Sergio Leone à putanesca: noite de spaghetti no Telecine

Sergio Leone à putanesca: noite de spaghetti no Telecine

Rodrigo Fonseca

24 de junho de 2017 | 12h03

“Por um Punhado de Dólares” (1964): faroeste custou US$ 225 mil para sair do papel e arrecadou US$ 14 milhões

RODRIGO FONSECA

É noite de Sergio Leone na TV: às 22h, deste sábado, o Telecine exibe Por Um Punhado de Dólares (1964), produção que consumiu US$ 225 mil para sair do papel e faturou US$ 14 milhões.

Na Ilíada do Velho Oeste existe um Homero que se chama John Ford, o homem que idealizou a travessia para a descoberta de um mundo novo, onde índios coloriam pradarias selvagens com o penacho de seus cocares e com o urucum em suas peles enfrentando o processo civilizatório. Este era  encarnado na figura de centauros de chapéu e colts  na cintura. Mas houve um determinado momento, lá nos anos 1960, com a consolidação do bangue-bangue como um gênero formador e renovador de bilheteria, em que essa Odisseia  abriu espaço para um Proust, alguém que buscava o tempo perdido,  usando como referência a própria linguagem cinematográfica, não a linguagem da História. O papel de Proust do western foi confiado ao italiano Sergio Leone.

Embora tenha dirigido muito pouco em seus sessenta anos de vida, ele já havia desempenhado múltiplas funções na área cinematográfica antes de pilotar um set com sua autoridade de autor, tendo sido assistente de direção, roteirista, produtor… Mais tarde, como diretor, fez cinema a partir do desejo de entender o quanto a América  bravia, muito distante de sua Roma, representava um microcosmo  para a desmistificação dos conceitos de herói, anti-herói  e vilão. Seu seminal “Por um Punhado de Dólares“, uma corruptela do “Alerquim, Servidor de Dois Patrões“, parente do “Yojimbo” de Kurasawa,  representou para ele a passagem para o posto de cineasta campeão de bilheteria.

Os filmes que ficaram de Leone são os filmes que carregam a marca de sua investigação picaresca sobre os pistoleiros e seu modo de agir, de odiar, de cobiçar. Os caubóis de Leone são os saltimbancos trapalhões que percorrem o mundo alfabetizado no léxico da brutalidade,  aprendendo a compor orações sintáticas à base do chumbo e à base de uma estranha noção de lealdade, na qual a Maldade e a Bondade ficam cara a cara e muitas vezes entram numa interseção.

De Leone ficaram grandes imagens, muitas histórias e uma lenda.