‘Silêncio da Chuva’ sob a garoa do heroísmo

‘Silêncio da Chuva’ sob a garoa do heroísmo

Rodrigo Fonseca

12 de dezembro de 2020 | 11h32

Lázaro Ramos desenha Espinosa como um Richard Widmark contemporâneo no filme de Daniel Filho que encerrou o Cine Ceará 2020

Rodrigo Fonseca
Como é redutor o emprego do conceito de “filme de gênero” no Brasil: por aqui, a expressão é quase sempre circunscrita aos exercícios do país na seara do horror, sem considerar os filões dos mais variados, pelos quais habitualmente caminhamos, da neochanchada (“Até Que a Sorte Nos Separe”) ao nordestern (“Bacurau”). Numa recente entrevista ao P de Pop, Carlos Alberto Mattos, crítico e curador do seminário Na Real_Virtual, explicou que “os gêneros são normalmente associados a um determinado grupo de ingredientes usados na composição dos filmes e ao tipo de emoção causado nos espectadores (hilaridade, adrenalina, medo, compaixão, etc)… e tudo isso pode estar presente tanto na ficção quanto no documentário”. Parte da confusão classificatória em torno desse conceito se remonta ao ranço de “cinema de entretenimento”, ou seja, a ideia preconceituosa e obtusa que certos filmes “não são arte” e, sim, mera guloseima, ou mero analgésico, empregado apenas para “divertir”. O tal Fla x Flu entre o dito “filme de arte” x “filme que entretém” – coisa de quem nunca parou para pensar que Akira Kurosawa, por exemplo, era um campeão de bilheteria e era um desbravador de narrativas – vem – e muito – de uma sequela sociológica impositiva de que toda manifestação artística nacional seja um panfleto. E essa sequela é de alta contaminação. Mas há quem saiba resistir a ela e levar à telona espetáculos de inquietação, mas capazes de dialogar frontalmente com plateias GG, a partir de ferramentas (a princípio) formulaicas que, ao serem reiteradas, ganham novas matizes. Brilham, em especial, aquelas matizes relativas às tais veredas de gênero do início desse papo, que incluem, em sua diversidade, os códigos da ficção policial. É o caso de “Silêncio da Chuva”, um thriller com “T” maiúsculo, daqueles que comportam viradas na margem extrema da surpresa, roubando o fôlego onde se espera uma condução serena. É um filme feito por um realizador escolado, na TV e no cinemão, em muitas frentes dramáticas, da crônica geracional (“O Casal”) ao painel histórico (“Tempos de Paz”), resvalando na paródia do western macaxeira (“O Cangaceiro Trapalhão”): o múltiplo Daniel Filho. Esse novo trabalho, estruturado em um diálogo com a prosa de Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020), demarca um movimento de fina renovação na obra desse campeão de bilheteria, no qual ele vem explorando as mitologias da violência urbana, como visto em seu exuberante “Boca de Ouro”, recém-lançado.

Em ambos, vemos um mergulho em geografias cariocas alheias ao cartão-postal ensolarado da cidade, mediados pela fotografia de Felipe Reinheimer, menos interessada no calor, abrindo-se a sombras. Em “Silêncio da Chuva”, adaptado do romance homônimo de Garcia-Roza laureado com o prêmio Jabuti em 1997, tem até um indício de chiaroscuro, num jogo bruxuleado de luz. Um jogo a partir do qual o filme se ancora na tradição do noir dos anos 1940 e 50, em especial “Capitou Sorrindo” (“The Glass Key”, 1942), de Stuart Heisler; “Laura” (1944), de Otto Preminger; e “A Morte Num Beijo” (“Kiss Me Deadly”), de Robert Aldrich, sendo este a referência mais próxima de Daniel, em seus enquadramentos sem exibicionismos. Esses quatro policiais históricos são narrativas sobre o desejo, assunto central de “Boca de Ouro” e da revisão audiovisual da literatura de Garcia-Roza, relida numa triagem de perversões pelo roteirista Lusa Silvestre (de “Estômago”). O roteiro é assinado por ele, com a colaboração de Renata Correa, Ana Maria Moretzsohn e Pedro Barbalho, lapidando algo do qual aquela deformação sociológica falada lá no início deste papo sempre desdenha: o heroísmo. Pilar da engenharia de muitos gêneros, especiais aqueles ligados à ação e à investigação (desde “Édipo Rei”, a peça), a figura do herói encontra corpo e (sobretudo) alma no Espinosa de Lázaro Ramos, o achado deste trabalho de Daniel Filho. Ou, melhor, um dos achados, pois o que Thalita Carauta faz, no papel da tira Daia, é pra guardar no lado esquerdo do peito cinéfilo.

