Scorsese ganha biografia em quadrinhos em Paris

Scorsese ganha biografia em quadrinhos em Paris

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2021 | 06h26

Scorsese com o jovem De Palma no quadrinho de cima e com Coppola e toda a claque da Nova Hollywood no desenho de baixo

Rodrigo Fonseca
Na França, aconteceu, virou gibi, ou melhor, BD, termo local para bande dessinée, ou banda desenhada, que é a tradução lusitana para histórias em quadrinhos. Paris anda louca por uma BD dedicada a um dos maiores mestres do cinema: o nova-iorquino Martin Scorsese. Hoje, aos 79 anos (completados no dia 17), ele se dedica ao western indigenista “Killers of the Flower Moon”, com Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Brendan Fraser e seu eterno parceiro, Robert De Niro. E o interesse que sua obra como realizador – ensaiada a partir de 1959, com o curta-metragem “Vesuvius VI”, e engatada a partir de 1967, com “Quem Bate À Minha Porta?” – desperta no planisfério cinéfilo, inspirou o artista gráfico Amazing Ameziane a recriar detalhes do passado do realizador de “Taxi Driver” (ganhador da Palma de Ouro de 1976) em uma narrativa biográfica quadrinhizada. Ameziane, que biografou a militante Angela Davis em uma HQ já lançada no Brasil, contou com o primoroso trabalho da Editions du Rocher para publicar sua reinvenção dos feitos cinematográficos de Scorsese. Nas 384 páginas de “Martin Scorsese: Roman graphique”, Améziane traduz em desenhos exuberantes os bastidores da cruzada do diretor de “Os Bons Companheiros” (1990) para fazer cinema a partir de uma série de influências do neorrealismo italiano.

Curiosamente, sua publicação foi feita dois anos depois de Marty (o apelido pelo qual Martin é chamado em Hollywood) ter declarado que os filmes de vigilantes mascarados da Marvel não são cinema com “C”. Esse episódio entrou na BD, que revive a amizade do cineasta com De Niro, desde a juventude, e sua trajetória na chamada Nova Hollywood, o movimento que redefiniu as bases políticas do audiovisual nos EUA entre 1967 (com o fenômeno popular de “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”) e 1981 (com o fracasso de “O Portal do Paraíso”). “Bob entrou naquela idade em que telefona aos amigos para falar das novas dores em seu corpo”, contou Scorsese em uma cerimônia no Festival de Marrakech, em 2018.

Em maio daquele ano, ele esteve em Cannes, na abertura da Quinzena dos Realizadores, para receber o troféu honorário Carroça de Ouro e falar sobre sua estética, que a BD de Ameziane busca (e consegue) ilustrar. “Eu era um menino com asma que não podia correr nem rir muito alto. Numa casa sem livros, meus pais me levaram ao cinema, para ver os clássicos da Hollywood de 1944, 45. A chegada de uma pequenina televisão em nossa casa mudou as coisas, pois havia um canal de TV só para italianos em Nova York, no qual eu vi clássicos da Itália como ‘Paisà’. Ali, a noção de ‘filme estrangeiro’ passou a ser bem próxima para mim”, disse o cineasta, ganhador do Oscar em 2007, por “Os Infiltrados”, com Jack Nicholson. “Ao trabalhar com ele, havia um ponto da improvisação que você precisa conhecer bem. É necessário correr atrás dos atores, entender os espaços deles, perceber o quanto há deles nos personagens”.

“Killers Of The Flower Moon” é o novo longa do cineasta

Festivais gozam do afeto de Scorsese porque foi na Croisette, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: “Caminhos perigosos” (“Mean Streets”). Há um cartaz gigante desse longa na Cinémathèque Française, onde a BD está sendo vendida. “Quando eu trouxe esse filme pra Cannes, no início dos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o diretor em Cannes, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe é peculiar, e que Ameziane reproduziu em seus diálogos, criando um quadrinho seminal.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.