Shyamalan, 20 anos de sucesso

Shyamalan, 20 anos de sucesso

Rodrigo Fonseca

01 de junho de 2019 | 09h45

Rodrigo Fonseca
A fim de inaugurar uma nova sessão de cinema, para ocupar as madrugadas de seus domingos, a sessão “Cinemaço“, a TV Globo aposta, neste começo de semana, neste 2 de junho (amanhã), uma comemoração dos 20 anos de sucesso de M. Night Shyamalan, com uma projeção de “O sexto sentido” (1999). Trata-se de um thriller sobrenatural de US$ 40 milhões que arrecadou US$ 672 milhões na venda de ingressos ao narrar a luta de um garoto vidente para lidar com seus dons para conversar com os mortos. Bruce Willis tem uma atuação primorosa como o psicólogo infantil que ajuda o menino. Newton DaMatta dublou Willis na versão brasileira do filme, cuja exibição vem na esteira do fenômeno de bilheteria de “Vidro”, lançado aqui no início de 2019. “Glass” teve um custo de US$ 20 milhões e faturou US$ 246,9 milhões, mobilizando exibidores.

Há uma frase seminal em “O sexto sentido”, mais sútil e lúdica do que o desabafo que o celebrizou (“I see dead people!”), na qual se aprende: “Na vida, algumas magias podem ser reais”. Nas últimas duas décadas, período no qual se estabeleceu como um dos realizadores mais ousados de Hollywood, mesmo quando a Meca do cinemão o esnobou, Manoj Nelliyattu Shyamalan – nascido em Mahé, Pondicherry, na Índia, em 1970 – nunca abriu mão da crença no mágico, no fantástico, no ilusório. Até “Sinais” (2002), a fantasia tinha lugar encantador em sua filmografia. Depois de “A vila” (2004), sua obra-prima, ilusão passou a simbolizar opressão em seu autoralíssimo cinema, de uma carpintaria que sempre se apegou à sutileza.

Não por acaso, seu olhar passou a gravitar para o suspense, para o terror ou para o thriller psicológico, como se vê em “Vidro” (“Glass”): uma vez que o sobrenatural passa a ser um sintoma de dominação, sua representação dá à fabulação tons sombrios. Inicialmente comparado a Alfred Hitchcock, por sua habilidade de assustar pela insinuação, Shyamalan hoje se assemelha mais a outro diretor, não por acaso, um discípulo do realizador de “Psicose”: Brian De Palma. Há um quê do velho De Palma, aquele bonzão lá de “Irmãs diabólicas” (1972) e “Carrie, a estranha” (1976), no terceiro tomo da trilogia iniciada em “Corpo fechado” (2000) e continuada pelo estouro comercial do suspense “Fragmentado” (2017).


Os dois protagonistas do primeiro, o segurança David Dunn (um Bruce Willis grisalho e apagado) e o gênio do crime Elijah Price, o Sr. Vidro (Samuel L, Jackson, luminoso), se unem ao personagem principal do outro longa, a Besta, psicopata com um transtorno de personalidade traduzido em dezenas de heterônimos encarnados com maestria por James McAvoy. Aparentemente, a junção deles seria apenas um encontro de três párias, que acreditam ser super-humanos. Mas, numa narrativa sinuosa, salpicada de viradas, com a fotografia de luz bruxuleante de Mike Gioulakis (de “Corrente do Mal”), a figura coringa da Dra. Ellie, diabólica personagem criada por Sarah Paulson, percebemos estar diante de uma alegoria política. Expert no estudo das narrativas fabulares e no valor que a vilania tem para elas, Shyamalan nos dá um ensaio sobre controle, refletindo a respeito do papel da imagem na manipulação de vontades. É um filme lento, soturno, mas arrebatador.

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