Sergio Leone, o Proust do faroeste

Sergio Leone, o Proust do faroeste

Rodrigo Fonseca

06 Novembro 2016 | 11h31

O cineasta com Clint Eastwood: autor e muso

Leone dirige Clint Eastwood: autor e muso

RODRIGO FONSECA
Revirando-se alfarrábios cinéfilos, nota-se uma dupla efeméride em torno de Sergio Leone (1929-1989): há 60 anos ele fez seu primeiro trabalho profissional na telona, como assistente de direção de Carmine Gallone em Rigoletto (1946), e há exatamente 55 anos, ele assinou seu primeiro filme como diretor: O Colosso de Rodes (1961), um marco da estética peplum (os filmes de gladiador). Para completar, Três Homens em Conflito (1966) – vulgo O Bom, o Mau e o Feio – está celebrando 50 anos. Em função disso e de um convite do BIFF – Brasília International Film Festival, no qual este que vos tecla coordenou a curadoria, trabalhando numa retrospectiva do mestre italiano, nasceu este texto:

Na Ilíada do Velho Oeste existe um Homero que se chama John Ford, o homem que idealizou a travessia para a descoberta de um mundo novo, onde índios coloriam pradarias selvagens com o penacho de seus cocares e com o urucum em suas peles enfrentando o processo civilizatório. Este era  encarnado na figura de centauros de chapéu e colts  na cintura. Mas houve um determinado momento, lá nos anos 1960, com a consolidação do bangue-bangue como um gênero formador e renovador de bilheteria, em que essa Odisseia  abriu espaço para um Proust, alguém que buscava o tempo perdido,  usando como referência a própria linguagem cinematográfica, não a linguagem da História. O papel de Proust do western foi confiado ao italiano Sergio Leone.

Nos sets de

Nos sets de “Era Uma Vez no Oeste”

Embora tenha dirigido muito pouco em seus sessenta anos de vida, ele já havia desempenhado múltiplas funções na área cinematográfica antes de pilotar um set com sua autoridade de autor, tendo sido assistente de direção, roteirista, produtor… Mais tarde, já sob a égide do sucesso, seguiu trabalhando em outras áreas, chegando até a ser dublê de cineasta – isso em filmes nos quais confiou a direção a parceiros como Tonino Valerii e Damiano Damiani, por exemplo. Ser plural era parte de seu ethos criador. Não por acaso nasceu filho de diretor e de filho de atriz. Por isso, carregava a arte cinematográfica em suas veias e,  mais do que isso, comportava em seu DNA um desejo de entender o quanto aquela América  bravia, muito distante de sua Roma, representava um microcosmo  para a desmistificação dos conceitos de herói, anti-herói  e vilão.

Sergio Leone Por um Punhado

Seu seminal Por um Punhado de Dólares (1964), uma corruptela do Alerquim, Servidor de Dois Patrões, parente do Yojimbo, de Kurosawa,  representou para ele a passagem para o posto de cineasta campeão de bilheteria. Em seu lançamento ruidoso (o ruído era o do estalar das registradoras das bilheteiras de salas de exibição), Leone obteve expressão internacional, fazendo de um astro de televisão, o americano Clint Eastwood, então um aspirante ao sucesso formado na TV, seu muso momentâneo.

O cineasta começou a filmar em 1961

O cineasta só assumiu a direção em 1961

Musos ele teve muitos. Lee Van Cleef talvez tenha sido seu muso carrancudo e Eli Wallach foi seu muso feioso. Tempos depois, Leone quis estender o posto de divo para Robert De Niro, com quem fez um dos filmes mais bonitos de toda a história da arte cinematográfica:  Era Uma Vez na América (1984), no qual o título indicativo de fabulação mascarava um processo sociológico e antropológico de análise de um povo distante do seu. De Niro foi o seu Corleone judeu, mas a parceria com o touro indomável durou muito pouco. Tinha vontade de fazer com ele um filme sobre a batalha de Stalingrado, no qual De Niro seria um jornalista, mas este projeto nunca concretizou-se.

