Shaft recarrega a munição da Netflix

Shaft recarrega a munição da Netflix

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2019 | 08h29

Rodrigo Fonseca
Avesso a todas as normas da correção política, apoiado numa receita de inclusão racial calcada no excesso e na ironia, “Shaft”, de Tim Story, calcado na literatura de Ernest Tydman, fracassou fragorosamente nas bilheterias dos EUA, mas encontrou na grade da Netflix um porto seguro e um farol para jogar luz sobre sua abusada riqueza estética. Dublado no Brasil por Márcio Simões, o bamba Samuel L. Jackson está de volta ao papel do detetive mais autoconfiante do Harlem: John Shaft. Em 2000, o ator assumiu a jaqueta estilosa do herói mais famoso da blaxploitation, movimento dos anos 1970 que refazia filões de gênero com protagonistas negros, como Foxy Brown e Blackula. O Shaft original era Richard Roundtree, que regressa nesta releitura feita por Story com foco numa discussão sobre paternidade e sobre o estado islâmico. Jessie Usher tem uma divertida atuação como o analista do FBI John ‘JJ’ Shaft III, ou Jr., filho do investigador vivido por Samuel. Jr. quer entender o que levou seu melhor amigo à morte, numa suposta overdose. O pai vai ser seu aliado nessa busca pela verdade, em cenas de ação repletas de adrenalina. Mas embora tenha dirigido bons longas de aventura, como a franquia “Quarteto Fantástico”, em 2005 e 2007, Story vem da comédia (vide o sucesso “Barbershop”), o que dá ao tônus humorístico do novo “Shaft” um frescor singular. O vigor cômico da narrativavé maior com a presença de Regina Hall em cena, vivendo a ex do Shaft sessentão e mãe de Jr. Ela é um vetor de risos nesta joia do streaming do canal que nos deu, há pouco, o delicioso “Mistério no Mediterrâneo”, com Jennifer Aniston e Adam Sandler. O que mais instiga neste “Shaft” de 2019, fora sua provocação moral, é a maneira como seu roteiro recicla os protocolos da ficção policial, numa viagem a um mundo suburbano, onde a exclusão de credo, raça e carteira vazia é soberana.

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