Sete momentos antológicos da Berlinale 2020

Sete momentos antológicos da Berlinale 2020

Rodrigo Fonseca

01 de março de 2020 | 07h30

‘Charlatan’, de Agnieska Holland

Rodrigo Fonseca
Renovada por uma programação exemplar, que fugiu de obviedades, sem escorregar na água suja do proselitismo, a Berlinale 70 terminou no sábado com a vitória de “There Is No Evil”, do iraniano Mohammad Rasoulof, deixando saudades em múltiplas latitudes, a destacar as sete situações a seguir:
– A volta por cima da polonesa Agnieszka Holland, que após uma estrada de quase uma década de filmes sem viço, arrancou o festival alemão de sua zona de conforto com o drama “Charlatan”, sobre um curandeiro tcheco patrulhado pelo nazismo, pelo stalinismo e pelo preconceito da homofobia;
– A homenagem à atriz inglesa Helen Mirren, em cujo discurso ela fez uma defesa dos filmes de gênero, levantando a bola do parceiro de “Velozes e Furiosos”, Vin Diesel, a quem define como um astro rei;
– Uma surpresa do cinema grego: “Digger”, de Georgis Grigorakis. Gestada silenciosamente na Grécia, este drama de seiva política tornou-se uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialéticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabaninha. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filgo regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois há de se agravar com a presença de uma construtora que quer se apossar do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em um estudo sobre a erosão dos afetos;
– O discurso lindo e inflamado de resiliência da produtora Sara Silveira ao falar sobre o Brasil e os conflitos atuais da classe cinematográfica na coletiva de “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que arrancou de Clarissa Kiste uma interpretação avassaladora em meio a uma plural onda de atuações femininas. Em cena, Mawusi Tulani, Carolina Bianchi, Alaíde Costa, Thaia Perez, Andrea Marquee, Gilda Nomacce e Leonor Silveira dão voz a um exercício de sororidade no Brasil do fim da escravidão;
– A vitória do Brasil com “Meu Nome É Bagdá”, de Caru Alves de Souza, que, fora a relevância nas discussões sobre identidade de gênero, brilhou por suas vitudes técnicas, evocando a estética de Stacy Peralta na consolidação de uma crônica juvenil do mundo do skate e dos amadurecimentos;
– O banho de inteligência que Salma Hayek deu na coletiva de “The Roads Not Taken” ao falar sobre a dimensão poética da língua espanhola em uma produção com aromas de Hollywood sob a direção de Sally Potter;
– O encerramento delicadamente doído que “Police”, de Anne Fontaine, simbolizou ao entrar pelo universo da PM de Paris a partir de conflitos afetivos de três agentes da Lei na condução de um imigrante ilegal para fora de um país hoje assombrado pelo fantasma da xenofobia. O carisma de Omar Sy calça o diálogo popular do longa com as plateias, catapultando sua colega de cena, Virginie Efira, para uma apoteose.

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