“Era Uma Vez na América”: canto de cisne

Estima-se que,  em um determinado momento, Leone teve um flerte com uma dupla de jovens galãs de muita expressão no início dos anos oitenta 1980 – Richard Gere e Mickey Rourke -, com os quais faria um filme sobre a Guerra Civil Americana, que também não saiu. Tudo bem: o que ele conseguiu finalizar foi o bastante para lhe garantir status de mito.

 

Os filmes que ficaram de Leone são os filmes que carregam a marca de sua investigação picaresca sobre os pistoleiros e seu modo de agir, de odiar, de cobiçar. Os caubóis de Leone são os saltimbancos trapalhões que percorrem o mundo alfabetizado no léxico da brutalidade,  aprendendo a compor orações sintáticas à base do chumbo e à base de uma estranha noção de lealdade, na qual a Maldade e a Bondade ficam cara a cara e muitas vezes entram numa interseção. A caminhada por esse continente de um país só que são os Estados Unidos foi levando o diretor a um caminho épico que explodiu como obra prima em seu Era Uma Vez no Oeste (1968), o qual contou com o caubói dos caubóis, Henry Fonda, mas agora transposto para um lugar de vilania. Leone compôs seu réquiem para o sonho da xangrilá anglosaxônoca  assumindo como protagonista não um macho empoeirado e cicatrizado, mas sim uma beldade de beleza ímpar, vivida por Claudia Cardinale. Seu rosto foi um sintagma de beleza no lodo do rancor. E o cinema nunca se recuperou do som da gaita de Charles Bronson servindo de sinfonia ao pântano contra o qual o anjo Cardinale luta para não afundar.

 

Esse sentimento épico do cineasta foi canalizado de novo para Quando Explode a Vingança (1975), dono de  uma das trilhas sonoras mais bonitas do cinema. Este thriller de guerra é calcado numa relação de cumplicidade entre dois pares, um chefão mexicano de meia tigela e um terrorista irlandês especializado em bombas. Uma vez mais, as sequelas da condição existencial anglo-saxônica se descortinam diante do olhar de Leone, agora como um lugar de exumação das invenções múltiplas do cotidiano. A caminhada para Era Uma Vez na América, coroada com uma indicação ao Globo de Ouro de melhor diretor, parecia ser uma espécie de passaporte para que Leone alcançasse o Panteão. Entretanto, tal reconhecimento não foi à altura de seu talento. Circunstância diversa ocorre hoje, em que é impossível fazer uma História do Cinema Contemporâneo sem listar a quilômétrica influência de Leone.

“Três Homens em Conflito”: 50 aninhos

Hoje seria impossível termos um Tarantino, com seu Bastardos Inglórios, Jango Livre ou mesmo Os Oito Odiados, sem a influência de Leone. É inconcebível  pensarmos no cinema asiático de Hong Kong, sobretudo Ringo Lam e John Woo, sem a existência de Leone. Ainda que a influência que ele exerceu não tenha sido foi devidamente  reconhecida por meio dos prêmios que a indústria costuma oferecer, é fato que ele virou mito. E mitos são uma miríade com o peso da História, que não perdoa jamais, e que espera sempre seu momento para dar um bote de relativização. De Leone ficaram grandes imagens e muitas histórias. Talvez aquela que fale mais fundo no coração de quem, na década de oitenta, viu seus mafiosos judaicos em Era Uma Vez na América, seja uma sequência que retrata um de rito de passagem da infância para a adolescência. Nela, um menininho sabe que, no alto de um prédio existe uma garota que tira a virgindade dos rapazes da rua, desde que eles lhe tragam um doce. Gordinha, gulosa, ela adora uma guloseima e é capaz de retribuir com o sabor delicioso  de um orgadmo a quem lhe fizer uma gentileza dessas. Só que o menino, bastante infantilizado diante do prazer do sexo e do prazer do bolo, prefere tirar migalhinha por migalhinha daquela ambrosia até se empapuçar totalmente com ele, revelando a medula da inocência, numa das sequências mais plenas e cristalinas da pureza já construídas no audiovisual. Isso é Leone. Um homem que,  em meio a um jardim de agressões, estampado por seus faroestes fedidos a dinamites, é capaz de sintetizar a beleza com a doçura da meninice.