‘Sambalanço’ põe o VoD pra dançar

‘Sambalanço’ põe o VoD pra dançar

Rodrigo Fonseca

09 de fevereiro de 2021 | 13h24

Elza Soares põe a pista dos bailes a tremer em imagem de arquivo de “Sambalanço – A Bossa Que Dança”, de Tárik de Souza e Fabiano Maciel

Rodrigo Fonseca
Admirado, seguido e até invejado – porém, jamais copiado, dada a originalidade de sua prosa – em redações de jornal do país inteiro, onde é uma referência de invenção frasal e excelência analítica nos cadernos de cultura, Tárik de Souza, o maior crítico de música do país, consagrado aqui no P de Pop como o Dick Tracy da MPB, entrou agora nas plataformas digitais. E entrou em forma de cinema, em parceria com o cineasta Fabiano Maciel, no .doc “Sambalanço: A Bossa Que Dança”, já em VoD. Rola tomar esse banho de descarrego em forma de filme no Now e no Vivo Play. A voz de Tárik, pétrea, mas capaz de malear sua autoridade de postulante com uma ginga de mangueirense e um drible de vascaíno (dos tempos bons de Ademir “Queixada” Menezes), vai conduzindo a plateia por uma viagem no tempo. Viagem essa envolvendo titãs da melodia como Elza Soares, Durval Ferreira, Eumir Deodato, Paulo Silvino, o leviatã do ritmo Ed Lincoln e Orlandivo, com suas onomatopeias e brincadeiras sonoras tipos “Tuplec Tplin” ou “Blin Blon”. O foco é histórico e sociológico: nos anos 1950 e 60, entre boates de Copacabana e bailes da Zona Norte do Rio de Janeiro, surgiu um ritmo que conquistou admiradores no Brasil e em todo o mundo. Misturando jazz, samba e música latina, o Sambalanço vendeu milhares de discos. O que Tárik faz, em seu roteiro investigativo – calcado no livro homônimo que lançou pela Kuarup, em 2017 -, é levantar o mito de formação desse estilo musical a partir das memórias e das vivências de seus artífices, contando com Orlandivo (morto em 2017 e também conhecido como Orlann Divo e Orlan Divo) como um exu, que abre seus caminhos. A conversa com Elza, definida como “a porta-bandeira” do Sambalanço, é de se requebrar nas poltronas, com a diva falando de modernidade”. É bonito ver como o longa envereda por uma geopolítica de um Rio de outrora, mostrando como os “sambalancers” desbravaram o subúrbio carioca, lotando bailes na Penha, em Inhaúma e outros bairros pouco citados da cidade partida.

“Minha infância foi em Porto Alegre, entre o final dos anos 1960 e o início da década de 70”, lembra Fabiano. “Meu avô era ouvinte da rádio Guaíba, uma estação sóbria, de locutores que falavam pausadamente em programas patrocinados pelos jatos Caravelle da Cruzeiro. Mas se os locutores eram discretos, as músicas esbanjavam sacolejo. E eram, em sua maioria, versões com órgão dos sucessos que o meu pai ouvia em outra rádio, a nada sóbria Continental. Eu me perguntava, de onde saem tantas versões com órgão destas músicas? Fazendo o documentário ‘Sambalanço’, eu descobri: elas saiam da fábrica de sucessos de Ed Lincoln, Waldir Calmon, Djalma Ferreira, dos Catedráticos, que muito mais tarde eu fui saber que era o Eumir Deodato tentando ser Ed Lincoln”.
Na entrevista a seguir, Tárik explica como a pesquisa foi essencial para a construção do filme, previsto para estrear em abril no Canal Brasil.

Como é que o sambalaço mudou as convenções da música no Brasil e como é que o movimento cruza com a Nossa Nova e com a chegada dos hits de disco e afins a partir dos anos 1970?
Tárik de Souza:
Como diz o nome do gênero, o sambalanço turbinou o samba, utilizando a tecnologia da época. Fez balançar o órgão Hammond (que veio das igrejas, do jazz e do soul) e até mesmo um pré-sintetizador, o solovox. Erigiu um formato dançante adaptado aos pequenos ambientes das boates de Copacabana, onde as pistas eram minúsculas. As apinhadas casas noturnas Drink e Arpege, nos anos 50, lideradas, respectivamente, pelos organistas Djalma Ferreira e Waldir Calmon (ambos usuários também do solovox) estabeleceram os padrões tímbricos, que depois foram seguidos por Ed Lincoln (discípulo direto de Djalma), Celso Murilo (idem), Walter Wanderley, o bossanovsta Eumir Deodato e vários outros. Era a época dos crooners, com destaque para Miltinho, cria de Djalma (e seus Milionários do Ritmo), que também tinha atuado em conjuntos vocais; Pedrinho Rodrigues; Emilio Santiago; Toni Tornado; e mais, a turbinada pela própria natureza, Elza Soares, além de Doris Monteiro, Claudette Soares e outras mais. Também foram crooners de Ed Lincoln os cantores/compositores Sylvio Cesar e Orlan Divo. O primeiro, de índole mais romântica e o segundo, a encarnação vocal do sambalanço, com composições ícones do movimento.

É possível falar num marco zero e num marco de chegada para o movimento? Quais?
Tárik de Souza:
Marco zero: “Samba que eu quero ver”, de e com Djalma Ferreira, em 1951. Marco de chegada: a gravação de “Samba de balanço” – epigrama da dupla Haroldo Barbosa e Luis Reis – feita por Roberta Sá e Marcelo D2, que saiu em disco e DVD em 2009, trazendo o sambalanço até a era do rap.
Que heranças o sambalanço deixou?
Tárik de Souza:
Heranças de leveza e flexibilidade no trato com o samba, e a eterna rainha da intensa maleabilidade, Elza Soares.

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