Scooby-Doo revive na poesia de Guilherme Briggs

Scooby-Doo revive na poesia de Guilherme Briggs

Rodrigo Fonseca

07 de agosto de 2020 | 15h40

Guilherme Briggs e seu Teatro de Bonecos, com o cachorro Tobias e o fashionista Estrelinha na Testa

Rodrigo Fonseca
Alvo do preconceito, da invisibilidade e de um crime patrimonial chamado redublagem, a arte da “versão brasileira”… ou dobragem, como dizem os portugueses…. tem em Guilherme Briggs um super-herói da resistência e da sofisticação, que não apenas se renova de filme em filme e de série em série, como avança, no carinho dos fãs, como um dos mais queridos artistas deste país. Briggs É – com a mais maiúscula das conjugações do verbo “ser” – a encarnação nacional de Dwayne “The Rock” Johnson, do Padrinho Mágico Cosmo, do Buzz Lightyear e de Denzel Washington. Basta rolar uma CCXP ou uma Anima Friend que ele estará lá como celebridade. Durante toda a semana, a incerteza dos fãs acerca de sua presença (ou não) na boca de Henry Cavil no “Snyder Cut” de “Liga da Justiça” (2017) mobilizou uma grita generalizada na internet. Como já lhe é peculiar, Briggs foi um cavalheiro e não se manifestou, sem opinar sobre as decisões dos estúdios, fiel apenas à opção de dublar por home studio, para respeitar medidas de segurança contra a Covid-19, e não deixar brechas para o coronavírus. Sempre respeitoso com as trupes de voz com as quais contracena, ele dá o recado que precisar – ou seja, brilha – nas bandas sonoras de produções como “Scooby! O Filme”, de Tony Cervone, animação recém-chegada à VoDosfera. Centrada na origem dos personagens Scooby-Doo e Salsicha, e na arrancada da Máquina do Mistério, o longa-metragem acaba de ser lançada pela Warner Bros. em plataformas digitais de Video on Demand como SKY Play, VIVO Play, Google Play, Apple TV, Microsoft Store, Play Station Store, Uol Play, WatchTV, TMWPix, Brisanet e Veroplay.
“Eu adoro quando Scooby e Salsicha quebram a quarta parede e deixam claro para seus espectadores que são falsos monstros enfrentando monstros que, em si, não existem, enquanto enchem a barriga de comida. E eles vivem como se estivessem nos anos 1960, quando o desenho surgiu. No Brasil, os personagens ganharam de dois gênios da nossa dublagem, Orlando Drummond e Mario Monjardim, reinterpretações que caracteriza os dois como tipos bem próximos de nossa cultura”, diz Briggs ao P de Pop, emocionando por ganhar um papel que o hoje centenário Durmmond fez durante anos a fio no cinema e na TV. “Antes de mim, o Reginaldo Primo ganhou o papel e fez a dublagem do Scooby com muito talento e carinho. Recentemente, num gesto de nobreza sem tamanho, ele me procurou para passar o personagem pra mim, pedindo que eu homenageasse Orlando ao fazer uma voz mais próxima da dele. Foi uma atitude linda de um colega querido. Orlando um ídolo pra mim e Reginaldo fez algo que provou sua grandeza. O que eu tento fazer aqui é buscar o melhor do Drummond sem imitá-lo, investindo no componente emocional por trás da personagem”.

Criado em 1969, Scooby-Doo tem, lá fora, o vozeirão de Frank Welker, ator que encarna Scooby há 50 anos, além de ter “interpretado” Tiamat em “Caverna do Dragão”. Agora, aqui, ele conta com a versatilidade de Briggs, que, aos 50 anos, vai completar três décadas de dublagem em 2021, tendo começado pelos estúdios da VTI Rio, fazendo um vozerio em “Hooperman”. E ele imortalizou o refrão “Eu me remexo muito” no Rei Julien de “Madagascar”. “Eu aprendi muito com esta pandemia, durante as discussões acerca do home studio, e vi o melhor e o pior de muita gente da classe. É preciso cuidado com o outro. E eu levo esse cuidado para a dublagem”, diz Briggs, que faz um duo com Fernando Mendonça, incumbido de assumir o papel de Salsicha. “Minha vibe não é atuar em teatro, não é aparecer nas câmeras. Gosto de dublar e de ser cuidadoso em tornar orgânico aquilo que as pessoas ouvem. O Português aproxima o espectador da imagem. E é preciso que esse Português esteja ali sem exibicionismo, com o cuidado de entendermos como o personagem sente, como ele é”.
Por aqui, Fernanda Barone e Flávia Saddy dublam Velma e Daphne, sendo que Fred coube a Felipe Drummond.

Briggs com Orlando Drummond: Scoobys

p.s.: Em ascensão nas telas depois de seu inquieto trabalho em “Aos teus olhos” e “Canastra suja”, firmando-se como um dos talentos mais potentes do audiovisual nacional da atualidade, o fotógrafo Azul Serra empresta a “Berenice procura” um colorido saturado, meio brega, quase na linha da estética neon noir dos anos 1980. O filme será exibido pela TV Globo/ Globoplay neste sábado, às 2h20, no “Corujão”. Essa luz de Serra dá a este doloroso thriller um prisma vintage. Esse sabor de “foi aí”, de coisa antiga que ficou, é reforçado pela escolha do táxi como signo de deslocamento numa cidade (o Rio) e num tempo (o hoje) que andam de Uber.

p.s.2: Será exibido nesta segunda-feira, às 19h20, no Canal Brasil, o documentário “Lorna Washington – Sobrevivendo a Supostas Perdas”, com direção da dupla Leonardo Menezes e Rian Córdova. O documentário mostra a trajetória da transformista Lorna Washington, com 42 anos de carreira. O longa revela bastidores de shows LGBTQi+. Entre os entrevistados, a atriz Rogéria (em uma de suas últimas entrevistas em vida), a cantora Alcione, o carnavalesco Milton Cunha, o ativista político Almir França e as performers Rose Bombom e Isabelita dos Patins falam sobre estratégias de resistir. Conhecida por sua versatilidade, elegância e pelas opiniões polêmicas, Lorna Washington fez história em boates que marcaram época como: Papagaio, de Ricardo Amaral, Sótão, Le Boy e 1140. Sua militância na luta contra o preconceito e sua peleja pela conscientização sobre o HIV também a levaram à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para receber uma homenagem. O .doc é uma história de lutas.

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