‘Salto no Vazio’: eternidade na streaminguesfera

‘Salto no Vazio’: eternidade na streaminguesfera

Rodrigo Fonseca

28 de dezembro de 2020 | 13h48

Patrícia Niedermeier faz da dança uma linguagem de “Salto no Vazio”

Rodrigo Fonseca
Fervendo à temperatura máxima, na disputa dos streamings pela fidelidade dos espectadores, a Amazon Prime vem emplacando um filmaço atrás outro, na promessa de bombar em 2021 com “Um Príncipe em Nova York 2”, com Eddie Murphy dublado por Eddie Murphy. No Natal, “O Amor de Sylvie”, com Tessa Thmpson dirigida por Eugene Ashe, ampliou ainda mais a popularidade da plataforma, apostando nas cartilhas da love story. Às vésperas do réveillon, seu cardápio de iguarias foi renovado com tem um bom thriller de ação (o doído “Uma Noite Em Banguecoque”, com o astro das artes marciais Mark Dacascos, muso nos anos 1990); com um potencial candidato ao Oscar (“O Som do Silêncio”, de Darius Marder, que pode valer uma estatueta a Riz Ahmed, pelo papel de um baterista às voltas com a perda da audição); e com um suspense noir com John Travolta (“A Rosa Venenosa”, no qual Morgan Freeman tem um instigante papel). E ainda teve “No Gogó Do Paulinho”, comediaça da dupla Roberto Santucci e Paulo Cursino. Mas a safra de brasilidade da Amazon agora ganha um reforço com “Salto no Vazio”, de Patrícia Niedermeier e Cavi Borges. É um experimento nas franjas do afeto.

Narrativa epistolar, construída a partir de 15 cartas de amor que sintetizam o périplo afetivo de uma mulher enamorada, “Salto no vazio” se estrutura na telona como um atlas colorido. A montagem traz a marca autoral de edição de Christian Caselli, um ícone do cinema autoral carioca, diretor de curtas pautados pela subversão das caretices audiovisuais, como “O Paradoxo da Espera do Ônibus” (2007). Além da edição dionisíaca dele, há montagens adicionais de Marcelo Brandão e Terêncio Porto, que fundem mapas, fotos e vídeos numa épica de andanças pelo mundo. Estamos diante de uma aventura que traduz o deslocamento como arte, evocando um parentesco indireto com “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Este mapa mundi que passeia por Nova York, Berlim, Praga e outros portos usa um balé contemporâneo como respiro, feito uma vírgula lúdica numa prosa recheada de feitos. Quem dança é uma bailarina só: Patricia Niedermeier, coautora do roteiro e diretora com seu companheiro, o dínamo Cavi. Quando ela entra em cena, com seu rico ferramental dramático, a solidão de seu corpo em movimento ganha um tom de lirismo. É dela também a voz que nos conta o fiapo de trama deste longa-metragem. Há um enredo que costura o fluxo de imagens, vinhetas e retratos: nele, uma cineasta prepara um filme sobre um cartógrafo. Esse ser fictício inventa os lugares que mapeia. Por isso, para a diretora, viajar é fundamental: correr o planeta é uma forma de ampliar a paleta de cores da imaginação. Mas a algo que ancora essa realizadora no Real: uma paixão, traduzida nos minutos iniciais do longa por um beijo. Patricia enlaça Cavi num afago que serve de norte: temos aqui uma love story, que passeia pelas artes plásticas (em citações a Yves Klein) e pela literatura (numa comovente visita à casa onde Franz Kafka nasceu), misturando os verbos “criar” e “amar” como súmula de felicidade.

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