Sete filmes imperdíveis do Festival do Rio

Sete filmes imperdíveis do Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

07 de dezembro de 2021 | 11h36

Estrelado por Valeria Bruni-Tedeschi e Marina Foïs, “A Fratura” conquistou a Queer Palm em Cannes, mapeando a tensão da França dos Coletes Amarelos

RODRIGO FONSECA
Assim que “Madres Paralelas”, o mais recente melodrama de Pedro Almodóvar for exibido no Cinépolis Lagoon, nesta quinta-feira, será dada a largada para uma maratona de 90 longas e 20 curtas chamada Festival do Rio 2021. É o regresso de uma das mais importantes celebrações da diversidade cinéfila do país, interrompida há um ano, parte por problemas financeiras da antiga gestão do Rio de Janeiro e parte pela pandemia. Em setembro, seus organizadores fizeram uma celebração simbólica do que melhor seria exibido em 2020. Agora, é a vez do que há de mais recente na produção audiovisual nacional e estrangeira, incluindo a obrigatória distopia “Medida Provisória”, de Lázaro Ramos; o épico intimista “A Viagem de Pedro”, de Laís Bodanzky; o aqua .doc “Uma Baía”, de Murilo Salles; e a animação “Meu Tio José”, de Ducca Rios. Confira a seguir sete títulos vindos lá de fora que não se pode perder no evento.

‘MATAR A LA BESTIA’, de Agustina San Martín:
Este drama metafísico sobre amadurecimento, repleto de tintas místicas, foi a sensação latina do TIFF-Toronto Film Festival, no Canadá. Sua protagonista, Emília (Tamara Rocca) é uma jovem de 17 anos que chega ao albergue de sua tia Inês (a paraguaia Ana Brun), na fronteira entre Argentina e Brasil, à procura de seu irmão há muito perdido. Nesta selva luxuriante, onde abundam lendas locais, uma besta perigosa, que se acredita ser o espírito de um homem maligno, parece andar pela região. Numa viagem para o despertar sexual, Emília terá que confrontar seu passado a fim de se livrar dessa criatura. Onde e quando ver: Dia 10, Reserva Cultural Niterói 3 – 16h30;

‘A FRATURA’ (“La Fracture”), de Catherine Corsini: Eis o ganhador da Queer Palm, a láurea de simbolismo LGBTQ+ de Cannes. Em sua nevrálgica narrativa, o casal Raf (uma inspirada Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs), cujo amor não vai muito bem, passa uma jornada infernal em um hospital em meio a um piquete dos Coletes Amarelos da França. Em meio a uma luta entre da equipe médica para trabalhar durante um tremendo turbilhão social, uma sala de espera da ala de Emergência será palco para uma guerra entre classes, na qual heróis, mártires e vítimas se equiparam. Onde e quando ver: Dia 15, Estação NET Gávea 5 – 16h;

“Matar a la Bestia” tem a paraguaia Ana Brun no elenco

‘BELFAST’, de Kenneth Brannagh: Canções rasga-coração de Van Morrison inundam a trilha sonora de saudosismo nesta narrativa autobiográfica do diretor de “Voltar a Morrer” (1991). Lembra “Como Era Verde Meu Vale” (1941), o que quer dizer muito. Seu visual é arrebatador, no equilíbrio de matizes do preto e branco. O charme com que Ciarán Hinds interpreta um avô batuta para o menino Buddy (Jude Hill), o alter ego de Branagh, humaniza uma narrativa que segue as angústias de uma família – narradas pelo olhar do caçulinha – achatada por um esboço de guerra civil armado em sua vizinhança. Onde e quando ver: Dia 12, Reserva Cultural Niterói 3 – 21h20;

‘A CHIARA’, de Jonas Carpignani: No último fim de semana, a jovem Swamy Rotolo ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Cairo, no Egito, por seu desempenho neste thriller à italiana (de tônus dramático) sobre a reeducação afetiva de uma adolescente em meio à descoberta de que seu pai é um criminoso. Há um delicioso diálogo onde se escuta: “Aquilo que você chama de mafioso eu chamo de ser um sobrevivente”. Seu realizador rodou antes “Ciganos da Ciambra” (2017), produzido por Rodrigo Teixeira e Martin Scorsese. Onde e quando ver: Dia 13, Reserva Cultural Niterói 3 – 18h45;

Wallace Shawn e Christoph Waltz na releitura da obra bergmaniana proposta em “O Festival do Amor”

