Silvio Tendler desafia o Real em debate no RJ sobre a arte de documentar

Silvio Tendler desafia o Real em debate no RJ sobre a arte de documentar

Rodrigo Fonseca

03 Novembro 2016 | 17h14

Silvio Tendler: debate neste domingo sobre a estética do Real

Silvio Tendler: debate neste domingo no Rio sobre a estética do Real a serviço da História

RODRIGO FONSECA
Único documentarista brasileiro a ter ultrapassado a marca de um milhão de ingressos vendidos, Silvio Tendler colecionou sucessos em suas incursões no presidencialismo, construindo um histórico audiovisual de pesquisas estéticas que ele compartilhará com o público do Espaço Cultural Escola Sesc, no Rio, em Jacarepaguá, neste domingo, 19h, na Mostra de Cinema Territorialidades. O evento é gratuito e vai contar com um dos últimos longas-metragens do realizador carioca: Encontro com Milton Santos – O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), seguido de debate com o cineasta. Mito entre os artífices do Real no cinema nacional, Tendler virou uma referência no campo da História, construindo produções de cunho biográfico, das quais uma, em especial, chamada Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil (2003), merece uma revisão neste momento em que se discute a importância da estética cinemanovista no Brasil. A estreia nesta quinta do seminal Cinema Novo, de Eryk Rocha, levanta o desejo de se saber mais sobre a estética do realizador baiano que nos deu Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). O filme de Tendler sobre ele é um caminho rico para o entendimento da biografia do vulcão glauberiano.

Tendler lotou salas de exibição com Anos JK e Jango, passando em revista os contratempos da democracia nacional, desenvolvendo um tipo de documentário histórico, personalizado em alguma figura de verve heróica. Em seu esforço de retratar ícones revolucionários nacionais, Tendler resolveu prestar um tributo ao próprio cinema, elegendo como biografado o realizador Glauber de Andrade Rocha (1939-1981). A fim de expor tudo o que o cineasta baiano representou para a história da cultura a partir da década de 1960, Tendler convocou seus amigos e colegas de Cinema Novo para falar em Glauber, o filme. Sua primeira exibição pública ocorreu em 2003, quando foi exibido em concurso no Festival de Brasília, conquistando o prêmio da crítica, o troféu Candango de júri popular e a láurea do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.

Com a cadência de um trem-bala, a montagem de Sílvio Arnault e Renato Schvartz costura imagens de arquivos, cenas dos filmes do diretor e depoimentos, montando um mosaico crítico. Já na abertura, o diretor Arnaldo Jabor, amigo do cineasta, pondera de que forma o heroísmo quixotesco de Glauber misturava idealismo e ingenuidade. Num jogo dialético com a História, Tendler faz um manifesto poético a partir da cartilha do real.

Em 2011, ficou pronto o último longa – até agora – de Tendler: Tancredo. Saudades deste documentarista único.