Saudades, ‘Ana, Mon Amour’

Saudades, ‘Ana, Mon Amour’

Rodrigo Fonseca

25 de fevereiro de 2021 | 09h40

RODRIGO FONSECA
Centrado no rebuliço causado pelo vazamento de um vídeo com duas pessoas transando de máscara, “Babardeală cu bucluc sau porno balamuc” (em inglês “Bad Luck Banging or Loony Porn”) é encarado como um dos títulos mais esperados do 71. Festival de Berlim, que começa nesta segunda, agitando a flâmula crítica de excelência da Romênia nas telas. De lá vieram alguns dos melhores filmes das últimas duas décadas, entre eles “Ana, Meu Amor”, que foi laureado com o Prêmio de Contribuição Artística (melhor montagem) na Berlinale de 2017 e nunca estreou por aqui. Agora, com a participação, em concurso de seu conterrâneo Rádio Jude, esse melodrama esturricado há de ser relembrado.

Há mais de uma década, a Romênia virou a pátria cinematográfica do desconserto e, com “Ana, Mon Amour” (título original desse tratado sobre dependência afetiva), aquele país finca uma vez mais sua bandeira autoral no peito da indústria audiovisual. Parece “Cenas de Um Casamento” (1974), de Bergman, só que com jovens na casa dos 20 poucos anos. Jovens acossados por instituições como a Saúde e a Educação, como é marca registrada da Primavera Romena, a onda mais sólida do cinema, entre as tendências de CEP determinado, dos últimos 16 anos. E seu artífice, o diretor Cãlin Peter Netzer, já foi laureado em Berlim, em 2013, por Instinto Materno, com um Urso de Ouro, firmando-se como um dos cineastas mais sólidos de sua pátria e de todo o Velho Mundo. É um cineasta que força seu público a purgar quase duas horas no interno da possessão romântica – vista sob uma ótica distanciada, mas que dói no nosso peito.

Tem muita coisa não dita entre Ana (a majestosa Diana Cavaliotti) e Toma (Mircea Postelnicu, de alta voltagem trágica), dois estudantes de Letras que se conhecem na universidade e passam anos juntos, indo do querer na plenitude ao desmame lírico em uma aposta mútua na pertença.
“A palavra ‘mútuo’ é a chave de tudo aqui, pois é uma opção de ambos, por uma necessidade de sofrimento, a manutenção daquela história a dois”, disse Netzer, cuja narrativa embaralha presente, passado e uma sessão de análise na qual Toma tenta entender o que é inconsciente e o que é vida prática.

Ana e ele mal saíram da faculdade, mas optam por um casamento que vai embolando dissabores, ciúmes, rejeição dos pais, traumas antigos, a chegada de um bebê e o desapego. Há uma farpinha do filme contra Paulo Coelho, numa cena em que Toma, já formado, trabalhando para um jornal, esnoba o autor de “O Diário de um Mago”. Farpas caem também sobre a Igreja, que tem um papel sufocador sobre estes leitores da obra de Nietzsche, pois, diferentemente do filósofo, nem todos acreditam na morte de Deus ou no crepúsculo dos ídolos. Um padre, vivido pelo ator romeno Vlad Ivanov, é o primeiro a avisar a Toma de que um casal deve saber tudo (possível) um sobre o outro antes de dividirem o mesmo teto. Mas os conselhos do Senhor não são ouvidos. Os de Freud até são, mas as sessões de análise têm hora marcada, como o longa dos lembra, num gesto irônico: um diálogo. Há muitos diálogos bons, mas a aparência documental da fotografia tira o foco das palavras, sobretudo quando Toma vai entrando em uma decadência física.

Há uma genealogia à qual “Ana, Mon Amour” pertence. Ela se refere a esta noção de Primavera Romena, iniciada há 12 anos quando “A Morte do Senhor Lazarescu” (2005), Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, ganhador da Palma de Ouro em 2007; “California Dreamin’”, de Cristian Nemescu; e “O Tesouro” (2015), de Corneliu Porumboiu, e “Sieranevada”, do já citado Puiu. O filmaço de Netzer é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem.

p.s.: Afinada com a urgente necessidade de se erradicar o racismo, a Globo escala o genial Idris Elba como destaque de sua madrugada: à 1h40 rola “Mandela: O Caminho Para a Liberdade” (“Long Walk to Freedom”, 2013), do inglês Justin Chadwick. É um dos muitos trabalhos que deveriam ter levado o genial ator britânico de 48 anos ao Oscar. A biopic escalada pela Globo relembra o percurso de Nelson Mandela desde a sua infância, em um meio rural, até a eleição democrática ao cargo de presidente da África do Sul, combatendo o apartheid. Marco Antônio Abreu dubla Elba no longa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.