‘Sinkhole’: Coreia nos holofotes de Locarno

‘Sinkhole’: Coreia nos holofotes de Locarno

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2021 | 16h03

O diretor Kim Ji-hoon no festival suíço: diretor sul-coreano redesenha os códigos do filme catástrofe numa mistura do trágico com o humor

Rodrigo Fonseca
Imparável na evolução narrativa de seu cinema desde a consagração de “Parasita”, com a Palma de Ouro de 2019, e com quatro estatuetas do Oscar, em 2020, a Coreia do Sul acaba de botar o 74º Festival de Locarno no bolso com “Sinkhole” (“Sing-keu-hol”), de Kim Ji-hoon, o primeiro cineasta internacional a se firmar aqui, este ano, como uma promessa: para a crítica e para as bilheterias. Orçado em US$ 12 milhões, seu divertidíssimo filme é uma mistura de chanchada com filme catástrofe. Em sua primeira meia hora, acompanhamos as confusões de um casal de classe média que se muda para um apartamento requintado, comprado a duras penas. Os dois se divertem (e alegram a gente também) com suas inabilidades diante de uma nova realidade econômica e com um faz-tudo bicão do prédio. Tudo parece uma boa comédia com Leandro Hassum até que uma chuva danifica as estruturas do prédio e tudo desmorona, terra abaixo, com o concreto se esburacando até se assemelhar a um ralo.
“Na Coreia do Sul, a cada dez minutos que você andar, vai encontrar uma sala de cinema nas ruas, o que gera um estímulo sem precedentes para a formação de novas plateias, levando o público a uma cinefilia que exige dos diretores requinte e invenção”, diz Ji-hoon ao Estadão, num papo cheio de bom humor. “O cinema catástrofe é um formato que tem tensão, tem espaço para efeitos especiais, mas que tem, sobretudo, um lugar de honra para discutir os valores da família, sempre atento à questão do luto, da perda, da separação. Meu grande desafio aqui era criar um equilíbrio entre essa toada catastrófica e a comédia, de olho nos conflitos de classes sociais”.

O poster de “Sinkhole”

É impressionante a sequência do desabamento, que é seguida por uma série de obstáculos para os personagens, com inundações, com risco de soterramento. “Nós, coreanos, estamos acostumados a trabalhar com efeitos visuais elaborados, pois há muitos filmes que utilizam essa abordagem. O ponto mais delicado era garantir que a investigação do que existe de mais patológico na condição humana não fosse esquemático”, diz Kim Ji-hoon, que vem atraindo os olhares dos distribuidores após as boas resenhas que o longa deflagrou.
Sábado é dia de Brasil em Locarno, com “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, que dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição.

“Paradis Sale”, de Betrand Mandico

Nesta sexta, dois filmes prometem sacudir as telas suíças: “Hinterland” e “Il Legionario”. O primeiro marca a volta às telas do diretor austríaco Stefan Ruzowitzky, ganhador de Oscar por “Os Falsários” (2007), numa história ambientada no fim da II Guerra, quando um soldado volta dos fronts incumbido de caçar um assassino que eliminou seus colegas de farda. É um fortíssimo nome na disputa oficial. Já o segundo é a principal aposta da seção paralela Cineasti del Presente, e parte do olhar do cineasta bielorrusso radicado na Itália Hleb Papou sobre uma brigada policial de Roma em que um cadete de origem africana precisa deter seus conterrâneos em uma ocupação. Para o sábado, a aposta é esperadíssimo “Paradis sale”, de Bertrand Mandico, diretor francês que virou queridinho da revista “Cahiers du Cinéma” com “Os Garotos Selvagens” (2017). Mandico participa ainda da seleção suíça com “Dead Flesh”, na mostra Pardi di domani: Concorso Corti d’Autore. O festival chega ao fim no dia 14 com a sessão de “Respect”, com Jennifer Hudson em seu mais inspirado trabalho desde “Dreamgirls” (2006), narrando os percalços de Aretha Franklin na música e na luta contra o racismo.

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