‘Sieranevada’, flor cheia de viço na Primavera Romena

‘Sieranevada’, flor cheia de viço na Primavera Romena

Rodrigo Fonseca

16 Dezembro 2016 | 15h46

“Sieranevada”, contundente discussão sobre família à luz de traumas políticos

RODRIGO FONSECA

Ao anunciar os concorrentes ao Urso de Ouro de sua 67ª edição (9 a 19 de fevereiro), o Festival de Berlim incluiu Ana, Mon Amour, novo longa-metragem de C?lin Peter Netzer, do aclamado Instinto Materno (2013), que é encarado como um das mais talentosas flores da Primavera Romena. Este termo se refere a um dos mais sólidos movimentos do século passado nas telas, iniciado há 11 anos quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, ganhador da Palma de Ouro em 2007, California Dreamin’, de Cristian Nemescu, e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu. Há mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade: Sieranevada, que chega neste fim de semana às telas nacionais. A direção é de Puiu, o precursor dessa onda de autocrítica.

Fiel à linhagem que inaugurou, Puiu faz de Sieranevada uma espécie de sumula viva (e fervente) dos mandamentos usados por seus conterrâneos adotando a Família, encarada como instância institucional, como alvo. Com quase três de ininterrupta falação, suportável e prazerosa graças às sacadas de comédia nigérrima em sues diálogos, o filme elenca estratégias de sobrevivência familiar que sempre se frustram na busca por alguma harmonia. Partindo de menções ao atentado terrorista contra o jornal Charlie Hebdo, diluídas em meio a uma bateção de boca entre parentes sobre amor, traição, sexo e mídia, a produção pavimenta uma estrada de polêmicas, sem jamais perder o foco da tragédia que mais lhe interessa: a atomização afetiva. Na trama, a menção politica ao terror se estende também por uma discussão sobre a explosão das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, nos EUA, e aborda ainda diferentes massacres cometidos durante o jugo comunista na Europa.

Existe um incidente incitante para as memórias dos holocaustos dos últimos 70 anos: Lary (Mimi Branescu) vai se reunir com seus irmãos, primos e tia para celebrar a honra do pai morto. Entre pratadas de polenta com frango frito, segredos de seu pai e de um tio trapalhão são revelados ao mesmo tempo em que uma jovem visita entra em agonia por excesso de álcool e outras coisinhas. É simples: parente é serpente. Ponto. Resta saber se esquivar da mordida ou ter antídoto para o veneno.

Há instantes lentos – beeeem lentos – nos quais a atenção ao que se diz, e à maneira como se diz, é essencial. Mas a lentidão exige do espectador uma adesão plena ao que se testemunha: mínimos detalhes podem alterar nossa percepção sobre o que se passa naquela conversação. Com sua câmera estática, calma, apaixonada pelo plano-sequência, Puiu reproduz com veracidade situações mundanas do dia a dia da vida familiar, despertando identificação pelo corriqueiro, pelo doméstico. Trocas de acusações e verdades dolorosas se alternam com piadas e comentários sobre a falta de perspectiva econômica de um país que parece parado no tempo em questões financeiras – mas nunca em questões cinematográficas.