Scorsese decola na TV e em sets com DiCaprio

Scorsese decola na TV e em sets com DiCaprio

Rodrigo Fonseca

23 de junho de 2021 | 08h20

Scorsese dirige DiCaprio, à luz de Robert Richardson, nos sets de “O Aviador”, que a Globo exibe nesta madrugada

Rodrigo Fonseca
Desenvolvendo um documentário sobre o cantor e compositor David Johansen e a banda New York Dolls, na cena cultural dos EUA dos anos 1970, Martin Scorsese vai inundar a TV aberta do Brasil com suas inquietações autorais nesta madrugada, quando a Globo exibe “O Aviador” (“The Aviator”, 2004), de Martin Scorsese, à 1h40. Leonardo DiCaprio foi agraciado com o Globo de Ouro por seu desempenho interpretando o produtor e magnata da aviação Howard Hughes (1905-1976), que também foi cineasta, e rodou “Anjos do Inferno” (1930) e o genial “O Proscrito” (1943). A produção de US$ 110 milhões arrecadou US$ 213,7 milhões e faturou os Oscars de melhor figurino (Sandy Powell), direção de arte (Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo), montagem (Thelma Schoonkamer), fotografia (Robert Richardson) e atriz coadjuvante, dado à australiana Cate Blanchett, pelo papel de Katherine Hepburn. Miriam Ficher dubla Cate com toda a sua potência trágica de grande atriz. Já DiCaprio ganha a voz, a ironia e a inteligência de Christiano Torreão, um dublador capaz de perceber cada sutileza de um diálogo. É um dos ensaios mais poéticos do cineasta sobre a era de ouro de Hollywood e seus bastidores mais nefastos, com Jude Law vivendo Errol Flynn (de pileque).
Scorsese e DiCaprio estão trabalhando em um novo filme neste momento: “Killers of the Flower Moon”, uma espécie de faroeste tardio, ambientado nos anos 1920, centrado na gênese do FBI, a partir da investigação de uma série de assassinatos em uma aldeia indígena. Robert De Niro também integra o elenco. Aliás, ele chegou a se machucar no set, em uma filmagem, já se recuperando para mais (e melhores) takes.

“Killers of the Flower Moon”

Só o fato de trabalhar novamente com De Niro, logo na sequência do aclamado “O Irlandês” (2019), já fez Martin Scorsese tratar “Killers of the Flower Moon” como um espaço de afeto, e não apenas como mais um filme, em sua obra. “De Niro e eu nos conhecemos desde os 16 anos e, agora, estamos numa idade em que a gente se liga para falar de dores novas que estamos sentindo ou de algum cansaço que não fazia parte de nossas rotinas quando Nova York era um mar de criatividade aberto a nós”, disse o mítico cineasta em uma palestra no 17º Festival de Marrakech, em 2018, onde foi homenagear seu velho amigo. No mesmo ano, foi homenageado na Quinzena dos Realizadores, no balneário de Cannes, conquistando o troféu honorário Carroça de Ouro. “Eu fui um menino com asma que não podia correr nem rir muito alto. Numa casa sem livros, meus pais me levaram ao cinema, para ver clássicos da Hollywood de 1944, 45. A chegada de uma pequenina televisão em nossa casa mudou as coisas, pois havia um canal de TV só para italianos em Nova York, no qual eu vi clássicos da Itália como ‘Paisà’. Ali, a noção de ‘filme estrangeiro’ passou a ser bem próxima para mim”, disse o cineasta, ganhador do Oscar de melhor direção em 2007, por “Os infiltrados”, com Jack Nicholson e DiCaprio. “Eu já passei momentos difíceis. Cresci num bairro duro, violento, com muita gente ruim e muita gente boa. Eu não sei o que eu aprendi com os filmes que fiz, mas tive a chance de dominar uma lição: fracassar é ok, desde que você se levante depois. Já vive tempos ruins filmando, mas me dei conta de que eu faço cinema para compartilhar com as pessoas referências que aprendi com o cinema e mudaram a minha vida… uma vida que começou pobre, asmática, numa casa sem livros. A falta de livros e a asma me levaram aos filmes. É a cultura da imagem”.

p.s.: O INDIE20 vai dar uma segunda chance para que os espectadores possam assistir alguns dos destaques da última edição, realizada online em novembro do ano passado. O festival promove de 25 de junho a 4 de julho, no site www.indiefestival.com.br, a exibição de nove longas, de seis países, além de 12 curtas internacionais e nacionais. A cada dia, um filme da programação ficará disponível online e o espectador terá 24 horas para assisti-lo. No último dia, em 4 de julho, a programação é dedicada aos curtas que ficarão disponíveis durante todo o dia. A programação traz filmes da mostra competitiva, inclusive o ganhador de Melhor Filme, o mexicano “Sanctorum”, de Joshua Gil, além de outros filmes do cinema latino como o argentino “Edição Ilimitada” e o cubano “Agosto”, de Armando Capó. E do cinema asiático, “Lost Lotus”, de Liu Shu; “Love Poem”, de Wang Xiaozhen, e o documentário “Zero”, de Kazuhiro Soda. Da sessão Première, o público poderá conferir “PJ Harvey: Um Cão Chamado Dinheiro”, documentário do diretor inglês Seamus Murphy, e o filme japonês “Perfil de uma Mulher”, de Koji Fukada. Completa a programação de longas o filme “O ato indizível”, da retrospectiva dedicada ao diretor americano Dan Sallitt. O dia dedicado aos curtas traz obras de diretores como Jennifer Reeder, Apichatpong Weerasethakul, Dan Sallitt, Rodolfo Magalhães, entre outros.

p.s.2: Não é raro nos sentirmos perdidos e confusos diante da quantidade de informações (verdadeiras e falsas) a que temos acesso diariamente pelos meios de comunicação e redes sociais. A circulação de notícias, obras e ideias está em profunda transformação no mundo atual, passando por fenômenos como os da “fake news”, mas também ampliando em nível vertiginoso nossa possibilidade de acesso ao conhecimento. Com dramaturgia e direção de Cecilia Ripoll, o espetáculo “PANÇA”, que estreia dia 1º de julho no Teatro Arthur Azevedo, constrói uma fábula para tratar da reprodutibilidade da notícia e das falhas da comunicação humana. O espetáculo foi selecionado pelo edital Prêmio de Montagem Teatral, da Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ). Com estrutura cômica e farsesca, a peça acompanha a história de um talentoso e endividado escritor que, de seu pequeno vilarejo, escuta falar sobre a mais nova invenção da capital: a famosa máquina de imprensa. Com desejo de ampliar a venda de seu mais recente romance, o autor se endivida ainda mais para conseguir comprar a copiadora mecânica. No elenco, estão André Marcos, Clarisse Zarvos, Diogo Nunes, Julia Pastore e Ademir de Souza. “Sem compromissos rígidos em dar conta de fatos históricos, a fábula está mais preocupada em se perguntar o que acontece com a sociedade quando surgem avanços que transformam a capacidade de reprodutibilidade de obras e ideias. Como a ampliação dos meios de reproduzir discursos impacta na transformação social e no imaginário dos indivíduos?”, questiona a autora e diretora Cecilia Ripoll.

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