‘Sniper’: Tom Berenger, o ‘Platoon’ solitário

‘Sniper’: Tom Berenger, o ‘Platoon’ solitário

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2020 | 13h08

Rodrigo Fonseca
Lançado em 1993, sob a direção do peruano Luis Llosa (“O Especialista”), num momento de overdose de correção política nas veias do pop, “Sniper, o Atirador” abriu, à força de US$ 19 milhões nas bilheterias, uma franquia multimídia amparada num exército de um homem, o sargento Thomas Beckett. Mesmo tendo ganho mais vulto em VHS, DVD e nas redes TVs do que em circuito exibidor, a série ali aberta peitou o patrulhamento contra o cinema de ação, oxigenando-o com um herói fardado, na linha Rambo. Herói que explorou o olhar de “você já era!” trazido por seu intérprete, Thomas Michael Moore Berenger, de um fenômeno de público e crítica: “Platoon” (1986). Mergulho de Oliver Stone no Vietnã, a partir de vivências pessoais do cineasta, aquele sucesso bélico deu a Berenger um papel monumental, o sargento Barnes, militar intolerante e abusivo. A atuação nas raias da epifania de Tom sob a batuta de Stone valeu a ele uma merecida indicação ao Oscar e consolidou sua boa reputação nas telas, que já vinha de “O Reencontro” (1983) e ampliou-se em “Perigo na Noite” (1987) e “Atraiçoados” (1988). A explosão de seu sucesso na década de 1980 – quando estabeleceu, por aqui, os dubladores Júlio Cezar e Hélio Ribeiro como suas vozes oficiais em Português – travou nos anos seguintes, com escolhas equivocadas, à exceção do trabalho com Llosa. Beckett virou seu personagem mais recorrente e mais bem torneado, depois de Barnes, aproveitando deste uma sanha de intolerância, ainda que diluída em um senso de ética altruísta. Beckett é um ás do gatilho que, sob a égide dos fuzileiros navais, dispersava células rebeldes na América Central e nos confins da Europa. Suas aventuras renderam mais cinco filmes: “Sniper: Assassin’s End” (2020) é o mais recente – e o mais sofisticado em termos narrativos, atomizando lógicas de protagonismo. Em solo nacional, o longa-metragem chega com o título “O Atirador: O Fim de Um Assassino”, disponível para aluguel e compra nas plataformas digitais: Apple Store | iTunes, Google Play, Looke, Microsoft Filmes e TV (Xbox), NOW, Oi Play, PlayStation Store, SKY Play e Vivo Play. Chad Michael Collins é um de seus destaques, encarnando Brandon Beckett, filho e herdeiro do legado guerreiro de Thomas.

Cena do “Sniper” original, de 1993

Com roteiro e produção de Oliver Thompson, inspirado nos tipos criados por Michael Frost Beckner, “O Atirador: O Fim de Um Assassino” é dirigido pelo quadrinista canadense Kaare Andrews (do ótimo “Altitude”), famoso por seu trabalho com o Homem-Aranha. Das HQs, ele traz um senso de ritmo que fragmenta os focos narrativos, injetando elementos visuais que driblam as amarras do realismo, pela estilização. É o caso da assassina japonesa Lady Death (Sayaka Akimoto), que lembra uma ninja e algumas heroínas dos X-men, como Psylocke. Ela é quem deflagra a trama, ao disparar um tiro contra um investidor estrangeiro que assinaria um tratado comercial com os EUA. Como o crime é cometido em absoluto sigilo, sem que ela deixe rastros, o Serviço Secreto Americano vai atrás da única pessoa com habilidade para disparar daquela forma: o já citado Brandon Beckett (Chad Michael Collins, com retidão à la Burt Lancaster). Ele vira o principal suspeito do assassinato e é detido para interrogatório. Mas ao ser encaminhando para a detenção, ele é alvo de um atentado, conseguindo escapar. Sua única saída será contar com o apoio de seu pai, Thomas Beckett (Berenger, numa memorável performance, com ares de Richard Widmark).

Um agente de boa índole, Zero (Ryan Robbins), percebe que há algo de pobre em torno da acusação a Brandon e resolve ajuda-lo, esbarrando em Lady Death. Ela também cruzar o caminho de Thomas, numa sequência de perseguição frenética. Kaare dirige o filme em plena sintonia com a tradição do cinema de adrenalina dos anos 1980 e 90, potencializando a forma de representar a violência com lutas inusitadas. A melhor delas é a sequência na qual Brandon usa o rifle como tacape para enfrentar sua algoz japonesa. Os diálogos apostam na ironia, em especial na cena em que Zero força um executivo a atendê-lo desmobilizando um encontro deste, num jantar romântico. Já Berenger emprega toda a experiência amealhada nas últimas quatro décadas para dar a Beckett uma dimensão de samurai. O resultado é um empolgante espetáculo de brutalidade sobre honra… e paternidade.

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