Silvio Tendler se deita na alcova de Zéfiro

Silvio Tendler se deita na alcova de Zéfiro

Rodrigo Fonseca

19 de janeiro de 2021 | 14h44

Obra erótica de HQs de Carlos Zéfiro é tema de .doc de Silvio Tendler a ser exibido nesta terça, online, no Cineclube Macunaíma

RODRIGO FONSECA
Cerca de um mês depois de ter agitado as bases da cinefilia nacional ao assinar a vertiginosa curadoria do Festival de Brasília 2020, preservando a vocação política do evento, o decano do documentário histórico no país, o realizador carioca Silvio Tendler, volta a agitar a flâmula da ousadia ao inaugurar a primeira edição do Cineclube Macunaíma deste ano, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) com o divertidíssimo “Em Busca de Carlos Zéfiro” (2019). É um ensaio sobre a cultura erótica dos quadrinhos que desvirginaram o imaginário sexual de gerações. Mosaico de fatos, arquivos, depoimentos em primeira pessoa, vinhetas e análises dignas do legado de Heródoto, o filme vai ter exibição virtual nesta terça-feira, dia 19/1, às 20h, no canal da ABI no YouTube, tendo um debate imperdível na sequência. Tendler, documentarista que mais vendeu ingressos no Brasil, com “Anos JK”, “O Mundo Mágico dos Trapalhões” e “Jango”, vai estar na mesa (virtual) ao lado do jornalista (genial comentarista esportivo) e conselheiro da ABI Juca Kfouri. Foi Juca quem descobriu a identidade de Zéfiro, em 1991, publicando uma reportagem sobre ele (no caso, o funcionário público Alcides Aguiar Caminha, nascido em 1921 e morto em 1992) na revista “PLAYBOY”. Curador do Macunaíma, o crítico de cinema Ricardo Cota vai mediar a conversa que inclui ainda a artista visual Simone Rodrigues; a psicanalista Gloria Seddon; e o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy.
O .doc “Em Busca de Carlos Zéfiro” estará à disposição do público a partir das 20hs desta terça-feira, até quinta-feira, dia 21, no mesmo horário. Basta se inscrever e curtir. A seguir, Tendler compartilha suas memórias acerca do erotômano dos “catecismos” com o P de Pop.

O que Carlos Zéfiro representou para a sua geração, em relação às formas de representar o desejo e resistir ao moralismo?
Silvio Tendler:
Imagina você viver em um mundo onde não existia educação sexual nas escolas. Não era um assunto para se falar na mesa de jantar com a família. Era um assunto tabu para meninos e meninas. Quando você saia da infância e entrava na puberdade, em que a sexualidade aflorava, as mães conversavam com as filhas e davam aulas de como elas deveriam se portar e como deveriam se proteger da sexualidade. As meninas eram preparadas para casar virgens. Quanto aos meninos… nesse passado machista, os pais tinham um pavor da homossexualidade, que na época não tinha nem esse nome refinado. Era, no menos ofensivo dos casos, chamado de pederastia. O pai não queria ter um filho “viado”, pederasta, então eles, geralmente, preparavam os adolescentes, a partir dos 13 anos, para frequentar prostíbulos. Esse era o mundo sexual da gente. Não tínhamos aula, não tínhamos preparo. A sexualidade, a gente discutia com os amigos na escola. E eram coisas hilárias. As discussões sexuais eram muito engraçadas, até mesmo, o falar sobre a forma de contrair doenças venéreas. O único contato que a gente tinha com a sexualidade, de uma forma mais prazerosa, eram os “catecismos”, esses livrinhos eróticos ou revistinhas de sacanagem. Essa palavra na época era proibida, não se falava sacanagem na mesa de jantar. Sacanagem era saliência, era imoralidade, não era algo para se falar em família. A gente aprendia sacanagem lendo as revistinhas que vendiam por baixo dos panos nas bancas de jornal. Você tinha que conquistar a confiança do jornaleiro, pra ele saber que você não iria dedurar ele. Só assim, ele poderia te vender, alugar ou emprestar a revistinha. Existiam várias modalidades de acesso para essas revistas. Nessa época, do primeiro ginásio, eu estudava no Andrews, no RJ. Eu tinha um amigo, o Zé Antônio, que tinha uma bela coleção. Aos poucos, nas férias em Teresópolis, comecei a colecionar revistas. Conto no meu filme que eu tinha a maior coleção de revistas de sacanagem da Rua Raimundo Correia. O meu colchão era de crina e parecia uma corcova, de tanta revista que guardava embaixo dele. Eu me relacionava com essas revistinhas de forma didática, mas prazerosa. Ali eu via como era o sexo, aprendia como era o sexo e claro, ninguém escapa disso, tocava diariamente minhas santas p…, que, dependendo da época, chegavam a quatro por dia. Nós nos relacionávamos assim, o moralismo todo debaixo dos panos.

De que maneira a sua narrativa documental de viés histórico se trança com a narrativa quadrinística de Zéfiro?
Silvio Tendler:
Meu filme é histórico e vou atrás de personagens que foram consumidores das revistinhas de sacanagem. O Zéfiro virou sinônimo de revistas de sacanagem porque os melhores desenhos do gênero eram dele. Eram muitos autores e pessoas que trabalhavam em gráfica e faziam uns trocados vendendo as revistinhas, mas o que ficou mais famoso foi o Carlos Zéfiro. Primeiro, eu levanto a existência de uma série de pessoas, homens e mulheres, que cultivaram o santo prazer a partir das revistas do Zéfiro. Tenho uma jornalista, a Tânia Fusco; tenho uma historiadora, Ana Maria Nogueira; um grande professor de antropologia, emérito; um professor da PUC, Roberto da Mata; um professor doutro da USP e de universidades americanas, José Carlos Sebe Bom Meihy; Tem o Juca Kfouri; tenho o biografo do Zéfiro, o Gonçalo Júnior. E eu mesmo me coloco como personagem no filme, fiz questão de participar. Com esse quadro, eu fiz esse filme. Uso os desenhos, que são os documentos históricos. Meus documentos de época são os desenhos e acho que não usei a fotografia da Christine Keeler, que fez a minha cabeça. Eu trabalhei isso com muito prazer, literalmente, no sentido estrito da palavra prazer. A história da família e da sexualidade é um ramo da historiografia. Você tem vários intelectuais que estudaram essa questão. Eu trabalhar o Zéfiro não é contraditório com o estudo da história. Estou estudando nosso passado a partir dele, assim como o fiz em “Jango” e “JK”, falando sobre os anos 1950 e 1960. Zéfiro é o outro lado da história. O lado B da vida que a gente levava naqueles anos.

E como esse estudo reflete as suas inquietações autorais?
Silvio Tendler:
Se você observar os meus trabalhos mais recentes, estou mais ligado na memória que na história. Estou trabalhando mais os filmes no relato e na primeira pessoa, e estou perdendo um pouco daquela isenção histórica e aquela neutralidade cientifica. São coisas que, aliás, eu nunca tive, mas agora está mais presente em mim essa questão da memória. Você pode observar que meus filmes “Sonhos Interrompidos” e “Em Busca de Carlos Zéfiro”, são longas históricos, mas em uma abordagem da minha participação na História.

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