Saraceni, pedacinho colorido de saudade

Saraceni, pedacinho colorido de saudade

Rodrigo Fonseca

02 de fevereiro de 2020 | 11h30

Rodrigo Fonseca
Neste dia de Iemanjá, ao devolver à tela grande o frenético documentário “Banda de Ipanema – Folia de Albino” (2003), a Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), no Aterro do Flamengo, está abrindo uma jira para Paulo Cézar Saraceni (1933-2012), de modo a aquietar, um pouco, as nossas saudades de um dos pilares do Cinema Novo. A projeção é uma deixa para que se comemore, ainda que tardiamente, os 60 anos de carreira do mítico cineasta, que foi um ás do escrete juvenil do Fluminense, na década de 1950, antes de trocar os gramados pela câmera na mão. Dono de um agudo olhar etnográfico centrado na percepção de inquietações afetivas à beira de uma detonação, ele registrou as celebrações do carnaval de rua, a partir de um dos mais populares blocos do Rio de Janeiro, no longa-metragem que o MAM (sob a curadoria do crítico Ricardo Cota) exibe neste domingo, às 17h. A partir das memórias de Albino Pinheiro (1934-1999), Saraceni registra a batalha dos foliões da Zona Sul carioca para debelar múltiplas práticas do moralismo, celebrando a inclusão de uma população trans habitualmente vítima de marginalizações. A atenção do diretor (cujo primeiro nome é grafado Paulo César, muitas vezes) para modos de viver relegados à margens sociais brota já em “Porto das Caixas” (1959), feito em duo com o artista plástico Mário Carneiro, e explode em sua obra-prima: “A Casa Assassinada” (1971), que merece uma revisão crítica urgente. São dele ainda os seminais “Natal da Portela” (1988) e “O Gerente” (2011), seu canto de cisne, que foi lançado na Mostra de Cinema de Tiradentes, em tributo ao realizador. Realizador esse que sempre lançava mão de Rosselini e Lupicínio Rodrigues quando precisava definir a realidade de seu país. “Fui ao cinema com Glauber Rocha, uma vez, já no fim da vida dele, ver um filme com o Richard Gere, aquele ‘Gigolô Americano’, e lembro de ele me olhando, ao fim da projeção, com uma cara curiosa, e perguntando: ‘Paulo Cézar, você sabe fazer isso aí? Por que se não souber, você está f…’, ironizava ele, meu amigo, ao pensar as práticas hegemônicas do cinema de Hollywood que silenciavam a poesia”, dizia Saraceni. “Rossellini me mostrou que o cinema faz revolução quando se recusa a aceitar o que nos é imposto”.

Antes da sessão de “Banda de Ipanema – Folia de Albino”, o MAM projeta a chanchada “Berlim na batucada” (1944), de Lulu de Barros, às 15h.

p.s.: Tem Mike Leigh na TV aberta neste domingo: às 16h, a Band exibe “Simplesmente Feliz” (“Happy-Go-Lucky”, 2008), que rendeu a Sally Hawkins o prêmio de melhor atriz, no Festival de Berlim, e o Globo de Ouro. Na trama, ela vive Poppy, uma normalista que abraça a felicidade como forma de enfrentar as lutas de classe da Inglaterra.

p.s.2: A “Sessão da Tarde” desta segunda é o delicioso “A Proposta” (“The Proposal”, 2009), com Sandra Bullock no papel de uma executiva carrasca que forja um casamento com seu funcionário mais maltratado (Ryan Reynolds) a fim de evitar sua deportação para o Canadá. A atriz está trabalhando agora com a cineasta alemã Nora Fingscheidt, realizador do premiado “System Crasher” (2019), em um longa, ainda sem título, sobre uma ex-presidiária que busca se ressocializar.

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