VENICE BEACH, CA., de Marion Naccache: É outono na famosa praia de Los Angeles, na Califórnia, que dá título a esse .doc coproduzido por Ailton Franco, do festival Curta Cinema. Todas as manhãs, entre 5h e 9h, o nascer do sol é filmado. Quando o dia começa, os sem-teto, os verdadeiros habitantes da praia, acordam. Sua rotina diária é simples. Todos os dias, o mesmo ritual se repete: ao despertar, os moradores de praia têm que arrumar imediatamente seus pertences e levá-los para o outro lado do calçadão. Eles têm direito de dormir junto aos prédios, mas, quando amanhece, eles têm que ir para a areia. Neste bairro plural, por onde passam corredores, turistas, garis, artistas e policiais, as vozes do “povo das calçadas” expressam suas visões de mundo. Onde e quando ver: Dia 10, Estação Net Rio, 19h15;

O FESTIVAL DO AMOR (“Rifkin’s Festival”), de Woody Allen: Mesmo proscrito, o cronista das histórias de amor não correspondido regressa com uma viagem a San Sebastián, no norte da Espanha, onde um crítico de cinema (Wallace Shawn) passa em revista sua cultura audiovisual – e seu apreço por Bergman, Fellini e “Cidadão Kane” – enquanto percebe o desapego afetivo de sua mulher (Gina Gershon, de “Showgirls”). A participação do austríaco Christoph Waltz é impagável. Onde e quando ver: Dia 11, Estação NET Botafogo – 23:59;

LÁGRIMAS DE SAL (“Le Sel des Larmes”), de Philippe Garrel: Com cerca de cem minutos, esplendidamente fotografados por Renato Berta, o mais recente drama dr amor do realizador de “O Ciúme” (2013) fala de um estudante francês aspirante a carpinteiro, Luc (Logann Antuofermo), que é siderado por seu velho pai (André Wilms). Fiel aos ensinamentos de seu velho sobre a fragilidade do verbo viver, ele apaixona por uma jovem de família imigrante, Djemila (Oulaya Amamra), em meio a uma mudança de cidade. O rapaz se muda para tocar seus estudos, mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar. Onde e quando ver: Dia 14, Estação NET Gávea 5 – 16h.

p.s.: Um dos bairros mais antigos do Brasil, fundado em 1597, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Pedra de Guaratiba é tema do documentário “Doidos de Pedra, o Paraíso Ameaçado”. Dirigido por Luiz Eduardo Ozório, o longa-metragem revela como a devastação tem avançado em toda a região, que era um paraíso ecológico e teve sua orla completamente tomada pela poluição. Além de discutir problemas ecológicos, o filme apresenta curiosidades sobre a comunidade que habitou aquela região. No dia 10 de dezembro, às 19h, o filme será exibido na Arena Chacrinha, para que os moradores da região possam ter acesso à produção, que recebeu diversas láureas internacionais, como o prêmio de melhor documentário pelo júri popular no Festival Inffinito de Cinema, nos Estados Unidos. A entrada será um 1kg de alimento não perecível, a ser doado para a Fundação Angelica Goulart, situada em Pedra de Guaratiba. A produção é da OZ Films, FM Produções e Copacabana.

p.s.2: O box infantojuvenil “Manifestações Culturais do Brasil” (Quereres Edições), que será lançado sexta-feira na Bienal do Livro, apresenta 50 patrimônios imateriais do país registrados pelo Iphan em uma história itinerante. A obra reúne dois livros escritos pelo autor premiado Tino Freitas: “Um passeio pelo Patrimônio Imaterial Brasileiro” e “Uma viagem cultural pelo Brasil Criativo”, que acompanham a viagem de uma família pelo Brasil, quando vão conhecendo a diversidade da cultura popular do país. “Em toda ficção, é preciso colocar um pouco de verdade, senão ela não funciona. Então, para contar essa história, quis criar uma família com pai e mãe de culturas distintas, que pudessem circular por todas as regiões do país com uma certa verossimilhança a outras famílias brasileiras”, descreve o autor Tino Freitas. “O grande desafio foi colocar 50 patrimônios em uma só narrativa. E cuidar para que a trama não fosse apenas informativa, mas também ágil e divertida. A minha proposta foi criar uma história em que eu pudesse apresentar esses patrimônios numa linguagem que aproximasse tudo isso do universo da criança”, acrescenta. A equipe também criou uma Caderneta de Brincadeiras, com textos de Graça Ramos para que as crianças possam fixar o conteúdo presente na história. O projeto também contempla atividades educativas com professores das redes públicas de ensino. Lançamento, às 10h, no Stand Paixão de Ler.

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