‘Sniper Americano’ em revista: 90 anos de Clint

‘Sniper Americano’ em revista: 90 anos de Clint

Rodrigo Fonseca

31 de maio de 2020 | 13h00

Rodrigo Fonseca
É aniversário de Clint Eastwood hoje, 90 anos, e o “Domingo Maior” da Globo vai assoprar as velinhas às 22h20, com a exibição de “American Sniper” fenômeno de bilheteria do diretor, que custou US$ 59 milhões e arrecadou US$ 547 milhões nas bilheterias. Philippe Maia dubla seu protagonista, Bradley Cooper. Indicado a seis Oscars, o longa-metragem, baseado em um “romance reportagem” de Chris Kyle, concorreu a seis Oscars e ganhou a estatueta de edição de som. Antes, de 12h35 até 2h, o Telecine Cult faz uma retrospectiva do ator e cineasta, chamada “Parabéns, Clintão”.

Aposta-se que Spinoza seja o holofote filosófico ideal para que se leia a obra de Clint, mas é necessário que se faça uma metafísica de seu ethos. Desde seu segundo filme como realizador, o faroeste gótico “O estranho sem nome” de 1973, Clinton Eastwood Jr. persegue, com freqüência a questão da Fé. E é Fé assim com letra maiúscula, indicando a crença numa Divindade Absoluta como um balizador das ações entre os homens. É a Fé que serve de refúgio ao pastor bom de bala de “Cavaleiro solitário”, western que rendeu a Eastwood a primeira de suas cinco indicações à Palma de Ouro de Cannes. É nos versículos do Evangelho que o “imperdoável” Will Munny ensaia uma redenção no clássico que deu ao cineasta seu primeiro Oscar de melhor diretor. Sua segunda estatueta viria por “Menina de Ouro” (2004), no qual também havia um padre disposto a iluminar as dores de um treinador de boxe fã de James Joyce. “A troca” de 2008 tinha John Malkovich como um pregador capaz de desafiar a corrupção policial à força de sua influência política.

Um dos maiores sucessos de bilheteria de sua trajetória, com US$ 270 milhões de renda, “Gran Torino”, também de 2008, tinha um pároco disposto a ajudar o ex-militar encarnado por Eastwood. Já no injustiçado “Além da vida”, não se viam batinas, nem Bíblias, mas havia espíritos por todos os lados, cercando um protagonista envolto no dilema de crer. Sendo assim, não haveria motivo para a Fé ficar de fora de “Sniper americano”.

Soterrado por uma polêmica acerca de uma suposta conivência (expressa como reverência) com as práticas militares de intervencionismo dos EUA, o longa-metragem acabou tendo suas muitas camadas reflexivas ofuscadas por um burburinhos raso, incapaz sequer de tracejar a operação delicada que Eastwood opera para esfacelar os mitos americanos. Uma dessas camadas é a religiosa – na relação dos homens dos Estados Unidos com a Fé – integra a espinha dorsal dramatúrgica do protagonista do filme: o fuzileiro naval Chris Kyle, uma figura real, elevado á condição de herói por seus feitos, e ficcionalizado com vários vetores críticos pelo filme. Esses vertores são canalizados na interpretação devastadora de Bradley Cooper, um astro de incontável carisma enfim à altura dos status de bom ator que Hollywood confiou a ele, após duas indicações (equivocadas) ao Oscar, com “O lado bom da vida”, em 2013, e com “Trapaça”, em 2014. Em 2018, ele se consagrou como realizador em “Nasce Uma Estrela”, voltando a trabalhar com Eastwood em “A Mula”. Cooper é também coprodutor do filme, cujo roteiro é inspirado na biografia de Kyle, recém-lançado no Brasil pela Intrínseca, em tradução musicalíssima de André Gordirro.
No esforço de ir além do posto de galã, Cooper ajuda Eastwood a dar a Kyle a dimensão atormentada do homem que cresceu educado por um conceito bíblico transmitido por seu pai. “Um homem pode seguir três caminhos: ser uma ovelha, ser um lobo ou ser um cão pastor. A ovelha é a presa, carente do apoio de Deus. O lobo é o predador desprezível, que mata sem perdão. O cão pastor é a nobreza: é o cachorro que rasga a jugular do lobo do homem e o salva, em nome da caridade, sem medo do autossacrifício”. É esta parábola evangélica – reinventada por Nietzsche como o “paralelismo do cordeiro e da ave de rapina” – que norteia a lógica de Kyle enquanto personagem ficcional. Texano, ex-caubói, macho alfa, ele foi evangelizado desde menino para não ser uma ovelha e para proteger seu rebanho, afiando as presas ao máximo para isso. A luta contra as tropas do Iraque, nação para onde vai ao se alistar por opção, disposto a “limpar” a Terra de terroristas, é, em sua cabeça, uma cruzada religiosa, uma jihad no qual ele será o Cordeiro de Deus a ser sacrificado, missão a missão, em prol de uma causa sagrada: tirar os lobos do caminho dos fracos e oprimidos.

