Saltimbanco do Brasil

Saltimbanco do Brasil

Rodrigo Fonseca

04 de junho de 2020 | 12h38

RODRIGO FONSECA – #FiqueEmCasa
Didi Mocó existe? Essa é a pergunta que poderíamos fazer, da mesma maneira como a menina Virginia O’Hanlon Douglas, filha de um médico da Nova York do século XIX, fez em 1897, ao escrever para o jornal “The Sun” perguntando: “Papai Noel existe?”. A resposta do editorialista: “Sim, Virginia, o Papai Noel existe, assim como existem o amor e a generosidade”. Talvez o ceticismo dos tempos de hoje questione qual seja o lugar de um mito do heroísmo pícaro infantil, uma espécie de Homem de Ferro da resiliência, um Rocky Balboa nordestino, que carrega nas luvas a força do Ceará. Mas bastam poucos minutos de “Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood”, com seu encanto de meninice, para que se afirme, em alto e bom som: “Sim, Didi Mocó existe dentro de cada um de nós, brasileiros, que acreditamos na força de nosso país”. Às 14h50 desta terça, a “Sessão da Tarde” abre sua ribalta para ele e seu “cavalo” alado, Antônio Renato Aragão, adorável trapalhão, irmão Grimm do Brasil.

Nota-se brilho já na abertura, na qual Seu Aragão vai à festa do Oscar, nos EUA, buscar uma estatueta para Didi Mocó. Qualquer detalhe que se dê sobre ela é um convite a spoilers: o ideal, durante a transmissão deste poético exercício de lirismo do diretor João Daniel Tikhomiroff, é sacar quem está na plateia, quem apresenta os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e, em especial, como se faz a locução dela. É uma crítica abrasiva num filme pautado pela doçura e pelo lirismo, que presta um tributo ao Cinema e ao Circo ao revisitar o clássico de Josip Brogoslaw Tanko (1906-1993): “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981). Aliás, não se trata de um remake e sim de um exercício de “revisitação”, repaginando situações e personagens, mas preservando o mesmo ambiente e a mesma premissa. Mesmo Didi não aparece com o perfil chapliniano padrão: o vagabundo errante de antes agora virou um autor, com a missão de escrever um musical para salvar o picadeiro que sempre chamou de seu.
Apoiado no roteiro de Mauro Lima (diretor do sucesso “Meu Nome Não é Johnny”), “Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood” é uma espécie de “Amarcord” de Aragão: se você não conhece a palavra, ela se refere ao título de uma obra-prima de Fellini, autorrevisionista, calcada numa palavra de um dialeto de Rimini que significa “eu me recordo”. É um “Amarcord” uma vez que permite a este mito – o maior mito vivo do Brasil na telona – mergulhar em suas próprias memórias cinematográficas, usando-as não como um documento de época, mas como matéria-prima de sonho. A partir de um resgate do clássico de Tanko e da peça homônima dele derivada em 2014, cria-se um novo e lúdico produto, calcado numa aventura de Didi para manter seu circo de pé. A luta dele tem um algoz bem definido, o Prefeito Gavião, defendido pelo ladrão de cenas Nelson Freitas, que cria um vilão deliciosamente caricato.

As músicas que marcaram gerações estão todas lá, com arranjos novos. Mas Meu Caro Barão ainda faz chorar como antes. Vale lembrar que Renato e sua mulher, Lilian Taranto Aragão, hoje roubam risadas e suspiros no Instagram, com divertidos posts.
p.s.: Nesta quinta, às 14h, o Canal Brasil inicia a mostra “Vidas Negras Importam”, com os filmes “A última abolição”, “O caso do homem errado”, “Nóis por nóis” e “Eu não sou seu negro”.

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