‘Se não agora’ sempre, na memória do palco

‘Se não agora’ sempre, na memória do palco

Rodrigo Fonseca

14 de março de 2020 | 10h38

Rodrigo Fonseca
Gaivotas de saliva como “Só pede pizza quem não leva a vida tão a sério” ou “Quando nada acontece na sua vida você se alimenta da vida dos outros” cruzam o espaço cênico de “Se não agora, quando?”, em cartaz até sexta (na degola do Coronavírus) no Sesc Tijuca, no RJ. Cruzam o palco a arejar uma narrativa onde paranoia, obsessão e aquele piolho incurável chamado “solidão” ganham uma inusitado leveza nos sorrisos de Marcélli Oliveira. Texto e corpo em movimento são dela. Texto e corpo se azeitam na tintura de um quadro de humanidades frágeis, fofas e mórbidas (o paradoxo é o síndico), em um apartamento em Botafogo onde fraturas afetivas são expostas diante do olhar de uma atriz escalada para bater ponto numa lanchonete. A escalação não foi dela. Também não foi de um diretor. Foi da crise financeira que resumiu seus dividendo a R$ 2 no banco e a um bolo de chocolate bonito pra chuchu. Na pindaíba dos dias, ela queima a modorra das madrugadas cariocas… e parte das noites… a expiar seus vizinhos e inventar ficções para ele, num jardim borgiano de hipóteses emotivas que se bifurcam, em meio a nomes que ela inventa para as pessoas em sua volta. É difícil não pensar no Saramago mais bonito, o Saramago de “Claraboia” (1953), ouvindo Marcélli dar voz à sua protagonista de miocárdio carente:
“A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona no dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho”, escreveu o português ganhador do Nobel de 1998.

Dirigida por Leonardo Hinckel, em meio a dez retângulos brancos (metáforas para janelas, e também metonímias para o viver comportado além delas), inteligentemente distribuídos na concepção cenográfica de Marieta Spada, Marcélli transforma sua personagem numa Miss Marple em seu frissom Agatha Christie de saber o que se passa na casa dos outros. Inventa narrativas para uns e estabelece contato com outros, como a doméstica Roberta – cujo RG traz o nome Ana -, com quem passa a viver uma conversa de janela. Roberta limpa, a cada 15 dias, a casa de um vizinho de vários nomes por quem a protagonista vai desenvolver um fascínio de ordens diversas. A constatação de que o sujeito tem um pênis tamanho M (logo, “ideal”, na métrica dela) é um dos argumentos que a impelem a seguir em sua observação patológica do balanço das horas do rapaz. É um efeito da “mesmice esmagadora da rotina”, num erro crucial que a personagem de Marcélli comete de acreditar que cada semana “é uma semana como outra qualquer”, sem atentar para a fricção que se forma entre o Acaso e a Oportunidade, substantivos concretíssimos em sua abstração. Desatenta a si mesmo, como comprova na cena em que se desdenha, em meio a uma jornada por um aplicativo de paquera, a personagem mira no abandono, mas acerta no suicídio. Esse é o assunto que acaba sendo o astrolábio do sinuoso (e por isso mesmo, belo) texto da moça Oliveira.
Seu melhor diálogo: “A decisão de sair ou não da vida é algo de muita responsabilidade”. O que se lê aqui no P de Pop é um diálogo aproximado, uma vez que o riso e a surpresa que a atriz-autora consegue a cada movimento, na suspensão da gravidade da gente diante da dor da incompletude, distrai a caneta, embebeda o lápis. Mas as distrações da doçura (necessária diante da aridez do tema) não diluem a potência do debate e da escrita de Marcélli, compondo com “Se não agora, quando?” um tríptico com “Casório” (2012) e “Às Terças” (2014).
Resta agora a histeria coronavirótica passar, os teatros do RJ reabrirem e esse necessário buraco na parede da intimidade das metrópoles voltar à cena. Merece. Merecemos sorrisos que aliviem a enxaqueca do peso nas costas e as teorias da conspiração que disfarçam gestos de amor… ao próximo… a nós mesmos.

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