Sara Gómez e a glória de Cuba nas telas

Sara Gómez e a glória de Cuba nas telas

Rodrigo Fonseca

19 de agosto de 2020 | 12h43

A diretora cubana Sara Gómez (1943-1974) é um dos expoentes da representação da resiliência feminina e das lutas raciais no cinema das Américas

Rodrigo Fonseca
Só faz crescer, na web, a procura pelo terrir “Juan dos Mortos” (2011) e pela animação “Vampiros en La Habana” (1983) depois da controvérsia do programa “Roda Viva” de segunda-feira na qual o apresentador Marcelo Tas afirmou ao comediante Marcelo Adnet não existirem humoristas em Cuba. Essa polêmica deflagrou uma corrida pelo pop no audiovisual da terra de Fidel, fazendo quicar a presença da minissérie “Quatro Estações em Havana” (2016), na Netflix, e do filmaço “Últimos Dias em Havana” (2017), de Fernando Pérez, na Amazon Prime. Mas o que esse zumzumzum gerou de mais significativa foi a possibilidade de se falar sobre um dos nomes mais importante daquela cinematografia, a diretora Sara Gómez (1943-1974), consagrada postumamente por “De Cierta Manera” (1977). Egressa de Guanabacoa, onde cresceu sob a guarda de avós paternos e de tios em uma família ligada à Filarmônica de Havana, ela é um dos pilares da representação feminina no ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos), como uma mirada que partia do registro etnográfico pra construir sua poética inclusiva. Como cineasta revolucionária, a realizadora de “Plaza Vieja” (1961) e “Solar Habanero” (1962) estava preocupada em representar a comunidade afro-cubana, os dilemas enfrentados pelas mulheres de sua pátria e o cotidiano dos setores marginalizados da sociedade. No cinema de Sara, identifica-se os problemas do colonialismo.

“Nos documentários de Sara, mostra-se a contribuição da revolução para diminuição das diferenças entre brancos e negros. Porém, ainda assim, a discriminação racial se apresenta como um processo que tem sido longo e lento”, destaca o pesquisador Pedro Javier Gómez Jaime, em um trabalho acadêmico sobre Sara. “A cineasta marca em Cuba não apenas um ícone por ser a primeira mulher cubana que se dedicou à realização cinematográfica, mas pelo imaginário que carregam as suas filmações, procurando um mundo democrático trasladando ao cine seu próprio contexto. Seu trabalho possibilita ainda hoje um diálogo entre aspectos de índole ética, tanto quanto outros de índole estética ou política, e logra isto sem se distanciar dos problemas do seu cotidiano. Montava, portanto, suas narrativas cinematográficas utilizando as testemunhas das pessoas nas ruas, nos campos, nos acampamentos de trabalhadores das mais diversas áreas os que coincidiam com as classes populares ou com menor acesso econômico e que por sua vez mostravam o drama do seu mundo fora do alcance do discurso oficial”.

A filmografia completa de Sara:
1961 Plaza Vieja (Enciclopedia Popular # 28, 8’)
1962 Solar habanero (Enciclopedia Popular # 31, 10’)
1962 Historia de la piratería (Enciclopedia Popular Número Especial, 10’)
1962 El solar (Enciclopedia Popular Número Especial, 10’)
1964 Iré a Santiago (Doc. 15’)
1964 Excursión a Vuelta Abajo (Doc. 10’)
1965 Guanabacoa: crónica de mi familia (Doc. 13’)
1966 … y tenemos sabor (Doc. 30’) 1967
1966 En la otra isla (Doc. 41’)
1968 Una isla para Miguel (Doc. 22’)
1968 Isla del tesoro (Doc. 10’)
1969 Poder Local, Poder Popular (Doc. 9’)
1970 Un documental a propósito del tránsito (Doc. 17’)
1971 De bateyes (Doc. 20’)
1971 Atención pre-natal(Doc. 10’)
1972 Año uno (Doc. 10’)
1972 Mi aporte (Doc. 33’)
1972 Sobre horas extras y trabajo voluntario (Doc. 9’)
1974 De cierta manera (79 min)

p.s.: Às 19h, o Youtube e o Facebook da Festa Literária das Periferias (Flup) dá voz à atriz Maria Gal e ao cineasta Jeferson De, sob a mediação do pesquisador Evandro Luiz da Conceição, para um papo (a)live sobre os 60 anos de lançamento do livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Vai ser uma conversa sobre literatura, sobre audiovisual e sobre inclusão, pautada na luta cotidiana (pela vida) das populações negras no Brasil.
p.s.2: Tem Olivier Assayas na Globo esta madrugada: às 2h tem “Acima das Nuvens” (“Clouds of Sils Maria”, 2014), que valeu ao diretor francês uma indicação à Palma de Ouro em Cannes. Num desempenho memorável, Juliette Binoche vive uma atriz que repensa sua carreira e suas angústias em relação à arte e à vida, depois que o trabalho que consagrou-a em seus primeiros anos de trajetória profissional, ganhará um remake. Kristen Stewart rouba a cena como sua fiel confidente, num papel que rendeu a ela o César de melhor coadjuvante.

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