‘Seiva bruta’ põe o pé na estrada… do Oscar

‘Seiva bruta’ põe o pé na estrada… do Oscar

Rodrigo Fonseca

07 de julho de 2021 | 12h40

Samantha Castillo nas filmagens de “Seiva Bruta” com Gustavo Milan, em fotos de @Marcel Favery

RODRIGO FONSECA
De um refinamento singular em sua narrativa dramática, “Seiva Bruta”, do paulista Gustavo Milan, foi consagrado como Melhor Curta-metragem Internacional no SSFF & ASIA 2021, no Japão. Com essa conquista, o filme está qualificado para tentar uma vaga no Oscar de 2022, uma vez que o evento se articula com as decisões da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para todos os trâmites ligados ao percurso até a estatueta, seu título lá fora vai ser “Under the Heavens”. A atriz venezuelana Samantha Castillo estrela o curta, que também possui o ator brasileiro Luiz Carlos Vasconcelos no elenco. Samantha trabalhou no aclamado “Pelo Malo”, de Mariana Rondón, ganhador da concha de Ouro no Festival Internacional de San Sebastián, em 2013. Na trama filmada por Milan, imergimos no universo da imigração. É uma história sobre o trânsito de venezuelanos para o Brasil, contando a história de Marta (papel de Samantha), que está vindo para o Brasil e, na sua vinda, conhece um casal em dificuldades. Eles têm um bebê, mas a mãe não tem leite. Só Marta tem a capacidade de amamentar. Ela tromba com esses dois em um caminhão dirigido pelo personagem de Vasconcelos. Estrada afora simpatias e suspeitas inicias convergem para um clima de tensão… e de reinvenção. Centrado num contexto de solidão e errância, “Seiva Bruta” já conquistou sete prêmios internacionais. Além do SSFF & ASIA 2021, em telas nipônicas, o filme foi consagrado como Melhor Curta de Ficção e recebeu o Grand Chameleon no Festival de Cinema do Brooklyn, em Nova Iorque. O curta também já conquistou os prêmios de Melhor Curta Latino no Directors Guild of America; Melhor Curta-Metragem no Festival Internacional de Cinema de Rhode Island (Estados Unidos); Melhor Curta Metragem no National Board Review e Melhor Direção no Wasserman Awards, prêmio dado pela Universidade de Nova Iorque (NYU). O curta também foi selecionado para o Festival de Palm Springs, na Califórnia. O evento é um dos principais festivais americanos de curta-metragem e serve como qualificação para o AMPAS, BAFTA, BIFA e Goya Awards.
Aos 36 anos, Gustavo, que mora nos EUA, compartilha com o P de Pop suas reflexões estéticas.

Luiz Carlos Vasconcelos nas filmagens

Seu filme parece ser um tratado sobre a errância, o desapego e a solidão. O que esses personagens erráticos e solitários expressam sobre a América Latina de hoje?
Gustavo Milan:
A minha própria solidão foi uma companheira fiel durante a elaboração desse projeto. Assim como acontece no filme, aprendi também que existe em mim o medo de ser abandonado. Esse medo tem a ver com a forma como encaramos e lidamos com a solidão. Existe uma solidão que amedronta e paralisa, mas também existe aquela que nos nutre e nos coloca em contato com a nossa essência. No fundo, são dois lados da mesma moeda. A posição do Brasil no contexto da América Latina sempre me fascinou muito: somos uma espécie de gigante solitário. Não fazemos parte da América Latina tanto quanto poderíamos e o “Seiva Bruta”, de certa forma, é reflexo desse meu desejo maior de ver o Brasil mais integrado com o resto do continente. Marta, a protagonista do filme, é uma mulher de imensa coragem e capacidade humana, que assume a responsabilidade de iniciar uma caminhada solitária em busca de melhores condições de vida. Gosto de ver nela uma versão daquilo que o Brasil também poderia ser: um país que assume o seu protagonismo na integração latino-americana.
Qual é a Amazônia simbólica e a Amazônia geográfica que o filme tenta penetrar?
Gustavo Milan:
Quando governos se tornam ineficientes para protegerem e cuidarem de suas populações, as pessoas acabam vulneráveis ao que há de pior e melhor na condição humana. A Amazônia representa a vida e a capacidade humana de nutrir e se regenerar. Ao mesmo tempo, ela também representa o instinto de sobrevivência e a lei do “cada um por si”. A Amazônia geográfica é aquela de Presidente Figueiredo, onde fomos extremamente bem recebidos pelos moradores e autoridades locais.
Como foi rodado o longa em termos de produção: quantos dias de filmagens, que (e quais) locações, quantas pessoas na equipe e quanto custou?
Gustavo Milan:
No total, levamos seis dias inteiros para filmar “Seiva Bruta”. No primeiro dia de rodagem, tivemos um problema com a câmera e perdemos quase todo o material que havíamos filmado. Tivemos que voltar na primeira locação (uma árvore) no último dia e refilmar tudo outra vez. Por se tratar de um road movie, tivemos muitas locações diferentes. Faz parte desse gênero cinematográfico relacionar as mudanças que ocorrem internamente nos personagens com as mudanças das paisagens que os cercam. Nesse sentido, a locação da árvore representa a família; o condomínio de casas representa as dúvidas de um futuro em construção; e, por fim, a água representa a vida e maternidade. Quase 90% do filme foi rodado aos arredores de Presidente Figueiredo (AM). As únicas cenas filmadas em Manaus foram as cenas do porto e do barco. Ao todo, nossa equipe de produção era composta de 30 profissionais.

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