Esse herói jihadista é um caubói, como são todos os heróis e anti-heróis de Eastwood, do tira Dirty Harry ao veterano combatente de “Gran Torino”. E como bom caubói, seu lema é “Um homem tem que fazer aquilo que um homem tem que fazer”, algo que nos ensinou Gary Cooper em “Matar ou morrer”, lá atrás, em 1952. Mas ele faz o que faz melhor, ou seja, tirar vidas (são atribuídos oficialmente a Kyle 160 tiros fatais no front), em nome de uma causa divina: proteger a terra sagrada onde seus ancestrais e seus descendentes vivem, os Estados Unidos. As críticas ao filme apontam, levianamente, uma postura fascista em Kyle de ver o inimigo como uma barbárie executável, considerando, assim, que Eastwood compactuaria com este olhar do personagem. É uma histeria similar à que levou José Padilha a ser tachado de fascista por “Tropa de elite” (2007), em função dos dizeres de seu Capitão Beto Nascimento. Mas essa leitura, aplicada a “Sniper americano”, esgarça uma miopia política que esfumaça a autocrítica praticada por Eastwood. Numa sequência dos primeiros 30 minutos do longa – essencial para a compreensão do todo -, Kyle explica à mulher por quem vai se apaixonar, Taya (defendida à perfeição por Sienna Miller), que precisa lutar no Iraque para defender seu país, “o melhor país do mundo”. A seus olhos, os atentados do 11 de setembro fizeram desse “país glorioso” uma pátria de ovelhas a mercê de lobos. É dever de quem foi abençoado por Deus com presas ser um cão pastor.

Nessa neurose bíblicopatriórica, Eastwood igual (aquilo que, no olhar de Kyle seria) civilização à barbárie iraquiana. Na visão de Kyle, lá no Iraque, mata-se por fundamentalismo, isto é, pela Fé. É esta mesmo sentimento – a Fé no Todo-Poderoso e a fé na pátria abençoada por este – que o (anti-)herói fardado deste grande filme age.

O “grande filme” aqui deve ser entendido não apenas por conta das questões existenciais operacionalizadas por Eastwood mas também pelo vigor formal da narrativa. É a câmera de Eastwood que justifica a excelência deste épico bélico sobre um Moisés de farda. Eastwood lançou o filme quando tinha 84 anos, mostrando o frescor de um adolescente na criação das cenas de batalhas, tão frenéticas quanto as de um bom filme de ação com Stallone. A esse frescor, ele alia a experiência de anos narrando situações de conflito armado, alcançando um realismo que não se escora em muletas documentais para impressionar. A fotografia de Tom Stern (que trabalhou com Samuel Füller no seminal “Cachorro branco”) emula a mesma tensão que a fronte de Kyle antes de disparar uma bala num alvo vivo. O auge do esmero visual se dá na sequência da tempestade de areia, valorizado pela montagem agilíssima, que mantém a adrenalina em alta sem deixar, nenhum segundo, que o aspecto reflexivo dos dilemas morais de Kyle se perca.

Se há um ponto fraco – cinematográfico – em “Sniper americano” é a evidência da mesma fraqueza que abate toda a obra de Eastwood como realizador: o fato de o cineasta jamais apostar em um elenco de apoio qualificado, incorrendo em coadjuvantes de inexpressividade indisfarçável. Os colegas de pelotão de Kyle e mesmo seus companheiros de copo ou familiares ficam a quilômetros de distância do talento de Cooper, o que gera ruído. Mas, aqui, como os estrondos das bombas e os estampidos dos tiros são altos demais, o barulho da violência disfarça o incômodo de uma trupe de atores em desnível com os protagonistas. No caso de um filme como “A conquista da honra”, no qual a canastrice reinava de front em front, o desnível era mais danoso. Aqui, ele é um mero arranhão frente a um espetáculo maior.

Também mereciam mais aparas – com efeitos digitais de finalização – a pós-produção das cenas documentais relativas ao futuro (trágico) de Kyle em seu pós-guerra. As cenas de arquivo são costuradas às imagens ficcionais sem um tratamento de cor sofisticado. Mas, de novo, é um machucadinho de sangue pisado em um organismo vivo e pulsante, que mostra o quanto Eastwood é capaz de depurar seu ferramental estético à direção.

p.s.: Às 22h, a Band resgata um dos maiores cults da carreira do gênio Brian Russell De Palma: “O Pagamento Final” (“Carlito’s Way”, 1993). Al Pacino, dublado por Ricardo Schnetzer, vive Carlito Brigante, gângster que sai arrependido do xilindró, disposto a se reinventar como gerente de uma boate. Mas seu advogado, Kleinfeld (Sean Penn, em um desempenho arrebatador), vai arrastá-lo para o lodaçal de novo. Penn só não brilha mais do que a fotografia de Stephen H. Burum e o desempenho de Penelope Ann Miller, indicada ao Globo de Ouro por sua performance como a musa de Brigante. A trama é baseada em romances de Edwin Torres.

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