‘Silêncio’ é um ato de comunhão com o cinema autoral

‘Silêncio’ é um ato de comunhão com o cinema autoral

Rodrigo Fonseca

08 Março 2017 | 15h29

DE VISUAL ARREBATADOR, SILÊNCIO É O DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL DE SCORSESE

ESTADO DE S. PAULO – BLOG P DE POP

Andrew Garfield é um jesuíta de passagem pelo Japão feudal na primeira produção com fôlego de obra-prima a chegar ao circuito brasileiro de 2017

“Silêncio”: Andrew Garfield é um jesuíta de passagem pelo Japão feudal na primeira produção com fôlego de obra-prima a chegar ao circuito brasileiro em 2017, sob a lavra de Scorsese

 

RODRIGO FONSECA
Cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo, é, há décadas, o motor imóvel da obra de Martin Charles Scorsese, desenhando sua obsessão pelo sacrifício como um gesto restaurador das relações entre os homens – mesmo relações com base em mecanismos sociológicos, tipo o crime ou as instituições religiosas. Por isso, não poderia se esperar outra coisa – que não fosse um herói em processo de imolação – de Silêncio, uma epifania em forma de filme que Scorsese nos dá de presente de sua imersão no romance homônimo do Graham Greene japonês: o escritor Shûzaku Endô. É, talvez, o primeiro candidato a obra-prima a passar pelo circuito brasileiro em 2017. E tem alguma coisa nele de O Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), a Bíblia da fé glauberiana, o marco da filmografia de Glauber Rocha, do qual o realizador de Os Infiltrados (2006) é fã. Há algo de Os Sertões de Euclides da Cunha no Japão para onde um jesuíta (Andrew Garfield, impecável) vai buscar seu mestre perdido entre uma horda de guerreiros que condena católicos a um mar de torturas (literalmente).

Pela lógica, um cordeiro será oferecido, no temor ou no tremor, ao Absoluto, de modo que a natureza (aquela com “n” minúsculo, a dos homens, da cultura) se harmonize no que pode ser chamado de um tratado de antropologia de 2h40m da mais esplendorosa fotografia que o mexicano Rodrigo Prieto já clicou, ao recriar um século XVII a partir de um orçamento de US$ 40 milhões. Fruto de um trabalho de imersão de 25 anos, tempo dedicado pelo cineasta à busca para viabilizar o projeto de filmar Endô, esta produção carrega algo de perpétuo (ou seja, de autoral) na obra de Scorsese: o interesse do diretor pelo perpétuo, pela permanência de certos valores, sobretudo a lealdade, palavra que corre sua obra tanto em ficções como Cassino (1994) quanto em documentários como Shine a Light (2008), sobre a liga dos Rolling Stones. Se existe algo que o vento não enverga, que o dinheiro não compra, que o sexo não ultrapassa é a condição de ser leal, seja a um amigo (A Cor do Dinheiro), a uma causa (Gangues de Nova York), a um amor (A Era da Inocência) ou, neste caso, a Deus. Ser leal envolve sacrifício. E o padre Rodrigues (Garfield) vai, a duras penas, aprender uma lição que Scorsese já nos dera em A Última Tentação de Cristo (1988), ao se debruçar sobre o mito de Judas Iscariotes: nos desígnios de Deus, o traidor algumas vezes é a peça central da fundação da Fé como um bem maior… e coletivo.

Não por acaso, no roteiro de Jay Cocks, a relativização será a linguagem imperial: cada certeza que Rodrigues carrega (e nós também) desloca-se para um outro ponto de vista, não um em que ele deva abandonar suas convicções, mas sim um em que ele tenha de aprender a exercitar seus credos de novas formas – mais e melhores formas, melhores para o Outro… e para Deus. Percebe-se à certa altura que não se trata de um filme sobre o exercício da fé, e sim um filme sobre arrogância. A arrogância institucionalizada. Aprende-se isso não dos padres heróicos – a princípio – mas das bestas feras que os acossam de katanas na mão. Os guerreiros japoneses, vistos numa primeira conexão como animais selvagens, vão nos ensinar, de uma maneira por vezes debochada – como nos prova o genial senhor da guerra vivido por Issei Ogata– que o ódio nipônico pela fé Cristã não é uma rejeição religiosa nem um ato demoníaco. O repúdio deles é uma forma de prevenção a uma cultura colonizadora.

Cotação: Excepcional