‘Saudade do Futuro’, um fado documental

‘Saudade do Futuro’, um fado documental

Rodrigo Fonseca

19 de dezembro de 2021 | 11h12

Tocante longa de Anna Azevedo conquistou o troféu Candango em Brasília e será exibido neste domingo, às 15h, no Estação NET Rio

RODRIGO FONSECA
Termina esta noite, com uma projeção de “O Beco do Pesadelo”, de Guillermo Del Toro, a 23ª edição do Festival do Rio, que incluiu, em sua despedida uma projeção do ganhador do troféu Candango de melhor filme de 2021: “Saudade do Futuro”, da carioca Anna Azevedo. Sua passagem pelo Festival de Brasília foi consagradora. Em sua mais lúdica investigação sobre as lacunas existenciais que unem (apesar de abismos sociais dos mais diversos) os povos lusófonos, a cineasta transcende os traumas coloniais ao passear por Portugal, Brasil e Cabo Verde com uma mirada documental pautada por uma onipresente ausência… ora de sentido, ora de revolução, ora de paz. Aclamada pela Berlinale com seus curtas “BerlinBall” (2006), “Dreznica” (2008) e “Em Busca da Terra Sem Males” (2017), Anna volta aos cinemas percorrendo três continentes, sempre detectando lastros de fascismo. A projeção dele está marcado para 15h no Estação NET Rio.

Como a forma de “Saudade do Futuro” foi se impondo – ou foi se transformando – em meio à filmagem?
Anna Azevedo:
O roteiro inicial já previa o formato de conversas entre personagens. Para além disso, diria que o filme foi moldado em dois momentos decisivos. O primeiro se deu durante as pesquisas, quando os personagens apontavam para uma espécie de instrumentalização da saudade. Isso rendia boas discussões, o que me convenceu de que a forma de conversas entre personagens de fato resultaria em boas performances. O segundo momento foi durante o longo processo de montagem. Nessa etapa, o mar se impôs como elemento unificador das sequências, o trânsito da saudade passaria pelo mar – até porque é o Atlântico que une os três continentes retratados no filme. Foi quando todas as sequências filmadas sem o elemento mar como coadjuvante foram eliminadas.

Quando e como é que você detectou uma conexão entre “saudade” e “controle”, numa possível instrumentalização da ausência?
Anna Azevedo:
Durante as pesquisas, conversando com os pescadores de bacalhau. O fascismo não saía da boca deles. Sempre faziam questão de pontuar que o fascismo de Salazar se fazia presente na atividade piscatória. Parti, então, para uma pesquisa paralela sobre o período e a pesca do bacalhau. E a violência da pesca contrastando com a publicidade estatal para promover a atividade era gritante. Havia, por exemplo, “A Hora da Saudade”, programa de rádio dedicado à comunicação entre pescadores, os que ficavam cinco, seis meses embarcados nas águas frias do Norte, e os familiares, em Portugal. Era preciso dar contornos românticos e heroicos à saudade, para encobrir a barbaridade do dia a dia que a eclodia.

Que projetos estão por vir?
Anna Azevedo:
A crise climática nos joga nesse mesmo vácuo de futuro. E esse é o tema do meu próximo filme, “À Prova de futuro”, sobre a queda de braço pelo futuro da humanidade.

Na noite de sábado, a Première Brasil do Festival do Rio encerrou sua seleção de inéditos sob a tensão do thriller “Alemão 2”, o “3:10 to Yuma” (“Galante e Sanguinário”) de José Eduardo Belmonte, com Vladimir Brichta de Glenn Ford e (um devastador) Digão Ribeiro de Van Heflin no subúrbio carioca, em meio a uma missão policial desastrada. As aparições de Zezé Motta, no papel de uma enfermeira acossada pelo tráfico e pela Polícia Civil, são de aplaudir de pé. Do filme original, que vendeu cerca de 995 mil ingressos, só ficou Mariana Nunes, que esmerilha com inteligência a figura da moradora de favela que conhece a lei do cão… e do Caveirão. Leandra Leal sustenta o arquétipo de sua personagem, a tira novata Freitas, com o garbo habitual, soprando humanidade por todos os poros.

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