‘Sangue Latino’ traduz em poesia nosso continente na TV

‘Sangue Latino’ traduz em poesia nosso continente na TV

Rodrigo Fonseca

21 de fevereiro de 2017 | 15h03

Fernanda Montenegro abre o peito para Eric Nepomuceno em

Fernanda Montenegro abre o peito para Eric Nepomuceno em “Sangue Latino”, o maior espaço de trocas da TV brasileira

RODRIGO FONSECA
É difícil não passar em revista todo o cinema brasileiro feito de A Falecida (1965) pra cá quando se ouve a reflexão de Fernanda Montenegro a Eric Nepomuceno no episódio 1 da nova temporada do programa Sangue Latino no Canal Brasil: “Tenho medo que a memória se vá”, diz a diva maior do Teatro Brasileiro, discutindo sobre o esquecimento. Nesta quarta, às 21h, é a vez de o jornalista e escritor ouvir o ator e diretor Selton Mello. Com um uso requintado do preto e branco, com inserções de vermelho aqui e acolá, a série de conversas de Nepomuceno parecia ser (e é) uma aula de jornalismo na TV, mas transcendeu essa condição, aproximando-se mais do ethos do documentário do que da lógica jornalística para ser uma lição viva (e quente) sobre a latinidade, em suas mais variadas (e dolorosas) latitudes. Nesta entrevista com seu “protagonista”, veias do continente que ainda não tinham sido abertas derramam gotas de generosidade documental.

  Ao longo de anos de entrevistas com pensadores e com gente de ação do nosso continente, de que maneira o Sangue Latino se renovou como programa e o quanto ele serve de termômetro para as inquietações éticas do continente?
Eric Nepomuceno: Criador e diretor do programa, o documentarista Felipe Nepomuceno tem esta preocupação – preservar a essência, mas renovando-se, acrescentando novas perguntas e buscando novos ângulos de abordagem. Mais do que termômetro para as inquietações éticas do continente (coisa que também é…), a ideia do programa é funcionar como um registro do que pensam aquilo que o Felipe chama de “mentes inquietas”. E não só as do continente, mas do universo latino. Cada episódio é uma espécie de ladrilho daquilo que pretende ser um grande painel. Além de tratar de traçar o perfil do convidado, levando o espectador a ter a sensação de estar participando da conversa, a ideia é levantar um arquivo do pensamento e da maneira de ser de gerações de personalidades do universo latino.

O quanto esse programa afinou a sua relação com a arte da entrevista e, de que maneira, no exercício dessa arte o jornalismo que existe em você vai virando algo mais do que perguntas e repostas?
Nepomuceno: Sempre fico meio assim-assim quando falam, com relação ao programa, em “entrevista” ou “jornalismo”. Prefiro chamar de conversa que trata de traçar um perfil, e falar em documentário mais do que jornalismo… em todo caso, acho que você mesmo dá a resposta, ao mencionar o programa – reitero: criado e dirigido por um documentarista… – como algo que virou mais do que perguntas e respostas…

http://canalbrasil.globo.com/programas/sangue-latino/

Como você vê a situação cultural do continente hoje e onde a arte brasileira entra nesse pacote?
Nepomuceno: Falando da América Latina, entendo que os movimentos culturais vivem ciclos – às vezes de maior, outras de menor intensidade – sempre muito consistentes. Acredito firmemente que, ao escrever na América, os escritores escrevem a América. O mesmo vale para pintores, músicos, dramaturgos, cineastas, poetas… Criar, na América, é uma forma de criar a América, retratar a realidade que aí está e propor que se busque e encontre as realidades ocultas, outras realidades possíveis. É nas artes e na cultura que encontramos nossa identidade – tanto a individual, nacional, como a coletiva. O Brasil é um caso à parte. É o único país da América Latina onde se fala em “literatura latino-americana” ou “música latina” para se referir aos que é feito na América hispânica. Assim, nós mesmos marcamos distância, negando nossa realidade. Dia desses, ouvi na Rádio Roquete Pinto – emissora pública – alguém anunciar o nosso Ednardo, daquele Pavão Mysterioso com ‘y’, cantando “uma música latina”, o bolero Noches de Ronda. Ora, o brasileiro e nordestino Rdnardo não é latino-americano como eu e você? O que somos: nórdicos, austríacos? Além disso, falta, há décadas, uma política de estado para promover a integração cultural do Brasil com seus vizinhos. A não ser em alguns segmentos específicos – a música popular, por exemplo -, pouco do que fazemos circula de maneira eficaz. São poucos os escritores e poetas publicados, os filmes circulam pouco, enfim, tudo é pouco…

Quais são as próximas atrações desta sétima temporada e quando você vai fazer um livro das conversas do programa?
Nepomuceno: Teremos ainda Armando Freitas Filho, Luiz Carlos Barreto, Gregório Duvivier. Gravamos, além do Brasil, na Colômbia, com um naipe de altíssimo nível: a artista plástica Carmen Molina, o escritor Juan Gabriel Vázquez, a atriz e dramaturga Patricia Ariza. Entre julho e agosto filmaremos a oitava temporada. Já foram mais de cento e vinte episódios desde a estreia da série, em 2010. O livro com estas conversas está nos meus planos há uns bons anos. Mas, primeiro, preciso terminar os outros, nos quais estou trabalhando.

 

 

 

 

Tendências: