San Sebastián leva Carlos Saura inédito às telas

San Sebastián leva Carlos Saura inédito às telas

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2021 | 08h59

Rodrigo Fonseca
Cinco dias depois do anúncio da competição de Veneza, às vésperas de Locarno começar, com a projeção do thriller “Becket” (produzido por Rodrigo Teixeira), San Sebastián, um dos mais antigos integrantes do G7 dos grandes festivais de cinema do mundo, sediado no norte da Espanha, divulgou nesta sexta-feira mais uma leva de atrações, desta vez, filmes ibéricos e hispano-americanos. E há um Carlos Saura inédito entre eles, pronto para brilhar nas telas de Donostia (nome da cidade no idioma local, o Euskara), durante a maratona, que vai de 17 a 25 de setembro, com direito a uma exibição dos cinco episódios da série “La Fortuna”, dirigida por Alejandro Amenábar (de “Os Outros”), sobre as aventuras de um jovem diplomata atrás de um tesouro perdido. Aos 89 anos, o veterano realizador de joias como “Cria Cuervos” (1976) regressa às telas com “Rosa Rosae. La Guerra Civil”, cum curta-metragem sobre crianças maculadas por conflitos armados, calcada em uma canção de José Antonio Labordeta, em fotografias de arquivo e em desenhos assinados pelo próprio diretor. A inclusão desse curta pode ser o pontapé para reativar a cinebiografia de Pablo Picasso com a qual ele sonha há décadas, tendo Antonio Banderas no papel principal, e um pontapé para um outro projeto ficcional. Realizador de marcos do cinema como “A Prima Angélica” (Prêmio do Júri em Cannes, em 1974) e “Depressa, Depressa” (Urso de Ouro de 1981), Saura ainda planeja voltar à ficção com um longa-metragem musical sobre o folclore mexicano. Definido pelo Internet Movie Database (IMDB) com status de pós-produção, o projeto se chama “El rey de todo el mundo” e vai misturar dança e encenação, tendo como protagonista o bailarino Isaac Hernández. Espera-se que vá ser exibido na Berlinale de 2022.
“Nunca fui um diretor conectado com contos de fadas, pois sempre preferi explorar o real, com toda sua complexidade, pautada pelo desejo. A fantasia que cabe nos filmes que faço é a transição entre o presente e o passado”, disse Saura em recente entrevista à imprensa espanhola, quando falou pela primeira vez sobre o longa que vai rodar em Gudalajara. “Nunca me afastei do apuro técnico típico da ficção mesmo nos tempos em que fiquei dedicado apenas a documentários: os meus sempre tiveram cenografia e uma engenharia fotográfica que buscasse requinte. A realidade comporta em si algo de fabular ao gerar memória: algo bem próximo da ilusão”.

O cineasta espanhol em foto de Pipo Fernández, em Donostia, em 2017

Parte do processo começou quando o cineasta foi homenageado no Festival de Guadalajara, em março de 2018, aproveitando a viagem para estudar a cultura mexicana, que já admira há tempos. Um de seus filmes mais festejados, “Antonieta” (1982), com Hanna Schygulla e Isabelle Adjani, foi parcialmente rodado no México. Agora, em “El rey de todo el mundo”, a ideia do cineasta é retratar 60 anos da vida de Guadalajara tendo canções populares do local como guia de uma narrativa com tintas de melodrama.

Há mais uma penca de projetos espanhóis (14 ao todo) na 69ª edição do Festival de San Sebastián, sendo que quatro deles estão no páreo pela Concha de Ouro. Estão em concurso: “Maixabel”, de Iciar Bollaín (sobre os conflitos com o terrorismo do ETA); “El buen patrón”, uma nova reflexão marxista de Fernando León de Aranoa (de “Segundas-feiras ao Sol”), com Javier Bardem; o terror “La Abuela”, do mestre do assombro Paco Plaza; e “Quién lo impede”, de Jonás Trueba, que traz uma reflexão sobre a juventude europeia hoje. Indicado ao Leão de Ouro, “Competencia Oficial”, dos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, vai estar em Donostia na abertura da mostra Perlak (Pérolas). O novo filme dos realizadores de “O Cidadão Ilustre” (2016) troca a Argentina natal pela Espanha. Lá, a dupla narra a trama de dois atores de estilos muito diferentes (Antonio Banderas e Oscar Martínez) que entram em conflito durante a preparação de um filme financiado por um milionário ganancioso e realizado por uma cineasta cheia das excentricidades, vivida por Penélope Cruz.

Novidades de Sán Sebastián serão anunciadas nas próximas semanas. Estima-se que o evento vai prestar uma homenagem a Terrence Malick, exibindo seu inédito “The Way Of The Wind”, sobre a vida de Jesus Cristo. Estima-se ainda que “Feu”, o novo longa de Claire Denis, vá estar na disputa pela Concha dourada. Nele, a diretora de “Bastardos” (2013) põe Juliette Binoche num dilema amoroso entre um amor maduro do passado e um querer jovial do presente.

p.s.: A nova adaptação da premiada peça “Conselho de Classe”, de Jô Bilac, com direção de Fabio Fortes, faz mais três apresentações: de sexta a domingo, às 20h, no canal do Youtube do Festival Niterói em Cena (www.youtube.com/channel/UCDogXa3n4rtuBVg23M5CEhg). O espetáculo, que reflete sobre a precariedade do ensino público no país, reúne Carmen Frenzel, Dárdana Rangel, Fábio Enriquez, Jacqueline Lobo, Vivian Sobrino e Teuda Bara (voz em off). A trama acompanha uma reunião de conselho escolar, em uma escola pública carioca, depois de uma diretora ser agredida por alunos e entrar em licença médica.

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