Shyamalan fala de si e de ‘Tempo’ em Tribeca

Shyamalan fala de si e de ‘Tempo’ em Tribeca

Rodrigo Fonseca

01 de junho de 2021 | 14h57

Manoj Nelliyattu Shyamalan apela para seu sexto sentido cinéfilo no Festival de Tribeca

RODRIGO FONSECA
Tribeca vai abrir as portas de seu festival anual no dia 9, com a première mundial de “Em um Bairro de Nova York” (“In the Heights”), musical de Jon M. Chu, comemorando 20 anos de resistência do povo nova-iorquino em relação aos traumas do 11 de Setembro. Envolvido nas filmagens de “Killers of the Flower Moon”, o novo longa-metragem do amigo Martin Scorsese, Robert De Niro, hoje em cartaz no Brasil com “Em Guerra Com o Vovô”, foi um dos criadores do evento, em parceria com a produtora Jane Rosenthal e o investidor Craig Hatkoff. Sua criação foi uma resposta aos atentados terroristas de 2001. A edição deste ano, agendada até 20 de junho, com uma seleção de 66 filmes de 23 países, pilotados por 83 cineastas (uma vez que muitos títulos foram rodados em dupla ou trio). Seu principal chamariz é o thriller “No Sudden Move”, com a grife do diretor Steven Soderbergh (Palma de Ouro 1989 por “sexo, mentiras e videotape”), somando o talento de Benicio Del Toro com o de Don Cheadle, no elenco. Na trama, um grupo de criminosos precisa unir forças para encobrir uma falcatrua. De sua gênese até hoje, Tribeca sempre teve um ímã de plateia além das exibições: sua série de palestras com grandes realizadores, estrelas e produtores. As famosas Tribeca Talks vão dar voz, este ano, ao diretor Doug Liman (hoje em cartaz com “Mundo em Caos”); a atriz Shira Haas (de “Nada Ortodoxa”); e o músico, produtor e ator John Legend (“La La Land: Cantando Estações”). Mas a conversação mais esperada envolve um polêmico campeão de bilheteria que virou sinônimo de suspense, fantasia e misticismo à indiana: M. Night Shyamalan.

De sexta-feira pra cá, milhões de internautas transformaram o trailer de “Old”, aqui traduzido como “Tempo”, a maior diversão, confirmando o quanto o cineasta indiano, nascido Manoj Nelliyattu Shyamalan ainda é capaz de mexer com a curiosidade e o medo das plateias. Com estreia internacional marcada para 22 de julho, o novo longa-metragem do realizador de “A Vila” (2004) foi rodado na República Dominicana, com base em graphic novel franco-suíça da dupla Pierre-Oscar Levy e Frederik Peeters, chamada “Château de Sable”, traduzida em português como “Castelo de areia”, pela Tordesilhas. Estima-se que o Festival de Cannes vá incluir o filme no cardápio de sua 74ª edição (agendada de 6 a 17 de julho), a ser anunciado nesta quinta-feira, na França, numa coletiva de imprensa. Mas nada é certo. O que se sabe é: na trama protagonizada por Gael García Bernal e Vicky Krieps, um grupo de turistas encara uma assustadora mutação em uma praia paradisíaca que altera a aparência de quem está ali, tornando as pessoas beeeem mais velhas, acelerando a decrepitude de corpos. O êxito das primeiras imagens desse longa garantiu mais badalação à palestra de Shyamalan em Tribeca.
“Após um ano de cinemas fechados, encontros cancelados e tudo virtual, é com alegria e esperança que finalmente convidamos os nova-iorquinos para sair de suas casas e voltar ao cinema” disse Cara Cusumano, Diretora do Festival e Vice-Presidente de Programação do Festival Tribeca, no site de sua maratona cinéfila. “Imerso na própria cidade, o Tribeca 2021 trará experiências únicas na vida dos cineastas e do público em geral à medida que nos reconectamos, reimaginamos e reabrimos a partir da experiência compartilhada do cinema”.

Há uma frase seminal em “O Sexto Sentindo” (fenômeno popular em 1999, quando arrecadou US$ 672 milhões), mais sútil e lúdica do que o desabafo que o celebrizou (“I see dead people!”), na qual se aprende: “Na vida, algumas magias podem ser real”. Nos últimos 20 anos, período no qual estabeleceu-se como um dos realizadores mais ousados de Hollywood, mesmo quando a Meca do cinemão o esnobou, Shyamalan – nascido em Mahé, Pondicherry, na Índia, em 1970 – nunca abriu mão da crença no mágico, no fantástico, no ilusório. Até “Sinais” (2002), a fantasia tinha lugar encantador em sua filmografia. Depois de “A vila”, sua obra-prima, ilusão passou a simbolizar opressão em seu autoralíssimo cinema, de uma carpintaria que sempre se apegou a sutileza. Não por acaso, seu olhar passou a gravitar para o suspense, para o terror ou para o thriller psicológico, como se vê no seminal “Vidro” (“Glass”): uma vez que o sobrenatural passa a ser um sintoma de dominação, sua representação dá à fabulação tons sombrios. Inicialmente comparado a Alfred Hitchcock, por sua habilidade de assustar pela insinuação, Shyamalan hoje se assemelha mais de outro diretor, não por acaso, um discípulo do realizador de “Psicose”: Brian De Palma.
“Vidro” foi seu mais recente sucesso. Há, nele, um quê do velho De Palma, de “Irmãs diabólicas” (1972) e “Carrie, a estranha” (1976), no terceiro tomo da trilogia iniciada em “Corpo fechado” (2000) e continuada pelo fenômeno de bilheteria “Fragmentado” (2017). Os dois protagonistas do primeiro, o segurança David Dunn (um Bruce Willis grisalho e apagado) e o gênio do crime Elijah Price, o Sr. Vidro (Samuel L, Jackson, luminoso), se unem ao personagem principal do outro longa, a Besta, psicopata com um transtorno de personalidade traduzido em dezenas de heterônimos encarnados com maestria por James McAvoy. Aparentemente, a junção deles seria apenas um encontro de três párias, que acreditam ser super-humanos. Mas, numa narrativa sinuosa, salpicada de viradas, com a fotografia de luz bruxuleante de Mike Gioulakis (de “Corrente do Mal”), a figura coringa da Dra. Ellie, diabólica personagem criada por Sarah Paulson, percebemos estar diante de uma alegoria política. Expert no estudo das narrativas fabulares, e no valor que a vilania tem para elas, Shyamalan nos dá um ensaio sobre controle, refletindo sobre o papel da imagem na manipulação de vontades. É um filme lento, soturno, mas arrebatador.

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