de seu biografado, Rosenmüller e Lopez Jover criaram um filme picante, sem medo da correção política, explorando o momento em que Deix, ainda guri, encantou-se pela anatomia feminina. Um tio desenhista, um padre violento e simpatizantes tardios do ódio pregado pelo hitlerismo passaram pela vida do cartunista, nos anos 1960, num momento de transformação comportamental.
“Liberdade é a questão central desta história, retratando o quanto podemos mudar o mundo a partir da arte, rejeitando a violência”, disse Rosenmüller ao P de Pop, complementado por seu colega hispânico.
“Há uma menção no filme a uma revolução que estaria vindo, numa referência a 1968. É parte do caldeirão cultural que formou Deix”, diz Lopez Jover. “Trabalhamos num contexto histórico onde a liberdade de escolha era essencial”.
Na briga por prêmios, “Snotty Boy” tem como maior rival “My Sunny Maad” (também chamado “Ma Famille Afghane”), de Michaela Pavlátová. Laureada com o Urso de Ouro de curtas por “Repete” (1995), a cineasta da República Tcheca vem arrancando elogios com a história de uma europeia que se reinventa no Afeganistão.
Brilha ainda, no garimpo de Annecy, “Lamya’s Poem”, de Alex Kronemer, sobre a paixão de uma criança pela poesia. Do Japão, terra dos animês, a pedida de Annecy é “Poupelle of Chimney Town”, de Yuusuke Hirota. Da China, a boa é “Jiang Ziya: The Legend of Deification”, de Cheng Teng e Wei Li. Fora das mostras competitivas, “o” achado do evento é “Even Mice Belong In Heaven”, da dupla tcheca Denisa Grimmová e Jan Bubeníček, que injeta inteligência na seara dos filmes infantojuvenis. É uma aventura metafísica sobre a improvável amizade entre uma ratinha e uma raposa em uma espécie de Céu dos Animais, num estudo sobre tolerância e sobre reencarnação.

p.s.: Exemplar o desempenho de Wendell Bezerra, a voz nacional do Bob Esponja, dublando Chris Rock em seu melhor trabalho nas telas: “Espiral”, sequência da franquia “Jogos Mortais”. Emperrada numa verborragia grosseira e sem graças (que só vale por sua militância), a carreira de Rock no cinema sempre patinou entre escolhas ruins, ganhando graça apenas nas comédias que fez com Adam Sandler. Mas, num papel sério, encarnando um policial envolvido com um psicopata que imita o assassino Jigsaw, Rock revela um vasto ferramental dramático. E, em sua versão brasileira, Bezerra, hoje um dos maiores dubladores em atividade nas Américas, dá conta de toda a excelência alcançada pelo ator americano. Bezerra é um craque em escavar as angústias dos personagens que dubla.

p.s. 2: Embora só termina no domingo, tendo “Nem Um Passo Em Falso”, de Soderbergh para exibir no fim de semana, Tribeca realizou sua premiação na quinta-feira. Cartografia de uma obsessão, num universo onde a afirmação de um devir queer ainda esbarra na intolerância, “The Novice”, um esplendoroso estudo sobre os limites entre perseverança e loucura, ganha o prêmio principal do festival. O trabalho primoroso de Isabelle Fuhrman, estrela do horror cult “A Órfã” (2009), foi reconhecido com uma láurea de melhor interpretação. E ainda foi concedido um prêmio a mais para esta produção, pilotada por Lauren Hadaway: o de melhor fotografia, dado a Todd Martin. Elogiadíssimo desde que Tribeca iniciou sua programação deste ano, o tenso “Brighton 4th”, de Levan Koguashivili, foi “o” vitorioso na seara competitiva estrangeira, vencendo nas categorias: melhor filme, melhor ator (Levan Tediashvili) e roteiro. Essa doída produção é representante do novíssimo cinema da Geórgia. Um campeão de luta livre, hoje grisalho, tem de viajar até os Estados Unidos, pra salvar seu filho, que abriga georgianos ilegais e tem uma dívida com a máfia. O longa com mais cara de cult do evento nova-iorquino deste ano não concorria a nada: “Shapeless”, de Samantha Aldana, terror sobre uma jovem cantora às voltas com uma compulsão alimentar.

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