Scorsese nas expectativas para 2021

Scorsese nas expectativas para 2021

Rodrigo Fonseca

10 de dezembro de 2020 | 12h23

Rodrigo Fonseca
Envolvida na produção da biopic do músico Leonard Bernstein (1918-1990), estrelada e produzida por Bradley Cooper, o realizador Martin Scorsese tem dois longas-metragens nas listas das grandes revistas e sites especializados em cinema de língua inglesa (“Playlist”, “The Hollywood Reporter”) acerca dos principais lançamentos para 2021. Ele entra com o western indigenista “Killers of The Flower Moon”, com Leonardo DiCaprio e Robert De Niro, e com o documentário “An Afternoon with SCTV”, sobre o lendário programa humorístico “Second City TV”. Falava-se dele como um possível “filme do adeus”, algo que decretasse a saída de Scorsese das telas. Mas as notícias em torno suas novas criações provam que ele segue firme e forte. Mesmo assim há uma sensação de paúra diante da finitude que embota o peito do diretor, como se avalia em seu essencial “O Irlandês” (“The Irishman”), feito para a Netflix. É um filmaço carregado das marcas autorais do realizador. Um realizador cujos filmes, muitas vezes, banham-se nas águas da penitência católica, em uma conexão com seu passado cristão de ítalo-americano, que pairou sobre a lírica folk, no primeiro decênio de sucesso de sua carreira, ao buscar na poética de Kris Kristofferson uma tradução de si mesmo.

“O Irlandês”

Há uma música, falada – e não cantada – no início de “Taxi Driver” (Palma de Ouro de 1976), que diz: “He’s a prophet, he’s a pusher/ He’s a pilgrim and a preacher, and a problem when he’s stoned/ He’s a walkin’ contradiction, partly truth and partly fiction”. Se fosse necessária uma definição quase metafórica para o melancólico “O irlandês”, vitaminado por uma atuação em temperatura máxima de Joe Pesci, essa estrofe da canção “The Pilgrim, Chapter 33” seria a escolha precisa. Nada é mais antitético do que Frank Sheeran, caminhoneiro, ex-militar e matador que devolve a Robert De Niro uma grandeza que parecia, há muito, perdida em sua forma de atuar. Ao mesmo tempo em que é a retidão em pessoa, o “homem que pintava casas” – como ele é definido entre os mafiosos e magnatas do sindicalismo para quem empresta seu gatilho –, Frank põe sua trilha trágica em dúvida diante do fardo de ter que eliminar um amigo e patrão, o líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). É caninamente leal, mas late quando o chefe desrespeita sua posição de servo. E é, como o personagem dos versos do (há muito) sumido Kristofferson, um profeta… o profeta de sua própria sina e da moira de um mundo de imigrantes europeus que, entre guerras, encontraram na América o Eldorado.
Desde “Kundun” (1997), Scorsese não se arriscava a fazer algo tão político. Existe, na longeva relação entre Sheeran e Hoffa, uma ética viável, a da amizade, que, quando verdadeira, jamais é provisória. Mas amizades são divididas. Sheeran divide a sua com Russell Bufalino, papel que arranca de Joe Pesci uma devastadora interpretação.

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