Shyamalan a céu aberto no Shell Open Air

Shyamalan a céu aberto no Shell Open Air

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2017 | 08h14

Numa interpretação acachapante, o X-Man James McAvoy mostra uma das 23 personalidades (a criança) do psicopata que encarna em “Fragmentado”, produção de US$ 9 milhões, cuja bilheteria mundial beira US$ 277 milhões

RODRIGO FONSECA
Sábado tem M. Night Shyamalan na maior tela a céu aberto da América Latina: às 20h, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, rola Fragmentado (Split) no Shell Open Air. E é sessão dupla: na sequência, rola cópia 0km de O Iluminado (The Shining, 1980).

 Reinvenção é uma arte na qual Shyamalan é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado A Dama na Água (2006), ele amargou uma década de rejeições até se recriar a partir da televisão, com um seriado com aura cult Wayward Pines, redescobrindo o prazer de filmar com baixíssimo orçamento e total liberdade, o que foi sua realidade em A Visita (2015), um exercício autoralíssimo da carpintaria do assombro, com o qual ele redescobriu as manhas do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, em 1999, com O Sexto Sentido. De volta às veredas do medo na plenitude de sua potência estética, ele se reencontrou e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheterias, como comprova o sucesso popular de seu novo e soberbo trabalho: Fragmentado. Este sombrio thriller chegou ao Brasil carregado de elogios, a maioria voltados para a condução febril do enredo sobre um sujeito com 23 personalidades que sequestra três moças.

A medida de seu sucesso se dá em números: custou US$ 9 milhões e arrecadou US$ 277 milhões. Ecos de Psicose (1960) trovejam narrativa adentro, fazendo justiça à comparação entre Shyamalan e a práxis cinemática de Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência.

Viradas de roteiro – o trunfo de seus primeiros filmes – ficaram para trás. É na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução. O desempenho acachapante de James McAvoy, o jovem Professor Xavier de X-Men, é um ás e um chamariz. Mas a estrela do filme é a direção, em sua ouriversaria no emprego dos códigos do suspense, demarcando uma espécie de terceiro hemisfério na trajetória do cineasta, dando um indício do que poderá ser uma saga, a saga da Filadélfia, seu microcosmos.

Nada é mais cotidiano do que a circunstância na qual um trio de jovens é capturada pelo personagem de McAvoy em Fragmentado. Após fazerem compras em um supermercado, acompanhadas por um maior responsável, elas entram no carro dele e percebem que ele se demora no porta-malas. De repente, alguém se senta no banco do motorista. Mas não é o dono do carro. É um psicopata que as faz dormir usando um spray. Este homem tem várias outras pessoas morando em sua cabeça. Ele ora é um sujeito assustador, ora uma mulher que se acredita sedutora, por vezes uma criança com auréola de anjo mau e, às vezes, a própria Besta.

Ao longo de 117 feéricos minutos, vamos acompanhar a luta das moças para sair do cativeiro para onde o psi McAvoy as levou. É lá que ele, sob uma de suas personas provisórias, faz uma dança catártica (ou quase), que testa toda a escolha de cores (saturadas) da fotografia de Mike Gioulakis, que imprime aqui o mesmo tom enevoado de seu trabalho no seminal Corrente do Mal (2014). Aqui o foco é o vilão, não as vítimas. Um vilão representado no limite da vertigem.