Sandra Werneck em éticas, poéticas, empatias

Sandra Werneck em éticas, poéticas, empatias

Rodrigo Fonseca

27 de novembro de 2020 | 13h00

Às 19h desta sexta-feira, Sandra Werneck fala com os inscritos do seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Aplaudido no Panorama da Berlinale de 2006 por sua delicada investigação sobre a vida de adolescentes em devir mãe na periferia, “Meninas”, um documentário cerzido no arame farpado da perplexidade sociológica com o alicate da delicadeza, vai servir de farol ao debate sobre o cinema de afetos da carioca Sandra Werneck no simpósio Na Real_Virtual. Inaugurada no dia 4 de novembro, a fase dois do evento estruturado pelo cineasta Bebeto Abrantes e o decano da crítica Carlos Alberto Mattos está chegando ao fim na semana que vem. Neste 27/11, tem a fala da realizadora de “Sonhos Roubados” (ganhador do prêmio de júri popular do Festival do Rio de 2009); segunda tem Evaldo Mocarzel, do necessário “Do Luto À Luta” (2005); e, na quarta, Walter Salles, ganhador do Urso de Ouro de 1998 com “Central do Brasil”. O papo com Sandra vai ter a representação da juventude como eixo, partindo de seu filme de arranque, “A Guerra dos Meninos” (1991), e chegando a trabalhos mais recentes como “Meu Com Uma, Mexeu Com Todas” (2017), um aulão de sororidade que o Canal Curta! transformou num hit.
“Sou curiosa e inquieta, sobretudo com a distopia social do nosso país. Os filmes a que assisto, assim como o ato de andar pelas ruas do Rio de Janeiro, provocam-me o tempo todo. Provocam-me a apontar o refletor para tantas realidades e desnuda-las para o público, promovendo um debate amplo e compartilhando nossas responsabilidades como sociedade, discutindo o que podemos fazer para transformar o mundo, seja na nossa rua ou no nosso país”, diz a cineasta, laureada em Sundance, em 2001, com “Amores Possíveis”.

Seu trabalho mais recente, “YouTubers”, lançado este ano, também no Curta!, com foco em vozes mobilizadoras das redes sociais, foi dirigido a quatro mãos com Bebeto Abrantes, que divide a curadoria do Na Real_Virtual com Mattos. A pedido do P de Pop, BA preparou uma comovente reflexão sobre a estética de sua parceira de trabalho. Além de prolífico roteirista e cineasta, Abrantes também é professor, daqueles com P de potência, pertinência e permanência, como se confere a seguir:
“Trabalhei com Sandra Werneck nos anos 1990 e depois em 2005/06, roteirizando o filme MENINAS, cujo o maior desafio era levantar algumas perguntas sobre os alarmantes índices de gravidez adolescente que, à época, explodiam na mídia. Sim, perguntas, que pudessem abrir pistas, sem preconceitos e sem certezas, sobre esse fenômeno. (Como verão mais à frente, voltei a trabalhar com ela, em 2019…rsrs)
A primeira e importante característica da obra de Sandra é sua aguçada sensibilidade para temas do momento, que estão no ar e ela, em geral, é a primeira a pegar. Foi assim, com o outro filme-âncora de nossa Sessão do NA REAL_VIRTUAL Parte 2: A GUERRA DOS MENINOS (1991). O tema da matança indiscriminada de crianças e jovens que viviam e vivem nas ruas de nossas periferias, pelos chamados Grupos de Extermínio, ainda não tinha sido abordado por nenhum documentarista. Sandra foi lá e fez o premiado filme, que inclusive abriu caminhos para outras obras produzidas anos depois, como NOTÍCIAS DE UM GUERRA PARTICULAR, de João Moreira Salles.
Recentemente, Werneck lançou YOU TUBERS, outro fenômeno que estava na cara de todos nós e ela pegou no ar, para analisar e revelar. É um fenômeno que questiona muitos paradigmas, muitas velhas verdades nas quais a grande mídia, nas últimas décadas, apoiou-se. Convidado por ela, novamente aqui, tive o prazer de trabalhar com Sandra, dividindo a direção do filme.
A segunda e importante característica é que, embora Sandra não faça um cinema de narrativa híbrida, ela desentranha de seus .docs os temas para alguns de seus filmes de ficção, como é o caso de SONHOS ROUBADOS (2009). Este, numa primeira e mais evidente leitura, também trata da questão da gravidez adolescente.
A alma de documentarista que está lá na origem de sua carreira cinematográfica. Ela impregna todos os seus filmes, sejam FIC’s ou DOC’s. Para isso basta lembramos o filme CAZUZA – O TEMPO NÃO PÁRA, uma ficão com total cara, clima e pegada de .doc.
Mas, essas considerações referem-se apenas a uma pequena parte de seu trabalho. Estejam certos”
.

No frigir das inquietações documentais das Américas, o Na Real_Virtual rola sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas, e vai deixar imensas saudades quando terminar, com a promessa de virar livro e, quiçá, filme: “O .doc dos .docs”. Na torcida.

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