‘Separações’ no Estação Virtual: Domingos eterno

‘Separações’ no Estação Virtual: Domingos eterno

Rodrigo Fonseca

10 de maio de 2021 | 09h19

Rodrigo Fonseca
Hino de louvor ao querer, centrado no fato de o amor ser um objeto pontiagudo, a série “Todas as Mulheres do Mundo”, hoje no Globoplay, mobilizou olhares na TV aberta com sua homilia romântica acerca da mania que as pessoas têm de gostar de alguém, com todos os seus TOCs, seus vícios e suas delícias. O texto de Janaína Fischer e Jorge Furtado, escudado pela carapaça de carisma de Emilio Dantas, transborda brasilidade em sua maneira de driblar cacoetes hollywoodianos, metanarrativos, sobre a representação do romance, sem jamais virar as costas para os efeitos analgésicos de um beijo na boca, sobretudo na ausência, na saudade. Mas o motor de tudo é Domingos José Soares de Oliveira (1935-2019), de onde tudo veio, numa obra híbrida de palco e telas, que alcançou dimensões de fenômeno de bilheteria em 1966, com o filme homônimo do seriado hoje responsável por suspiros no planisfério digital. O projeto de revisão televisiva de seu legado, via Furtado e Janaína, alimentou o interesse das novas gerações pelos fragmentos de seu discurso amoroso, nada barthesiano, como comprova o magistral “Separações” (2003). Nele, uma frase explode nos tímpanos qual granada: “Amar é querer o bem do outro. Mas e se o bem do outro te fizer mal?”. E o próprio dramaturgo, cineasta e ator dizia: “O amor é uma selvageria”. Reflexões como essas podem ser (re)vistas na passagem desse precioso longa na retrospectiva Estação Virtual. Tem um mar de filmes – são 180 ao todo – no festival idealizado pelo Grupo Estação para propor uma triagem dos últimos 35 anos de cinema brasileiro, que pode ser acompanhado na URL www.grupoestacao.com.br. Lá estão pérolas recentes como o .doc supracitado e ficções como “Introdução à Música do Sangue”, de Luiz Carlos Lacerda. A curadoria é assinada por Adriana Rattes, Cavi Borges, Liliam Hargreaves, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque e Luiz Eduardo Pereira de Souza. Tem joias ali, como “A Febre”, de Maya Da-Rin; “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral; “Lá do Alto”, de Luciano Vidigal; “Ralé”, de Helena Ignez; e “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho.

Vista por 70 mil espectadores em circuito pagante, a partir de sua estreia, em janeiro de 2003, “Separações” é uma comédia – ou quase dramédia – sobre paixões perdidas e reconquistadas. Seu sucesso popular pavimentou uma nova (e midiática) passarela para Domingos em todo o país, dialogando com a peça homônima de sua autoria. Sua boa acolhida popularizou o estilo assumido pelo cineasta a partir de “Amores” (1998). Desde a Retomada, Domingos desenvolveu uma estética edificada sobre um ménage à trois ente teatro, cinema e vida pessoal, com desabafos (sempre líricos) carregados de referências autobiográficas.
Fotografado por Paulo Violeta, “Separações” acompanha os contratempos amorosos entre Cabral (Domingos, numa atuação em estado de graça) e Glorinha (Priscilla Rozenbaum, sua parceira de décadas). Os dois se separam após anos de casamento. Ela tenta viver uma aventura amorosa com um antigo aluno de seu ex, Diogo (Fábio Junqueira). Mas Cabral, arrependido de seus deslizes, fará o possível para reatar seu matrimônio. O desempenho de Maria Ribeiro como a filha de Cabral é impecável, indo do fervor descontrolado ao mais lírico alumbramento. A canção “Resistiré”, cantada pelo Duo Dinâmico no fim do filme, e já testada por Almodóvar em “Ata-me” (1989) é de grudar nos ouvidos. Priscilla ganhou o Kikito de melhor atriz por seu desempenho no Festival do Gramado de 2002. No ano seguinte, a produção, montada por Natara Ney e José Rubens, conquistou os prêmios de melhor filme e ator (Domingos) no Festival de Mar Del Plata, na Argentina. E segue entre nós.

Numa entrevista de 2013, Domingos disse: “A memória não é lógica, nem cronológica. A memória parece mais um filme do Godard do que uma fuga de Bach. A vida não é lógica. Às vezes, por conta de um coração partido, você pode querer se esconder da vida, enfiando-se debaixo da cama. Mas ela vai lá e te acha, e te pega, e te faz viver”. Mas a memória de seus filmes e de suas palavras perenizaram na gente sob uma perpétua doçura, capazes de dar frutos como a série de Janaína e Furtado e a vontade de voltar ao abraço (hoje partido) dele, atrás de um abrigo.

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