‘Sem seu sangue’ marcou Cannes pela delicadeza

‘Sem seu sangue’ marcou Cannes pela delicadeza

Rodrigo Fonseca

27 de maio de 2019 | 12h44

Rodrigo Fonseca
Em meio às merecidíssimas vitórias brasileiras no 72º Festival de Cannes – com o Prêmio do Júri dado ao vibrante “Bacurau”, o Prix Un Certain Regard concedido ao melodrama tropical “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, e o Prêmio da Crítica arrebatada por “The Lighthouse” -, há que se festejar outras boas entradas nacionais no balneário francês que, mesmo sem láureas, fizeram barulho, pelas vias da doçura. Fora da disputa principal, Cannes flertou com o Brasil também da Quinzena dos Realizadores, com a projeção de “Sem seu sangue” (na Europa, o título é “Sick sick sick”), da estreante Alice Furtado. Egressa da Universidade Federal Fluminense (UFF), ela foi elogiada pelo lirismo que guia sua montagem, com ecos de Abel Ferrara. Os elogios só não reverberam mais do que um protesto em prol da preservação do ensino público em escolas e instituições universitárias de todo o país. O produtor do filme, Matheus Peçanha, foi um dos artistas que levantaram cartazes em prol da educação brasileira.

“É nosso primeiro longa de ficção, estreia de Alice no formato, e, ao sabermos da seleção, quisemos manifestar o nosso apoio a algumas questões que estão acontecendo no Brasil: a primeira delas é o apoio ao ensino público. É uma equipe de ex-alunos de universidade pública”, disse Matheus. “É um longa que só foi possível por um encontro na universidade. E o primeiro filme dela, um curta de conclusão de curso, foi exibido aqui. Estamos por uma crise que atravessa o país e que passa pelo audiovisual. O ensino público permite que pessoas de diferentes classes sociais possam entrar nesse meio”.

Diretora do belo curta-metragem “Duelo antes da noite”, exibido na Croisette em 2011, Alice narra em “Sem seu sangue” os conflitos da adolescente Silvia (Luiza Kosovski), que encontra em Artur (Juan Paiva, em estonteante atuação), um jovem hemofílico expulso de uma série de escolas, um analgésico para seu vazio existencial. O elenco inclui ainda Sílvia Buarque, Digão Ribeiro e o escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, autor do romance “O cheiro do ralo” e ator no aclamado “Que horas ela volta?” (2015).

“Lourenço carrega já em sua obra um tom de ‘gravidade’, um cansaço no olhar, por um peso existencial. Era uma escolha perfeita e ele é um pouco parecido com a Luiza, a protagonista”, diz Alice, que usa a hemofilia como metáfora para uma certa incontinência amorosa. “Juan vive alguém cujo sangue corre sem parar. Quando veio essa ideia de trabalhar sobre o desejo e a perda amorosa a partir de uma protagonista, o elemento da hemofilia veio já no início, a partir da alegoria do sangue que não para de correr, que é muito poética. Parece uma presença que está sempre escapando da gente. Isso trazia uma intensidade a mais”, disse Alice. “O sangue era uma foram sensorial de trabalhar a perda”.

 

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