Mas o nome Espinosa é quase um sinônimo de Garcia-Roza. E a partir desse nome, xará do filósofo por trás do conceito de “Substância”, Daniel/Lusa exercita(m) sutileza, fazendo uma denúncia do racismo institucionalizado no país, com o desdém feito contra o delegado vivido por Lázaro. Uma hora perguntam “que nome é esse?”, ao olharem sua pele com preconceito; e, noutro momento, dizem “você até que sabe bem o português”. Ali é o Daniel Filho de “Malu Mulher” (1979) e de “A Justiceira” (1997) sendo Daniel Filho: toda trama abre precedentes para um olhar para as relações, afetivas e sociais. Logo, um primeiro carimbo autoral bate em seu storytelling. O segundo carimbo vem da presença de seus dois atores fetiches: Guilherme Fontes e Anselmo Vasconcellos. O primeiro (em breve participação) interpreta um executivo morto, possivelmente assassinado, cujo corpo deflagra a entrada de Espinosa e Daia em cena. O segundo (cada vez mais preciso em seu gestual) é um figurão corrupto ligado ao defunto. A terceira (e mais potente) carimbada de sua autoralidade é a parceria com Diana Vasconcellos, uma ourives da montagem, que dá conta dos diferentes eixos narrativas do roteiro de Lusa & cia., a criar um timming de tensão que ferve sobretudo após os 40 primeiros minutos.

Aplaudido no Festival de Moscou, na Rússia, onde Lázaro concorreu com seu primeiro longa como realizador (o esperado “Medida Provisória”), “Silêncio da Chuva” encerrou o Cine Ceará na sexta, coroando a vitória de “A Meia Voz”, das cubanas Patricia Pérez e Heidi Hassan, na disputa pelo prêmio de melhor filme. Sua projeção deu um tom de valorização aos enredos de mistério no fim do evento cearense. Manter misteriosa a investigação da morte de Ricardo (Fontes) e da fortuna em seguro por ele deixada é um dos maiores acertos da escrita de Lusa, galvanizada pela condução de eventos arquitetada pela edição de Diana, enquanto Daniel Filho dá mais um traço de sua assinatura estética. Apesar de a presença de Espinosa (sobretudo um Espinosa confiado a um ator com o carisma de Lázaro) servir como um ímã de interesse, o diretor desafia o magnetismo inato do Maigret de Garcia-Roza e de seu intérprete. Ele torce o foco para as inquietações das mulheres que povoam a trama. Claudia Abreu cumpre (muito bem) o arquétipo da femme fatale do noir no papel da viúva de Ricardo. Thalita – uma atriz capaz de casar improviso e imprevisto com som e fúria – faz de Daia uma Katy Mahoney, sendo uma valquíria similar à personagem da série “A Dama de Ouro” (“Lady Blue”), aqui exibida nos anos 1980. Mas o desempenho que mais transborda é o de Mayana Neiva como Rose. Em filmes como “Para Minha Amada Morta” (2015) e séries como “Rotas do Ódio” (2018), a atriz paraibana já havia mostrado uma alquimia natural plena com a ambientação dos motes policialescos. E, antes disso, no obrigatório “O Tempo Que Leva” (2013), ela confirmou sua dimensão estelar. Mas sua Rose é imbuída de uma dimensão existencial de inquietude típica das heroínas de Dostoiévski que pontuavam a formação de Garcia-Roza. Nela, a Glória e a Danação vivem no mesmo sorriso e no mesmo olhar de medo. Olhar esse que Mayana embota de humanidade, crescendo em especial quando esbarra com um titã da atuação como Otávio Müller, em cena num papel intragável, que ele recheia de vida e de viços.

