Scorsese na diligência dourada de Cannes

Scorsese na diligência dourada de Cannes

Rodrigo Fonseca

13 de maio de 2019 | 19h20

Cena de “Rolling Thunder”, .doc de Scorsese sobre Bob Dylan para a Netflix

Rodrigo Fonseca
Preparando-se para lançar o épico documental roqueiro “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese, no dia 12 de junho, o septuagenário cineasta nova-iorquino por trás de cults como “Cassino” (1995) esteve em Cannes, há um ano, para receber um prêmio honorário, o troféu Carroça de Ouro, pelo conjunto de sua carreira. Este ano, essa láurea, que é dada na abertura anual da Quinzena dos Realizadores, vai continuar nas mãos do cinema autoral americano, contemplando o artesão do horror John Carpenter (de “Os aventureiros do Bairro Proibido” e “Halloween”), nesta quarta, na Croisette. Mas nada vai apagar o tufão de positividade que Scorsese criou no balneário, em 2018. Empenhado desde então na luta pela finalização do filme de máfia “The Irishman”, projeto da Netflix com Al Pacino e Robert De Niro, o aclamado realizador abriu o peito em Cannes e dele tirou um baú de saudades, compartilhadas com uma multidão de variadas línguas momentos antes de receber do mais concorrido (e respeitado) festival de linguagem audiovisual do mundo uma láurea antes dada a Agnès Varda, Aki Kaurismäki e Werner Herzog. Batizada com o nome de um clássico de Jean Renoir, a honraria é concedida a mestres da direção desde 2002, sempre na abertura da Quinzena, mostra paralela à briga pela Palma. Foi lá, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: “Caminhos perigosos” (“Mean streets”). Em 2019, Marty (como é chamado em Hollywood) divide com a RT Features de Rodrigo Teixeira a produção de um dos mais badalados concorrentes da seção Un Certain Regard: “Port Authority”, de Danielle Lessovitz.

“O tempo voa e lá se vão seis décadas desde que a minha amizada pelo De Niro começou. Hoje a gente se liga para falar de novas dores que começamos a sentir. Mas quando eu trouxe ‘Caminhos…’ pra Cannes, nos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o diretor, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe peculiar.

O realizador no set de “Caminhos perigosos”

Ao fim da projeção, disputada a tapa (quem quis ver teve que mofar numa fila, ao vento, por duas horas), ele sentou e deixou o passado bater à porta de sua memória, guiado por perguntas de uma esquadra de talentos do Velho Mundo nas telas. A arguição foi conduzida pelos cineastas Rebecca Zlotowski, Jacques Audiard, Bertrand Bonello e Cédric Klapisch, com perguntas em francês vertidas para o inglês no pé do ouvido do diretor de “Taxi Driver” (que deu a ele sua uma Palma de Ouro, em 1976) por uma tradutora. Ícones de sua cinefilia cheia de ardor foram citados, com paixão.

“A última vez em que estive com Jerry Lewis, com quem filmei ‘O Rei da Comédia’, em 1983, ele já estava com 91 anos, e me disse uma coisa que bateu forte em mim. Naquele idade, ele ainda pensava em trabalhar e dizia: ‘Se você estiver fazendo um filme, e perceber que o tempo não está bom, há está errado’. No vocabulário do Jerry, ‘tempo ruim’ significava não sentir prazer, não ter foco. Preciso ter foco no que eu espero contar ao pisar num set. Pra isso, eu desenho. Faço desenhos próximos do que chamam de storyboards de cada elemento de uma cena. Cada luta do ‘Touro Indomável’ foi desenhada”, disse Scorsese, a uma plateia muda de tamanho encanto, de olhos lacrimejados. “Eu já passei momentos difíceis. Cresci num bairro duro, violento, com muita gente ruim e muita gente boa. Eu não sei o que eu aprendi com os filmes que fiz, mas tive a chance de dominar uma lição: fracassar é ok, desde que você se levante depois. Já vive ‘tempos ruins’ filmando, mas me dei conta de que eu faço cinema para compartilhar com as pessoas referências que aprendi com o cinema e mudaram a minha vida… uma vida que começou pobre, asmática, numa casa sem livros. A falta de livros e a asma me levaram aos filmes”.

Eis a lista dos 21 concorrentes à Palma de Ouro de 2019

“The dead don’t die”, de Jim Jarmusch (filme de abertura)
“Les Misérables”, de Ladj Ly
“Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho
“Atlantique”, de Mati Diop
“Sorry we missed you”, de Ken Loach
“Little Joe”, de Jessica Hausner
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar
“The Wilde Goose Lake”, de Diao Yinan
“La Gomera”, de Corneliu Porumboiu
“A hidden life”, de Terrence Malick
“Portrait de la jeune fille em feu”, de Céline Sciamma
“Le jeune Ahmed”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
“Frankie”, de Ira Sachs
“Once upon a time in Hollywood”, de Quentin Tarantino
“Parasite”, de Bong Joon Ho
“Matthias et Maxine”, de Xavier Dolan
“Roubaix, une lumière”, de Arnaud Desplechin
“Il traditore”, de Marco Bellocchio
“Mektoub, my love: Intermezzo”, de Abdellatif Kechiche
“It must be Heaven”, de Elia Suleiman
“Sibyl”, de Justine Triet

Após a premiação, dia 25 de maio, será projetada a comédia motivacional “Hors norme”, de Éric Toledano e Olivier Nakache (dupla que vendeu 20 milhões de ingressos com “Intocáveis”, em 2011), com Reda Kateb e Vincent Cassel vivendo um par de professores especializados na inclusão de alunos com autismo. Este ano, a Palma de Ouro Honorária será entregue a Alain Delon, ator de 83 anos que atravessou seis décadas da História fazendo filmes. Ele filmou de 1957 a 2012. Seu tributo será no dia 19, com direito à sessão do aclamado “Cidadão Klein”, de Joseph Losey, laureado com o César, o Oscar francês, de melhor filme, em 1977. No dia 24, às vésperas do encerramento de sua programação, Cannes recebe Sylvester Stallone para uma homenagem pelo conjunto de sua carreira como astro, produtor, diretor e mito do cinema de ação, com direito a uma projeção de gala de “Rambo – Programado para Matar” (1982) em cópia 0KM. O evento conta ainda com a exibição de trechos inéditos de “Rambo – Last blood”, seu novíssimo trabalho, ainda em finalização, que estreia em setembro.

Nesta segunda foi anunciado que “Boyz’n the hood” (1991) vai ser exibido nas areias do Cinéma de la Plage, em tributo ao realizador John Singleton, morto no dia 28, aos 51 anos. Ainda na praia, num telão armado diante de uma série de cadeiras de sol, vão ser projetados “O tigre e o dragão” (2000), de Ang Lee; uma cópia novinha do drama musical biográfico “The Doors” (1991), com Val Kilmer possuído por Jim Morrison (1943-1971); e “Easy Rider – Sem destino” (1969), que comemorará seus 50 anos com a presença de Peter Fonda no balneário.
A maratona está só começando.  

 

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