‘Sinônimos’ de excelência na Mostra de SP

‘Sinônimos’ de excelência na Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

07 de outubro de 2019 | 20h11

“Sinônimos”, do cineasta Nadav Lapid, é uma das atrações da maratona cinéfila paulista, que começa no dia 17: o longa ganhou o Urso de Ouro da Berlinale 2019


Rodrigo Fonseca
Com “Wasp Network” escalado como sua atração de abertura, atraindo olhares para uma homenagem ao diretor francês Olivier Assayas, a 43ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (17 a 30 de outubro) incluiu em seu cardápio de joias o ganhador do Urso de Ouro de 2019: “Sinônimos”, do israelense Nadav Lapid. Na ativa desde 2003, o diretor de 44 anos viu sua fama como autor cinematográfico se consolidar, na indústria audiovisual, após a conquista do troféu mais cobiçada da 69º Festival de Berlim, em fevereiro. Na ocasião, ele derrotou medalhões como Agnieszka Holland, François Ozon e Fatih Akin, o que trouxe a ele notoriedade e respeito, mas também um certo fardo, pelo menos, em seu lar. Desde o dia 16/2, quando sua vitória foi anunciada pelo júri presidido pela atriz francesa Juliette Binoche, encantada pelas reflexões de tom existencial feitas por ele em “Synonymes”, Lapid vem sendo tratado em Israel como celebridade, ainda que o longa-metragem não tenha se estabelecido como um fenômeno de bilheteria.
Encarado como uma grife criativa desde 2011, quando ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Locarno com “Policeman”, Lapid conquistou o apreço dos críticos quando Cannes rasgou-se em elogios para seu “A professora do jardim da infância” (2014), que foi refilmado nos EUA há um ano. Mas, agora, o Urso dourado berlinense chegou às mãos dele por conta de um trabalho ainda mais radical: “Synonymes” é o retrato de um imigrante israelense que busca um lar em Paris, às custas do apagamento de seu passado, de suas raízes, de sua língua. Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega à França cheio de sonhos e de aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade pela outra é uma tarefa carregada de um ônus existencialista: ele tem que ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar de sua língua natal e se vê cercado de sombras xenófobas. É o preço do pertencimento, que rendeu ao realizador também o Prêmio da Crítica Internacional, dado pela Federação Imprensa Cinematográfica (Fipresci).
Na entrevista a seguir, Lapid fala ao P de Pop dos simbolismos políticos da cruzada de Yoav.

É inusitado ver um representante do dito cinema autoral contemporâneo dar às palavras o valor que você reserva a ela, a ponto de assumir um conceito gramatical, “sinônimos”, para ser o título do filme que lhe deu o Urso de Ouro. Em geral, a palavra é tratada como muleta para a plenitude da imagem. Mas com você, não é assim. Por quê?
Nadav Lapid:
Palavras fazem parte da expressão humana e, portanto, não devem ser banidas do cinema, a arte que mais se assemelha à potência da vida, da existência, da representação da realidade. As palavras são parte da experiência de existir. São uma parte sensorial, o que dá a elas uma dimensão física. Há críticos e cineastas que consideram a palavra algo mais afeito à TV, à teledramaturgia, mas eu encaro as palavras pela essência, não apenas pela matéria, ou seja, o som, as letras. Palavras são signos, que vão além do que seus significados geram como efeito estético. As minhas palavras são reminiscências de Israel, elas me conectam à terra de onde venho, elas servem de emblema à tradição.

Seu personagem principal em “Synonymes”, o jovem Yoav, adota um dicionário como amigo, pois quer morrer para Israel e renascer na França.
Nadav Lapid:
Sim, porque temos uma odisseia de deslocamento pela frente, na trajetória dele.
Mas como é que alguém, em terra estrangeira, enterra seu passado pela palavra?
Nadav Lapid:
Palavra é patrimônio… palavra é um bem material que traduz tradição… que traduz pertença territorial. Abrir mão de sua língua materna é um sacrifício, que começa com o gaguejar de novas expressões e vai para o sussurro de novos verbetes, passando por uma travessia sensorial. Isso, na tela, na imagem, dá para a linguagem verbal dimensão cinemática, que eu expresso a partir de enquadramentos, de movimentos de câmera. Na nossa língua natal, tudo sai automaticamente. Nas línguas que nós adotamos, cada palavra é pensada, para se adequar às imagens que desejamos transmitir, como uma tradução visual. O cinema é uma língua, com códigos próprios. Quando eu expresso Israel nessa língua, a das imagens em movimento, alternos momentos de quietude com trechos barulhentos, de muita fala. Às vezes, personagens como Yoav falam como metralhadoras e, às vezes, refugiam-se no silêncio absoluto. É o processo da linguagem, a gangorra do som.
Que tipo de herói é Yoav?
Nadav Lapid:
Encaro esse jovem como um super-herói, por gostar do que esse conceito pode simbolizar, ou seja, um coletivo de virtudes. Yoav é super pelo fato de ser cheio de carisma, de dançar bem, de ser atraente, de ter virtudes heroicas. Ele é a encarnação da falta de pertencimento. É herói por encarar os padrões da cultura de seu país. O herói não é aquele que não erra: herói é aquele que tenta fazer o impossível, maculado pelas doenças do mundo. Ele foge do fantasma de uma cultura que o agrilhoa.

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