É ampla a fauna de almas danadas no Purgatório de carne e osso que Daniel Filho cria num Rio de Janeiro entre o Hotel Novo Mundo e uma Copacabana sem nome, dando a Lázaro a chance de fazer de Espinosa um herói típico dos personagens de Richard Widmark, rosto essencial de um cinema policial sem glamour, vide “Os Impiedosos” (“Madigan”, 1968). Espinosa começa morno, abalado pela possível perda de um amor, despedido dele numa roda de samba. Num componente de livre inspiração na obra de Garcia-Roza, o delegado – que, nos livros, é uma enciclopédia viva de escritores e de filósofos – vira um amante do lirismo dos grandes sambistas, chegando a atribuir a aspereza da aristocracia à falta de contato com Cartola e outros bardos da canção. O ocaso inicial do personagem, quase ofuscado pelo fogaréu que Daia/Thalita é, aos poucos vai sendo diluído, conforme ele entende que a morte de Ricardo não deve ser mero suicídio. Daia brinca, a dizer “O gigante acordou”, quando ele reage. E esse gigante é mesmo colossal, assim como Lazinho (apelido bilu teteia do astro), que cria um heroísmo ferido capaz de alcançar gradual regeneração, numa composição elegante, à altura de sua maturidade como ator. Maturidade, aliás, é uma palavra que deve ser aplicada ao corpo a corpo de seu diretor com um universo de mortes, de querências fedidas a sangue, de cobiça. Como é bom ver Daniel Filho nesse registro policial/criminal empregando sua sabedoria no estudo dos pecados que não passam pela fé, mas na imolação de nosso querer.

Em seu Facebook o P de Pop escreveu:
Aplaudido no Festival de Moscou, em projeção no Cine Ceará, “Silêncio da Chuva” assinala mais um passo firme de Daniel Filho pela seara do crime, depois de seu sinestésico “Boca de Ouro”. Lázaro Ramos brinca de Robert Stack no papel do delegado Espinosa. Lusa Silvestre dialoga com a prosa cálida de Luiz Alfredo Garcia-Roza extraindo dela uma reflexão sobre o desejo com ecos do cinemão noir dos anos 1940/50. A economia gestual de Lazinho ceva bem a figura apolínea de Espinosa, tal qual pensada na literatura de Garcia-Roza. E essa figura ganha mais garbo e gáudio em dupla com a Katy Mahoney Daia, papel que dá a Thalita Carauta uma ribalta iluminada pela excelência. Num especial interesse sociológico pelas figuras femininas, Daniel Filho arranca de Mayana Neiva sua melhor atuação desde “O Tempo Que Leva” (2013), no papel de Rose, secretária envolvida em um crime ligado a uma fortuna em seguro de vida.
Que bom é ver um thriller nacional que SABE ser thriller. É raro.

p.s.: Falando de Lázaro Ramos, o “Supercine” desta madrugada é dele: à 0h20 tem “Tudo o Que Aprendemos Juntos” (filme de encerramento do Festival de Locarno de 2015) na Globo. Laureada pelo júri popular da Mostra de São Paulo, há cinco anos, essa tocante produção, pilotada pelo baiano Sérgio Machado (de “Cidade Baixa”), fez um inusitado sucesso de bilheteria na Europa, lotando salas exibidoras. Na trama, Lazinho é o violinista Laerte, perfeccionista ao extremo, sobretudo em seu casamento com a música. Errar é um verbo ausente de seu vocabulário, tal qual o substantivo perdão, sobretudo quando aplicado a si mesmo. É de sua índole converter derrotas em comida para seu orgulho, escudando-se nele, avesso ao carinho dos colegas de instrumento. É no ápice do orgulho que Laerte chega a um projeto escolar em Heliópolis, na periferia de São Paulo, necessitado de um emprego: no caso, o de professor, para ensinar rudimentos musicais a um grupo de adolescentes em vias de se apresentar para uma Ong. Lá, vai tomar uma aula de brasilidade.

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